{"id":2186,"date":"2023-06-28T12:00:00","date_gmt":"2023-06-28T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/alameda.institute\/?p=2186"},"modified":"2026-02-10T21:20:10","modified_gmt":"2026-02-10T21:20:10","slug":"para-escovar-a-historia-a-contrapelo-junho-uma-montagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/artigo\/para-escovar-a-historia-a-contrapelo-junho-uma-montagem\/","title":{"rendered":"Para escovar a hist\u00f3ria a contrapelo: junho, uma montagem"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-post-date has-small-font-size\"><time datetime=\"2023-06-28T12:00:00+00:00\">28 de junho de 2023<\/time><\/div>\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/2-1024x576.png.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-2291\" style=\"width:814px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/2-1024x576.png.webp 1024w, https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/2-300x169.png.webp 300w, https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/2-768x432.png.webp 768w, https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/2-1536x864.png.webp 1536w, https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/2-18x10.png.webp 18w, https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/2-150x85.png 150w, https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/2-600x338.png.webp 600w, https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/2.png.webp 1600w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Nomea\u00e7\u00e3o: junho como paradigma<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Vou nomear junho de 2013 apenas assim, sem recorrer a express\u00f5es consagradas como \"Jornadas de Junho\", \"Revoltas de Junho\" ou as suas varia\u00e7\u00f5es ao longo do tempo, como Junho de 2013 e Junho, com letra mai\u00fascula. Pretendo estabelecer desde o in\u00edcio que n\u00e3o estou alinhada ao entendimento de que junho de 2013 tem o peso de um acontecimento, de algo inesperado, impens\u00e1vel, imprevis\u00edvel ou imposs\u00edvel. Como pretendo argumentar, n\u00e3o \u00e9 o caso das manifesta\u00e7\u00f5es de rua de junho de 2013, que participam de uma din\u00e2mica pol\u00edtica em disputa h\u00e1 muito mais de dez anos e s\u00f3 irromperam inesperadamente para quem n\u00e3o estava prestando a devida aten\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Olhar para junho exige pensar sobre os dois mandatos consecutivos do presidente Lula, oito anos em que o governo prometia enfim enfrentar as mazelas da desigualdade socioecon\u00f4mica \u00e0 qual estamos submetidos desde o in\u00edcio da nossa hist\u00f3ria colonial. Lula, no entanto, n\u00e3o pode ser compreendido sem uma an\u00e1lise da ascens\u00e3o do PSDB de Fernando Henrique Cardoso ao poder em 1994, na sequ\u00eancia da elei\u00e7\u00e3o e do impeachment do presidente Collor, que caiu tamb\u00e9m dividindo as ruas entre os apoiadores de verde-amarelo e a oposi\u00e7\u00e3o e suas bandeiras vermelhas. De passo atr\u00e1s em passo atr\u00e1s, pensar em junho nos levaria de volta ao golpe civil-militar de 1964 - outro epis\u00f3dio entre \"patriotas\" e \"comunistas\", a anistia ampla, geral e irrestrita de 1979, a campanha das Diretas-J\u00e1 em 1984, ao grande acordo da Nova Rep\u00fablica em 1985, \u00e0 Constituinte de 1988, n\u00e3o sem antes passar pelo suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas em 1954. A hist\u00f3ria presidencialista desde a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica \u00e9 feita de rupturas e suas respectivas acomoda\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse caminho retrospectivo, poder\u00edamos voltar ao confronto entre multiculturalistas e \"p\u00f3s-modernos\", sendo os primeiros apresentados como os promotores de consensos ditos pac\u00edficos e os segundos os acusados de arautos da fragmenta\u00e7\u00e3o, da desconstru\u00e7\u00e3o e da destrui\u00e7\u00e3o. O atual diagn\u00f3stico de enfraquecimento da democracia reconheceria, antes de mais nada, o fracasso das pr\u00e1ticas de di\u00e1logo e toler\u00e2ncia e as dificuldades de operar no campo das alian\u00e7as contingentes. Nesse sentido, junho \u00e9 t\u00e3o processual que at\u00e9 poderia localizar sua origem nas querelas te\u00f3ricas em marcha desde o final do s\u00e9culo passado.<br><\/p>\n\n\n\n<p>No cen\u00e1rio econ\u00f4mico, \u00e9 preciso recuar a 2009, quando a derrocada banc\u00e1ria nos EUA por causa das hipotecas varreu os mercados financeiros internacionais, aprofundou a crise econ\u00f4mica e colocou a economia brasileira no circuito do fluxo do capital estrangeiro. oferecendo seus capitais para sediar grandes eventos - Copa do Mundo, 2014; Olimp\u00edadas, 2016 - e assim fazer o dinheiro circular. Para poucos, \u00e9 claro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 em junho de 2013 elementos que podem servir como chave de compreens\u00e3o do nosso passado pol\u00edtico - recente ou mais long\u00ednquo, a depender do interesse de quem analisa e com qual interesse o faz. Por uma perspectiva, junho teria sido um momento \u00fanico na hist\u00f3ria dos movimentos de esquerda, que tomaram as ruas a fim de exigir a amplia\u00e7\u00e3o de direitos que estavam ent\u00e3o sob amea\u00e7a de retrocessos. Visto assim, as conquistas obtidas nos dois primeiros mandatos do presidente Lula haviam se tornado insuficientes para aplacar o tamanho da desigualdade brasileira. e o crescimento do acesso \u00e0 universidade teria ainda contribu\u00eddo para gerar frusta\u00e7\u00e3o em uma juventude que buscava mobilidade social via educa\u00e7\u00e3o<sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"1\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-1\">1<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-1\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"1\"> Essa perspectiva t\u00e3o otimista a respeito do acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o pode ser interrogada a partir de pesquisa realizada por Carlos Costa Ribeiro sobre mobilidade social pela via da educa\u00e7\u00e3o. Segundo ele, as transi\u00e7\u00f5es educacionais n\u00e3o t\u00eam sido suficientes para aplacar desigualdades de ra\u00e7a e de classe. Discuto mais a respeito no meu artigo \"Mais que um, menos que dois\", publicado na Revisa Hum(e)anas:<\/span>. \u00c9 uma abordagem muito conveniente a esse governo, porque torna est\u00e9ril as reivindica\u00e7\u00f5es pelo direito \u00e0 cidade e ao campo, pela mobilidade, aqui tomada no seu sentido mais amplo. Por esse caminho, as manifesta\u00e7\u00f5es de junho s\u00e3o acusadas de terem sido uma oportunidade, produzida pela esquerda - que se equivocava ao ir \u00e0s ruas contra governos do PT -, para a emerg\u00eancia de for\u00e7as de ultradireita, as quais j\u00e1 estavam \u00e0 espreita de uma brecha para se fortalecerem como oposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 relativamente confort\u00e1vel localizar em um suposto radicalismo da esquerda a responsabilidade pela emerg\u00eancia das for\u00e7as de extrema direita - que, no entanto, sempre estiveram a\u00ed<sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"2\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-2\">2<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-2\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"2\"> Gostaria de indicar meu artigo \"Sa\u00eddas da grande noite colonial\", publicado na revista Estilha\u00e7o, como refer\u00eancia para esse problema de uma extrema direita que sempre este a\u00ed. &lt; <a href=\"https:\/\/www.xn--estilhao-y0a.com.br\/saidasdagrandenoitecolonial\">https:\/\/www.xn--estilhao-y0a.com.br\/saidasdagrandenoitecolonial<\/a>&gt;. Na mesma edi\u00e7\u00e3o, artigo de Deivison Faustino,<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>As ruas, aqui entendidas como espa\u00e7o p\u00fablico e pol\u00edtico, sempre foram objeto de disputa, com fluxos e refluxos, golpes e contragolpes, lutas de resist\u00eancias por hegemonia. Nessa forma de compreender a <em>quase-sociedade<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"3\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-3\">3<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-3\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"3\"> Escolhi usar essa express\u00e3o para facilitar a refer\u00eancia ao extenso debate iniciado por Ant\u00f4nio C\u00e2ndido, seguido por Roberto S. e Paulo Arantes, que consideram que nunca chegou a se formar aquilo que chamamos de \"sociedade brasileira\".<\/span> brasileira, seus atores e atrizes, junho \u00e9 mais um momento - mesmo que muito expressivo - de embate no qual as for\u00e7as populares de esquerda s\u00e3o levadas de rold\u00e3o por grandes acordos costurados pelas elites. Se h\u00e1 uma novidade, n\u00e3o \u00e9 no rev\u00e9s em si, mas em sua dimens\u00e3o destruidora do grande consenso nacional sobre o qual se assentava a retomada democr\u00e1tica desde os anos 1980. Que junho represente o fim da Nova Rep\u00fablica, hoje parece uma proposi\u00e7\u00e3o evidente. O dif\u00edcil de explicar talvez ainda seja porque a crise do sistema de pactos, acordos e consensos demorou tanto a ser fortemente contestada<sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"4\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-4\">4<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-4\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"4\">A este respeito, \u00e9 vasta a produ\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo Marcos Nobre e seu diagn\u00f3stico de \"fim do peemedebismo\". Aqui, esse fim \u00e9 comemorado, na medida em que os consensos pol\u00edticos que marcaram o in\u00edcio da Nova Rep\u00fablica - a\u00ed inclu\u00edda a anistia aos militares - s\u00e3o por mim entendidos como sinais violentos de rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o popular. Ver tamb\u00e9m argumenta\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo Vladimir Safatle em cap\u00edtulo do livro \"Junho de 2013: a rebeli\u00e3o fantasma\", Boitempo, 2023, e nesta entrevista &lt;<a href=\"https:\/\/istoe.com.br\/2013-marcou-o-fim-da-nova-republica\/\">https:\/\/istoe.com.br\/2013-marcou-o-fim-da-nova-republica\/<\/a>&gt;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>No meu argumento, junho \u00e9 paradigm\u00e1tico. No sentido que o fil\u00f3sofo italiano Giorgio Agamben confere ao termo, paradigma \u00e9 uma metodologia para fazer com que certos fen\u00f4menos sejam intelig\u00edveis, dispondo de singularidades lado a lado. O paradigma sup\u00f5e a possibilidade de produzir clivagens no interior de um arquivo cronol\u00f3gico em si inerte, a fim de torn\u00e1-los leg\u00edveis. \u00c9 assim que pretendo extrair de junho caracter\u00edsticas que estabelecem um padr\u00e3o para o que vir\u00e1 a ocorrer no interior dos movimentos sociais de esquerda, mais especificamente, dentro do campo feminista. Quero me valer da j\u00e1 estabelecida dicotomia entre dois polos - junho foi uma explos\u00e3o social de esquerda versus junho foi a porta aberta pela esquerda para a expans\u00e3o da ultradireita - para encontrar no interior dos movimentos feministas um tipo de divis\u00e3o muito parecida. Em uma esp\u00e9cie de mimese, os feminismos come\u00e7am a reproduzir em seu n\u00facleo aquilo que, l\u00e1 fora, j\u00e1 se consolidava como \"polariza\u00e7\u00e3o\", repetindo internamente a divis\u00e3o posta nas ruas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quem, n\u00f3s, feministas?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tomo como premissa o fato hist\u00f3rico de que os movimentos feministas s\u00e3o marcados - e, at\u00e9 um ponto, historicamente sempre se orgulharam disso - por uma heterogeneidade interna.  Existem as intelectuais te\u00f3ricas e as ativistas, com boas doses de interse\u00e7\u00f5es entre elas. No primeiro grupo, h\u00e1 abordagens marxistas, socialistas, p\u00f3s-estruturalistas, existencialistas, apenas para citar as correntes mais \u00f3bvias. No grande campo das ativistas, h\u00e1 mulheres brancas, negras, ind\u00edgenas, rurais, l\u00e9sbicas, radicais, trans... E em cada um desses campos \u00e9 poss\u00edvel de novo encontrar subdivis\u00f5es internas. Em certa medida, s\u00e3o essas tens\u00f5es que produzem as possibilidades de abertura para mudan\u00e7as, em vez dos grandes consensos da pol\u00edtica tradicional. Agon\u00edstico ou movido por alian\u00e7as contingentes os movimentos de mulheres n\u00e3o s\u00e3o nem nunca foram un\u00edvocos, sem, no entanto, nunca terem deixado de estar ligados por um m\u00ednimo denominador comum: a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres, aqui entendida como liberta\u00e7\u00e3o do jugo, do poder e da opress\u00e3o do patriarcado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais consenso. Diverge-se em rela\u00e7\u00e3o ao que o termo \"mulher\" representa; n\u00e3o est\u00e1 dado que toda feminista \u00e9 cr\u00edtica ao poder dos homens, como apontam certos grupos de mulheres negras; nem todas as feministas est\u00e3o de acordo com o uso do conceito de patriarcado, cujo sentido pode variar hist\u00f3rica e temporalmente; as feministas radicais n\u00e3o aceitam mulheres trans no campo feminista. N\u00e3o existe acordo nem mesmo nas pautas mais permanentes, como o combate \u00e0 viol\u00eancia - s\u00e3o grandes as disputas entre punitivistas e antipunitivistas - ou a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto. Embora pesquisas apontem que s\u00e3o principalmente as mulheres negras e pobres as mais prejudicadas pela proibi\u00e7\u00e3o do aborto, ainda assim existe uma cr\u00edtica importante a ser considerada, a de que o feminismo branco ignoraria a luta das mulheres negras pelo direito \u00e0 maternidade, tantas vezes interrompida pela viol\u00eancia policial contra crian\u00e7as e jovens negros<sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"5\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-5\">5<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-5\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"5\">Discuto esse problema no artigo \"Nem presa, nem morta nem imoral\", aqui:<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem feministas articuladas internacionalmente, assim como existem as que consideram infrut\u00edfero qualquer di\u00e1logo com as mulheres do Norte global; h\u00e1 mulheres conectadas em grupos latino-americanos e outras que afirmam a centralidade do trabalho nas periferias em detrimento de outras articula\u00e7\u00f5es. Apesar de tudo isso, no caso brasileiro, as organiza\u00e7\u00f5es de mulheres estiveram juntas in\u00fameras vezes desde o in\u00edcio da redemocratiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 not\u00e1vel, por exemplo, o empenho feminista na luta por escrever e ampliar direitos na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988<sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"6\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-6\">6<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-6\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"6\">\u00d3tima recupera\u00e7\u00e3o desta hist\u00f3ria da luta das mulheres na Constituinte no podcast \"Jogo de cartas\", aqui: &lt;<a href=\"https:\/\/www.deezer.com\/br\/show\/5767617\">https:\/\/www.deezer.com\/br\/show\/5767617<\/a>&gt;<\/span>.  As manifesta\u00e7\u00f5es no dia 8 de mar\u00e7o s\u00e3o tamb\u00e9m um caso de alian\u00e7as internas e supera\u00e7\u00e3o de diverg\u00eancias em prol de lutas comuns. Antes e depois de junho de 2013, muitos desses grupos estavam e permaneceram nas ruas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 porque o campo feminista andava desassistido desde o primeiro mandato de Lula. A expectativa otimista, resultado da cria\u00e7\u00e3o da Secretaria de Pol\u00edticas para as Mulheres da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, presidida pela m\u00e9dica Nic\u00e9a Freire, esfriou em 2005. Um acordo promovido pelo Executivo com as for\u00e7as religiosas do Legislativo impediu a vota\u00e7\u00e3o de projeto de lei de descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto no qual as feministas haviam trabalhado duro por tr\u00eas anos. Como eu dizia, o caminho de volta ao passado pode ser muito longo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Antes e depois do golpe&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando o segundo mandato de Lula termina e ele d\u00e1 posse \u00e0 Dilma Rousseff, celebrando a vit\u00f3ria da primeira mulher a assumir a presid\u00eancia da Rep\u00fablica - e n\u00e3o qualquer mulher, mas uma ex-guerrilheira que havia lutado contra a ditadura de 1964 -, fornece a falsa impress\u00e3o de que haveria uma radicalidade \u00e0 esquerda, enquanto, na pr\u00e1tica, seria preciso fazer ainda mais concess\u00f5es \u00e0 governabilidade dos acordos de gabinete. Dilma herdara as estrat\u00e9gias de concilia\u00e7\u00e3o costuradas por Lula no segundo mandato, fragilizado pelas den\u00fancias do Mensal\u00e3o, que irrompem \u00e0 direita pela figura do deputado Roberto Jefferson (PTB). Lula havia aprofundado o caminho do grande consenso, deixando \u00e0 margem das pol\u00edticas p\u00fablicas contingentes de eleitores e eleitoras do campo da esquerda e menosprezando - ou, talvez seja melhor dizer, ignorando - as reivindica\u00e7\u00f5es da\u00ed advindas. Al\u00e9m do mais, \u00e9 importante sempre lembrar, a misoginia impregnada na sociedade brasileira contamina o mandato de Dilma desde o seu in\u00edcio. E, para completar, a presidenta nunca chegou a ser identificada como feminista, o que fez com que o movimento de mulheres tivesse se mantido com ela em estado permanente de tens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma hist\u00f3ria pr\u00e9via de ocupa\u00e7\u00e3o das ruas por parte de movimentos de esquerda - com destaque para o Movimento Passe Livre, que, em S\u00e3o Paulo, organizava manifesta\u00e7\u00f5es contra o aumento de 0,20 centavos nas passagens de \u00f4nibus -, e de reivindica\u00e7\u00f5es de mobilidade urbana, como descrevem os livros recentes de Angela Alonso e Roberto Andr\u00e9s<sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"7\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-7\">7<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-7\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"7\">Respectivamente, Angela Alonso, Treze (Cia da Letras, 2013) e Roberto Andr\u00e9s, <em>A raz\u00e3o dos centavos<\/em> (Zahar, 2013).<\/span>. Em rela\u00e7\u00e3o ao governo Lula, tamb\u00e9m se dirigiam reivindica\u00e7\u00f5es de mobilidade socioecon\u00f4mica. Havia um campo popular de esquerda nas ruas muito antes de junho. S\u00f3 que a esquerda n\u00e3o estava sozinha. Era abril de 2010 quando a Igreja Universal do Reino de Deus ocupou o Aterro do Flamengo, com quase um milh\u00e3o de pessoas mobilizadas pelo chamado \"Dia D\", evento simult\u00e2neo em todas as capitais do pa\u00eds e de propor\u00e7\u00f5es gigantescas no Rio de Janeiro, cidade que ent\u00e3o j\u00e1 ostentava o segundo lugar no ranking das capitais de maior eleitorado evang\u00e9lico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os encontros entraram para o calend\u00e1rio pol\u00edtico-religioso da Iurd e se repetiram em todos os anos seguintes. Em 2009, o governo federal instituiu uma data nacional para a Marcha para Jesus, cujas mobiliza\u00e7\u00f5es s\u00e3o cada vez mais resultado de reivindica\u00e7\u00e3o de representatividade dos neopentecostais na vida pol\u00edtica do pa\u00eds. Foi tamb\u00e9m em julho de 2013 que a Igreja Cat\u00f3lica organizou a Jornada Mundial da Juventude, com a presen\u00e7a do rec\u00e9m-nomeado Papa Francisco, e com uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a nas ruas, onde milhares de fi\u00e9is protestavam contra a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto distribuindo miniaturas de embri\u00f5es. A bandeira do aborto estar\u00e1 no centro da disputa pol\u00edtico-religiosa que incluiu uma s\u00e9rie de protestos contra a nomea\u00e7\u00e3o do pastor Marcos Feliciano para a Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da C\u00e2mara, em mar\u00e7o de 2013.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dois anos depois, o deputado Eduardo Cunha, rompido com a base aliada do governo, apresenta o Projeto de lei 5069, que retirava direitos de acesso ao aborto legal em caso de estupro. Art\u00edfice do golpe parlamentar que derrubou Dilma, Cunha conseguiu emparedar as feministas. O projeto nos empurrou para as ruas, por raz\u00f5es \u00f3bvias: era preciso defender os direitos j\u00e1 conquistados. Foi por iniciativas como essa que \"resistir\" virou palavra de ordem. Os protestos das mulheres configuraram-se uma oportunidade perfeita, armada deliberadamente pela ultradireita religiosa a fim de nos acusar, uma vez mais, de \"aborteiras\", \"bruxas\", \"destruidoras da fam\u00edlia\" ou \"assassinas de crian\u00e7as\". Interessa observar alguns aspectos: os protestos contra o PL fizeram parte da \"primavera das mulheres\", indicando a constru\u00e7\u00e3o de uma liga\u00e7\u00e3o com as primaveras internacionais. Imperava o que vou chamar de \"l\u00f3gica da resist\u00eancia\". A partir de um certo momento, passamos apenas a reagir aos ataques da direita, num c\u00edrculo infernal - vamos para as ruas protestar, perdemos, e a direita ainda se aproveita dos nossos protestos para nos difamar nas redes sociais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro e \u00faltimo fen\u00f4meno \u00e9 mais complexo e diz respeito aos \"discursos de \u00f3dio\" dentro do pr\u00f3prio campo progressista. Pelo uso desses discursos de \u00f3dio, eu mesma corro o risco de ser execrada por parcela significativa de feministas, aquelas que consideram o pensamento cr\u00edtico uma trai\u00e7\u00e3o. Se quero combater os discursos de \u00f3dio dentro do campo feminista \u00e9 por acreditar ser fundamental retomar um ponto te\u00f3rico que h\u00e1 muito me mobiliza: s\u00e3o pol\u00edticos os pr\u00f3prios termos em que fazemos pol\u00edtica<sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"8\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-8\">8<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-8\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"8\">Em <em>Arquitetura das arestas<\/em> (Autonomia Liter\u00e1ria, 2022), Edmilson Paran\u00e1 e Gabriel Tupinamb\u00e1 discutem o problema das formas de organiza\u00e7\u00e3o no campo da esquerda. No rec\u00e9m-lan\u00e7ado <em>Nem vertical nem horizontal<\/em>(Ubu Editora, 2023) Rodrigo Nunes aborda o mesmo tema.<\/span>. Se os termos est\u00e3o dados pelos advers\u00e1rios, ent\u00e3o, a pol\u00edtica passa a ser apenas um jogo especular em que, de um lado ou de outro do espectro ideol\u00f3gico, o comportamento \u00e9 id\u00eantico. Essa indistin\u00e7\u00e3o no modo de fazer - reativa, violenta, punitivista e preconceituosa a partir de argumentos morais - promoveu, no meu entendimento, fen\u00f4menos diretamente relacionados entre si: a fragmenta\u00e7\u00e3o da esquerda e a coes\u00e3o da direita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Fragmenta\u00e7\u00e3o porque a certa altura importava mais lutar contra uma poss\u00edvel aliada e porque junho enterra de vez a possibilidade de seguir fazendo pol\u00edtica \u00e0 base de consensos. Esta era uma estrat\u00e9gia vitoriosa quando os pleitos se dirigiam a inimigos em comum. Esse tipo de uni\u00e3o tinha sido usado em 1984 e 1993, respectivamente pelas Diretas e pelo impeachment do Collor, e provou-se esgotado para os movimentos populares de esquerda principalmente a partir do segundo mandato de Lula. De minha parte, acrescento que as mulheres chegaram a se mobilizar contra o golpe, na mesma l\u00f3gica de uni\u00e3o contra um inimigo comum. Tarde demais, \u00e9 verdade. Quando voltamos para as ruas em apoio ao governo Dilma, j\u00e1 n\u00e3o havia muito mais a fazer e as press\u00f5es no parlamento j\u00e1 eram, como sempre s\u00e3o, muito mais fortes que a for\u00e7a popular.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uso como exemplo a Marcha das Margaridas. A primeira manifesta\u00e7\u00e3o reuniu mulheres do campo e da floresta e faz parte da agenda do Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, com mobiliza\u00e7\u00f5es anuais que passaram a levar a Bras\u00edlia milhares de mulheres envolvidas em quest\u00f5es ambientais e direito \u00e0 terra. Era ainda governo Lula quando as mulheres rurais decidiram ocupar Bras\u00edlia uma vez por ano e apresentar suas reivindica\u00e7\u00f5es. Essas mesmas mulheres que, desde 2011, caminhavam para Bras\u00edlia exigindo seus direitos, em 2016, estavam na Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes apoiando o mandato de Dilma, um dos muitos movimentos de mulheres que tentaram ressignificar as manifesta\u00e7\u00f5es, que agora precisavam ser contra o golpe. Se os extremos \u00e0 direita e \u00e0 esquerda estavam nas ruas, o governo estava onde sempre esteve, tentando se equilibrar ao centro. Em muitas an\u00e1lises, porque esse \u00e9 o \u00fanico lugar a partir do qual se pode gerir o pa\u00eds. As rupturas foram empurradas para as margens, onde estranhamente se encontraram.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A <em>Slutwalk<\/em> nasceu em 2011, em Toronto, Canad\u00e1, puxada por jovens universit\u00e1rias, depois de in\u00fameros casos de estupro pr\u00f3ximos ao campus. No Brasil, onde alguns movimentos feministas t\u00eam articula\u00e7\u00e3o internacional, a primeira Marcha das Vadias acontece no mesmo 2011, mas s\u00f3 a partir de 2013 ganhar\u00e1 dimens\u00e3o nacional, com manifesta\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas em quase todas as capitais. Pesquisa sobre a din\u00e2mica de organiza\u00e7\u00e3o da Marcha das Vadias no Rio de Janeiro em 2014 mostra diverg\u00eancias internas entre mulheres brancas e mulheres negras, estas cr\u00edticas ao uso do termo \"vadias\" como incapaz de \"representar experi\u00eancias particulares de mulheres de diferentes ra\u00e7as e etnias\"<sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"9\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-9\">9<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-9\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"9\">Estou me referindo ao trabalho de de Let\u00edcia Ribeiro, Brena O'Dwyer e Maria Luiza Heilborn no artigo \"Dilemas do feminismo e a possibilidade de radicaliza\u00e7\u00e3o da democracia em meio \u00e0s diferen\u00e7as: o caso da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro\". Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/revistaseletronicas.pucrs.br\/ojs\/index.php\/civitas\/article\/view\/27560\">https:\/\/revistaseletronicas.pucrs.br\/ojs\/index.php\/civitas\/article\/view\/27560<\/a>&gt;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p>. Interessante notar que o problema de a quem os feminismos podem representar, formulado por Judith Butler desde os anos 1990 em <em>Problemas de g\u00eanero<\/em>O presidente do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o da empresa, Sr. Henderson, \u00e9 um dos mais importantes l\u00edderes pol\u00edticos do mundo, que retorna, j\u00e1 no \u00e2mbito de um momento pol\u00edtico marcado tamb\u00e9m pela crise da representa\u00e7\u00e3o instalada na pol\u00edtica oficial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum dos dois sintagmas - feministas brancas ou feministas negras - configuram grupos homog\u00eaneos, o que n\u00e3o impediu que se estabelecessem diverg\u00eancias acirradas na organiza\u00e7\u00e3o da marcha, amplificadas no interior de cada um desses dois grandes grupos. Para as mulheres negras, o direito \u00e0 sexualidade esbarra no estigma hist\u00f3rico de terem seus corpos hiperssexualizados, anulando a estrat\u00e9gia de subvers\u00e3o do termo \"vadias\". Parte das mulheres negras recusa o termo \"feminismo\", o conceito de g\u00eanero \u00e9 recusado tanto por feministas descoloniais quanto por feministas radicais, emergindo da\u00ed uma forte e surpreendente alian\u00e7a contra a categoria epistemol\u00f3gica tida como colonizadora, no argumento das primeiras ou como estrat\u00e9gia de apagamento das \"mulheres verdadeiras\", no argumento das segundas. Some-se a isso o crescimento das terfs -<em>Feminismo radical trans-exclusivo<\/em> ou feminismo radical transexcludente, infelizmente associado \u00e0 ades\u00e3o a proposi\u00e7\u00f5es de extrema direita, como a nega\u00e7\u00e3o do conceito de g\u00eanero em prol da defesa de uma \"mulheridade\" que faz o feminismo retornar aos fundamentos essencialistas dos quais pretende ter se libertado.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, nas elei\u00e7\u00f5es de 2018, o candidato Jair Bolsonaro passou para o primeiro lugar das pesquisas, feministas e comunidade LGBTQIA+ organizaram manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas movidas pela hashtag #elen\u00e3o, o que mais uma vez produziu rupturas. As ruas mostravam for\u00e7a ou fraqueza? As manifesta\u00e7\u00f5es estavam contribuindo para que o campo conservador tivesse ainda mais medo de um candidato de esquerda e, com isso, ajudavam a candidatura de Bolsonaro? Estas foram algumas das acusa\u00e7\u00f5es dirigidas aos movimentos de mulheres e que interpretaram como ind\u00edcio de que havia mais diverg\u00eancias do que consensos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da vit\u00f3ria de Bolsonaro, a nomea\u00e7\u00e3o de Damares Alves para o Minist\u00e9rio da Fam\u00edlia completou um ciclo de rupturas internas. Promovendo a\u00e7\u00f5es em nome das \"mulheres\", ela tornou terra arrasada os t\u00edmidos avan\u00e7os dos oito anos de mandatos de Lula e os ainda mais t\u00edmidos avan\u00e7os dos seis de Dilma. Enquanto tratava de aparelhar os conselhos tutelares, Damares usou o arcabou\u00e7o das pautas pol\u00edticas feministas contra o feminismo, promovendo a\u00e7\u00f5es de governo similares ao assistencialismo das d\u00e9cadas de 1950\/60. A fam\u00edlia e seu car\u00e1ter essencialista fez as pontas extremas se encontrarem: de um lado, o neofascismo e sua defesa da fam\u00edlia tradicional; de outro o \"feminismo de direita\", contr\u00e1rios \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es dos direitos das mulheres e da popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+.<\/p>\n\n\n\n<p>Damares, e com ela uma s\u00e9rie de prefeituras e governos estaduais \u00e0 direita, se empenharam em levar \u00e0s mulheres um tipo de apoio que refor\u00e7ava o lugar essencialista em nome de qualidades ditas femininas. O resultado \u00e9 espantoso, mas n\u00e3o surpreendente. Em seu n\u00facleo, o campo feminista tradicional se esgar\u00e7a, enquanto a direita navega numa onda de retrocesso em rela\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3prios temas pelos quais se pretende lutar, como combate \u00e0 viol\u00eancia, gera\u00e7\u00e3o de emprego, acesso \u00e0 sa\u00fade etc. Desde ent\u00e3o, \u00e9 crescente a apropria\u00e7\u00e3o de pautas tidas como feministas pela ultradireita. Se de um lado e do outro os problemas s\u00e3o os mesmos, ent\u00e3o, mais uma vez, tornam-se pol\u00edticos os pr\u00f3prios termos em que se faz pol\u00edtica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na extrema direita, for\u00e7as religiosas se unem ou mesmo se misturam a grupos de direita a fim de mobilizar um dos afetos mais poderosos da pol\u00edtica, o medo. O recurso ao p\u00e2nico moral, nosso velho conhecido - e muito bem documentado pela antrop\u00f3loga estadunidense Gayle Rubin nos anos 1980 - tem sido uma arma poderosa para a alian\u00e7a das mulheres com o neofascismo<sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"10\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-10\">10<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-10\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"10\">Estou me referindo ao artigo \"Pensando o sexo: notas para uma teoria radical da pol\u00edtica da sexualidade\", cujo original \u00e9 de 1982. A autora explora a rela\u00e7\u00e3o estabelecida pela direita entre a pr\u00e1tica sexual fora da fam\u00edlia, o comunismo e a fraqueza pol\u00edtica, e chama a aten\u00e7\u00e3o para como, desde o final dos anos 1970, cresce, a oposi\u00e7\u00e3o de direita \u00e0 educa\u00e7\u00e3o sexual, \u00e0 homossexualidade, \u00e0 pornografia, ao aborto e ao sexo antes do casamento.<\/span>. No meu argumento, essa uni\u00e3o tanto se vale da fragmenta\u00e7\u00e3o do campo da esquerda quanto a promove. Junho nos enfiou nessa armadilha. S\u00e3o insepar\u00e1veis causa e causalidade, origem e consequ\u00eancia, atando um intrincado n\u00f3, em que o pronome \"n\u00f3s\" passa a ser usado numa estranha ambiguidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O clich\u00ea do ovo da serpente e 2014 no meio do caminho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 ponderei que interessava ao governo Lula sustentar a interpreta\u00e7\u00e3o de que junho de 2013 foi a porta aberta para a entrada das for\u00e7as de extrema direita na pol\u00edtica. Agora vou seguir muito de perto a pesquisa do cientista pol\u00edtico Fernando Limongi e sua afirma\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o foram os movimentos de rua que derrubaram Dilma Rousseff do poder. Em <em>Opera\u00e7\u00e3o impeachment<\/em> (Todavia, 2023), ele defende a hip\u00f3tese de que Dilma caiu porque seu apoio inicial \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras foram desagradando e amea\u00e7ando a classe pol\u00edtica, pouco afeita a a\u00e7\u00f5es anticorrup\u00e7\u00e3o. Quanto mais a Lava-Jato avan\u00e7ava, mais ela perdia apoio, at\u00e9 mesmo do PT. N\u00e3o deixa de ser uma curiosidade hist\u00f3rica que a Petrobras esteja na origem do impeachment de Dilma, considerando que a mesma Petrobras esteve neste mesmo lugar em rela\u00e7\u00e3o ao impeachment de Fernando Collor, cujas primeiras acusa\u00e7\u00f5es emergem quando o ent\u00e3o presidente da estatal, Luiz Oct\u00e1vio Motta Veiga, pede demiss\u00e3o do cargo denunciando a a\u00e7\u00e3o delet\u00e9ria de PC Farias na empresa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2016, lembra Limongi, quando o impeachment \u00e9 votado, primeiro na C\u00e2mara e depois no Senado, as ruas j\u00e1 haviam arrefecido, apesar de todos os esfor\u00e7os do PSDB de apoiar os movimentos populares de extrema direita. Aqui, vale lembrar que se junho n\u00e3o come\u00e7ou em 2013, tamb\u00e9m n\u00e3o acabou ali. O PSDB soube muito bem arregimentar a for\u00e7a popular de direita para legitimar a decis\u00e3o do ent\u00e3o candidato A\u00e9cio Neves de n\u00e3o reconhecer o resultado das elei\u00e7\u00f5es de 2014. De qualquer lugar de onde se olhe, essa iniciativa tem muito mais import\u00e2ncia no processo de chocar o ovo da serpente, justo por ser uma ruptura institucional. N\u00e3o por acaso, \u00e9 a este momento que Bolsonaro em 2022 retoma para questionar a lisura das urnas eletr\u00f4nicas e pretender melar o processo eleitoral.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O \"ovo da serpente\" n\u00e3o foi chocado pela esquerda popular porque esse ovo foi gestado, alimentado, fomentado e financiado no ninho tucano, reproduzindo no neofascimo \u00e0 brasileira um esquema tradicional europeu do s\u00e9culo XX: o fascismo emerge da alian\u00e7a entre o poder conservador e uma for\u00e7a pol\u00edtica que se apresenta como \"novidade\", seguindo aqui a explica\u00e7\u00e3o de Robert O. Paxton<sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"11\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-11\">11<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-11\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"11\">Anatomia do fascismo. Record, 2007.<\/span>. Aos poucos, de 2014 em diante, a alian\u00e7a entre o conservadorismo tucano e a fal\u00e1cia de um candidato antissistema, representado por Jair Bolsonaro - pol\u00edtico que, como deputado integrava o chamado baixo clero do Congresso e como militar \u00e9 capit\u00e3o representante das baixas patentes e dos por\u00f5es da ditadura - foi fazendo do PSDB uma esp\u00e9cie de ref\u00e9m do neofascismo que o partido havia fomentado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nisso que logo nos acostumamos a chamar de \"polariza\u00e7\u00e3o\", n\u00e3o h\u00e1 equival\u00eancia entre os dois polos. Al\u00e9m dos argumentos explorados por tantas vozes defensoras da democracia - apenas um dos polos est\u00e1 de fato no fr\u00e1gil campo democr\u00e1tico brasileiro, enquanto o outro se empenha em corroer a democracia por dentro -, Existe essa ainda dificuldade de o campo da esquerda encontrar novas formas de fazer pol\u00edtica e, portanto, reconhecer que a extrema direita j\u00e1 dominou todas as que nos eram pr\u00f3prias, como a radicalidade e a mobiliza\u00e7\u00e3o popular, para ficar apenas em dois exemplos evidentes<sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"12\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-12\">12<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-12\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"12\">Seria preciso uma pesquisa extensa e mais espa\u00e7o para discutir o papel que os think tanks de ultradireita, com financiamento internacional, tiveram na forma\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as. Uma pequena amostra do problema aqui: https:\/\/diplomatique.org.br\/think-tanks-ultraliberais-e-nova-direita-brasileira\/<\/span>. \u00c9 um dos motivos porque tenho recusado a express\u00e3o \"bolsonarismo\", a esta altura consagrada entre analistas pol\u00edticos para se referir ao tipo de fascismo instalado no Brasil<sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"13\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-13\">13<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-13\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"13\">Recuso, n\u00e3o sem reconhecer a import\u00e2ncia e o pioneirismo das pesquisas da antrop\u00f3loga Isabela Kalil e seu uso espec\u00edfico do termo bolsonarismo como indica\u00e7\u00e3o da clivagem entre a figura do ex-presidente e a persist\u00eancia de um ide\u00e1rio fascista enraizado na sociedade brasileira.<\/span>. Rejeito a denomina\u00e7\u00e3o por acreditar que nela se esconde a articula\u00e7\u00e3o internacional da ultradireita que ofereceu sustenta\u00e7\u00e3o ao governo de Bolsonaro, mas que teria feito o mesmo por qualquer outro pol\u00edtico adequado ao papel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que Bolsonaro fosse muito conveniente - defensor despudorado da ditadura civil-militar, encarnava melhor do que ningu\u00e9m a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ex-guerrilheira Dilma -, importa para mim acentuar as liga\u00e7\u00f5es internacionais, porque s\u00e3o com elas que est\u00e3o conectados os feminismos de direita, em circuitos que v\u00e3o da Inglaterra anti-trans ao fim dos estudos de g\u00eanero na Hungria. Para os feminismos do campo de esquerda, as pautas de combate ao reconhecimento das pessoas trans s\u00e3o um exemplo cabal de articula\u00e7\u00e3o com os grupos de ultradireita<sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"14\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-14\">14<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-14\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"14\">Edi\u00e7\u00e3o especial da revista Transgender Studies Quarterly traz um amplo debate sobre essas liga\u00e7\u00f5es. &lt; <a href=\"https:\/\/read.dukeupress.edu\/tsq\/article\/9\/3\/311\/319375\/IntroductionTERFs-Gender-Critical-Movements-and\">https:\/\/read.dukeupress.edu\/tsq\/article\/9\/3\/311\/319375\/IntroductionTERFs-Gender-Critical-Movements-and<\/a>&gt;<\/span>. A luta pela hegemonia no campo feminista n\u00e3o \u00e9, infelizmente, um fen\u00f4meno brasileiro, ainda que as colora\u00e7\u00f5es locais confiram um car\u00e1ter espec\u00edfico a esta disputa.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de terminar, ainda seria preciso fazer men\u00e7\u00e3o ao uso das redes sociais, com frequ\u00eancia convocadas para explicar o \"fen\u00f4meno junho\". Isso que hoje conhecemos como redes sociais cresceram no rastro da chamada web 2.0, que numa era pr\u00e9-algoritmo j\u00e1 convocava ao engajamento e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o horizontal<sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"15\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-15\">15<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-15\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"15\">\u00c9 not\u00e1vel que o \"mito de origem\" da web 2.0 esteja situado no uso dos blogs rec\u00e9m-criados, que serviram, nos EUA, como ferramenta de conex\u00e3o entre as pessoas sobreviventes do 11 de setembro e foram impulsionados, a partir de dali, como o melhor exemplo de horizontalidade entre emissor-receptor de mensagens, superando, portanto, o modelo verticalizado da m\u00eddia tradicional.<\/span>. \u00c9 no m\u00ednimo paradoxal pretender atribuir a redes controladas por grandes corpora\u00e7\u00f5es a capacidade de mobilizar movimentos populares de esquerda. Como dizia o velho Marshall McLuhan, o meio \u00e9 a mensagem, e nas redes dominadas pelo nov\u00edssimo esp\u00edrito do capitalismo, h\u00e1 pelo menos duas mensagens em constante circula\u00e7\u00e3o: enquanto trabalha, fragmente-se! Enquanto descansa, goze, goze, goze!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para repetir a formula\u00e7\u00e3o de Achille Mbembe, as redes tornam-se pulsionais. Se antes a gest\u00e3o da vida social por consenso exigia a modera\u00e7\u00e3o de puls\u00f5es individuais em prol de acordos, a fragmenta\u00e7\u00e3o opera para liberar as puls\u00f5es individuais do \"mal-estar da civiliza\u00e7\u00e3o\" - o que se espelha no comportamento de l\u00edderes de extrema direita, que aparecem ao p\u00fablico como pura espontaneidade, dizendo tudo que querem dizer, sem concess\u00f5es \u00e0 liturgia do cargo. Trump e Bolsonaro s\u00e3o os dois melhores exemplos dessas puls\u00f5es descontroladas<sup class=\"modern-footnotes-footnote\" data-mfn=\"16\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007390000000000000000_2186\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-16\">16<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007390000000000000000_2186-16\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"16\">Como alegoria, remeto os leitores\/as \u00e0 s\u00e9rie inglesa Years and Years, veiculada no Brasil pela HBO. Desde o in\u00edcio, a candidata que encarna a extrema-direita usa exatamente esse tipo de estrat\u00e9gia, ao propor em um debate de TV que antes de votar os eleitores deveriam se submeter a um teste de QI, provocando rea\u00e7\u00f5es de espanto justamente por estar sendo sincera demais, fugindo, portando, do jogo do que pode ou n\u00e3o ser dito na pol\u00edtica. A cena faz parte do trailer oficial, aqui &lt; <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=SY41jhIP_xI\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=SY41jhIP_xI<\/a>.&gt;<\/span>. Vistos assim, os cartazes individuais com as mais variadas reivindica\u00e7\u00f5es seriam exemplo de puls\u00f5es liberadas, ou como um jeito de cada um dizer com o que quer gozar.  Para completar, as redes tornaram-se terreno f\u00e9rtil para exposi\u00e7\u00f5es liberadas de todo tipo de machismo e misoginia, com as mulheres protestando de um lado e, de outro, os algoritmos impulsionando a reatividade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, gostaria de retomar o argumento inicial: o que me faz interpretar junho de 2013 como paradigma \u00e9 interrogar a compreens\u00e3o vulgar de que a vit\u00f3ria da extrema direita foi uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o da esquerda nas ruas. A quem serve essa hip\u00f3tese \u00e9 uma pergunta pertinente. \u00c9 f\u00e1cil perceber que serve para que um certo campo da esquerda ignore as suas muitas contradi\u00e7\u00f5es: a defesa de uma institucionalidade forte, mas a servi\u00e7o dos poderosos de sempre; a reivindica\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica sem a cr\u00edtica \u00e0 democracia de baixa intensidade em vigor no Brasil; a inclus\u00e3o pela via do consumo e os seus devidos limites, muitos deles, inclusive, apontados pelas manifesta\u00e7\u00f5es de rua; a gest\u00e3o de popula\u00e7\u00e3o excedente por pol\u00edticas de seguran\u00e7a e encarceramento violentas e virulentas; a cegueira em rela\u00e7\u00e3o ao racismo e ao sexismo estruturais, classificados pejorativamente de \"identitarismo\"; a dificuldade de buscar governabilidade nos movimentos sociais, preferindo a suposta seguran\u00e7a dos acordos de gabinete - os mesmos que n\u00e3o ofereceram sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 Dilma nem evitaram o golpe de 2016 - s\u00e3o alguns dos impasses que ainda permanecem, apesar do bom resultado das urnas em 2022 e do al\u00edvio da sa\u00edda de Jair Bolsonaro da presid\u00eancia. Por tudo isso, entendo que junho de 2013 n\u00e3o \u00e9 uma fotografia, uma imagem congelada, mas um filme em movimento, ainda em processo de montagem, cujas cenas finais n\u00e3o acontecer\u00e3o na rampa do Pal\u00e1cio do Planalto nem em 1 de janeiro nem em 8 de janeiro de 2023.<\/p>\n<h4 class=\"modern-footnotes-list-heading\">NOTAS DE RODAP\u00c9<\/h4><ul class=\"modern-footnotes-list\"><li><span>1<\/span><div> Essa perspectiva t\u00e3o otimista a respeito do acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o pode ser interrogada a partir de pesquisa realizada por Carlos Costa Ribeiro sobre mobilidade social pela via da educa\u00e7\u00e3o. Segundo ele, as transi\u00e7\u00f5es educacionais n\u00e3o t\u00eam sido suficientes para aplacar desigualdades de ra\u00e7a e de classe. Discuto mais a respeito no meu artigo \"Mais que um, menos que dois\", publicado na Revisa Hum(e)anas:<\/div><\/li><li><span>2<\/span><div> Gostaria de indicar meu artigo \"Sa\u00eddas da grande noite colonial\", publicado na revista Estilha\u00e7o, como refer\u00eancia para esse problema de uma extrema direita que sempre este a\u00ed. &lt; <a href=\"https:\/\/www.xn--estilhao-y0a.com.br\/saidasdagrandenoitecolonial\">https:\/\/www.xn--estilhao-y0a.com.br\/saidasdagrandenoitecolonial<\/a>&gt;. Na mesma edi\u00e7\u00e3o, artigo de Deivison Faustino,<\/div><\/li><li><span>3<\/span><div> Escolhi usar essa express\u00e3o para facilitar a refer\u00eancia ao extenso debate iniciado por Ant\u00f4nio C\u00e2ndido, seguido por Roberto S. e Paulo Arantes, que consideram que nunca chegou a se formar aquilo que chamamos de \"sociedade brasileira\".<\/div><\/li><li><span>4<\/span><div>A este respeito, \u00e9 vasta a produ\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo Marcos Nobre e seu diagn\u00f3stico de \"fim do peemedebismo\". Aqui, esse fim \u00e9 comemorado, na medida em que os consensos pol\u00edticos que marcaram o in\u00edcio da Nova Rep\u00fablica - a\u00ed inclu\u00edda a anistia aos militares - s\u00e3o por mim entendidos como sinais violentos de rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o popular. Ver tamb\u00e9m argumenta\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo Vladimir Safatle em cap\u00edtulo do livro \"Junho de 2013: a rebeli\u00e3o fantasma\", Boitempo, 2023, e nesta entrevista &lt;<a href=\"https:\/\/istoe.com.br\/2013-marcou-o-fim-da-nova-republica\/\">https:\/\/istoe.com.br\/2013-marcou-o-fim-da-nova-republica\/<\/a>&gt;<\/div><\/li><li><span>5<\/span><div>Discuto esse problema no artigo \"Nem presa, nem morta nem imoral\", aqui:<\/div><\/li><li><span>6<\/span><div>\u00d3tima recupera\u00e7\u00e3o desta hist\u00f3ria da luta das mulheres na Constituinte no podcast \"Jogo de cartas\", aqui: &lt;<a href=\"https:\/\/www.deezer.com\/br\/show\/5767617\">https:\/\/www.deezer.com\/br\/show\/5767617<\/a>&gt;<\/div><\/li><li><span>7<\/span><div>Respectivamente, Angela Alonso, Treze (Cia da Letras, 2013) e Roberto Andr\u00e9s, <em>A raz\u00e3o dos centavos<\/em> (Zahar, 2013).<\/div><\/li><li><span>8<\/span><div>Em <em>Arquitetura das arestas<\/em> (Autonomia Liter\u00e1ria, 2022), Edmilson Paran\u00e1 e Gabriel Tupinamb\u00e1 discutem o problema das formas de organiza\u00e7\u00e3o no campo da esquerda. No rec\u00e9m-lan\u00e7ado <em>Nem vertical nem horizontal<\/em>(Ubu Editora, 2023) Rodrigo Nunes aborda o mesmo tema.<\/div><\/li><li><span>9<\/span><div>Estou me referindo ao trabalho de de Let\u00edcia Ribeiro, Brena O'Dwyer e Maria Luiza Heilborn no artigo \"Dilemas do feminismo e a possibilidade de radicaliza\u00e7\u00e3o da democracia em meio \u00e0s diferen\u00e7as: o caso da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro\". Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/revistaseletronicas.pucrs.br\/ojs\/index.php\/civitas\/article\/view\/27560\">https:\/\/revistaseletronicas.pucrs.br\/ojs\/index.php\/civitas\/article\/view\/27560<\/a>&gt;<\/div><\/li><li><span>10<\/span><div>Estou me referindo ao artigo \"Pensando o sexo: notas para uma teoria radical da pol\u00edtica da sexualidade\", cujo original \u00e9 de 1982. A autora explora a rela\u00e7\u00e3o estabelecida pela direita entre a pr\u00e1tica sexual fora da fam\u00edlia, o comunismo e a fraqueza pol\u00edtica, e chama a aten\u00e7\u00e3o para como, desde o final dos anos 1970, cresce, a oposi\u00e7\u00e3o de direita \u00e0 educa\u00e7\u00e3o sexual, \u00e0 homossexualidade, \u00e0 pornografia, ao aborto e ao sexo antes do casamento.<\/div><\/li><li><span>11<\/span><div>Anatomia do fascismo. Record, 2007.<\/div><\/li><li><span>12<\/span><div>Seria preciso uma pesquisa extensa e mais espa\u00e7o para discutir o papel que os think tanks de ultradireita, com financiamento internacional, tiveram na forma\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as. Uma pequena amostra do problema aqui: https:\/\/diplomatique.org.br\/think-tanks-ultraliberais-e-nova-direita-brasileira\/<\/div><\/li><li><span>13<\/span><div>Recuso, n\u00e3o sem reconhecer a import\u00e2ncia e o pioneirismo das pesquisas da antrop\u00f3loga Isabela Kalil e seu uso espec\u00edfico do termo bolsonarismo como indica\u00e7\u00e3o da clivagem entre a figura do ex-presidente e a persist\u00eancia de um ide\u00e1rio fascista enraizado na sociedade brasileira.<\/div><\/li><li><span>14<\/span><div>Edi\u00e7\u00e3o especial da revista Transgender Studies Quarterly traz um amplo debate sobre essas liga\u00e7\u00f5es. &lt; <a href=\"https:\/\/read.dukeupress.edu\/tsq\/article\/9\/3\/311\/319375\/IntroductionTERFs-Gender-Critical-Movements-and\">https:\/\/read.dukeupress.edu\/tsq\/article\/9\/3\/311\/319375\/IntroductionTERFs-Gender-Critical-Movements-and<\/a>&gt;<\/div><\/li><li><span>15<\/span><div>\u00c9 not\u00e1vel que o \"mito de origem\" da web 2.0 esteja situado no uso dos blogs rec\u00e9m-criados, que serviram, nos EUA, como ferramenta de conex\u00e3o entre as pessoas sobreviventes do 11 de setembro e foram impulsionados, a partir de dali, como o melhor exemplo de horizontalidade entre emissor-receptor de mensagens, superando, portanto, o modelo verticalizado da m\u00eddia tradicional.<\/div><\/li><li><span>16<\/span><div>Como alegoria, remeto os leitores\/as \u00e0 s\u00e9rie inglesa Years and Years, veiculada no Brasil pela HBO. Desde o in\u00edcio, a candidata que encarna a extrema-direita usa exatamente esse tipo de estrat\u00e9gia, ao propor em um debate de TV que antes de votar os eleitores deveriam se submeter a um teste de QI, provocando rea\u00e7\u00f5es de espanto justamente por estar sendo sincera demais, fugindo, portando, do jogo do que pode ou n\u00e3o ser dito na pol\u00edtica. A cena faz parte do trailer oficial, aqui &lt; <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=SY41jhIP_xI\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=SY41jhIP_xI<\/a>.&gt;<\/div><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nomea\u00e7\u00e3o: junho como paradigma&nbsp; Vou nomear junho de 2013 apenas assim, sem recorrer a express\u00f5es consagradas como \u201cJornadas de Junho\u201d, \u201cRevoltas de Junho\u201d ou as suas varia\u00e7\u00f5es ao longo do tempo, como Junho de 2013 e Junho, com letra mai\u00fascula. 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