{"id":2204,"date":"2023-06-26T10:00:00","date_gmt":"2023-06-26T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/alameda.institute\/?p=2204"},"modified":"2026-02-10T21:18:22","modified_gmt":"2026-02-10T21:18:22","slug":"fragmentos-de-2013","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/artigo\/fragmentos-de-2013\/","title":{"rendered":"Fragmentos de 2013"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-post-date has-small-font-size\"><time datetime=\"2023-06-26T10:00:00+00:00\">26 de junho de 2023<\/time><\/div>\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/5-1024x576.png.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-2289\" style=\"width:686px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/5-1024x576.png.webp 1024w, https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/5-300x169.png.webp 300w, https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/5-768x432.png.webp 768w, https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/5-1536x864.png 1536w, https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/5-18x10.png.webp 18w, https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/5-150x85.png.webp 150w, https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/5-600x338.png.webp 600w, https:\/\/alameda.institute\/wp-content\/smush-webp\/2023\/06\/5.png.webp 1600w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>O convite para escrever sobre junho de 2013 dez anos nos coloca diferentes quest\u00f5es. Como escrever algo que n\u00e3o seja a repeti\u00e7\u00e3o de platitudes \u00e0 esquerda e \u00e0 direita sobre aquele momento? Ter\u00edamos algo novo a dizer?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Decidimos ent\u00e3o relembrar alguns acontecimentos do per\u00edodo, colocar quest\u00f5es que nos apareceram no momento e outras que nos formulamos posteriormente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>*<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um pequeno assentamento em Americana (SP) come\u00e7ou o ano amea\u00e7ado de despejo. O estranhamento era geral: Como um assentamento poderia ser despejado? A amea\u00e7a j\u00e1 vinha do ano anterior, quando a antiga propriet\u00e1ria conseguiu uma decis\u00e3o para reaver a propriedade. Apesar das promessas, o INCRA hesitava em tomar medidas efetivas para garantir a perman\u00eancia do assentamento. Quando caem por terra, uma a uma, as propostas apresentadas nas assembleias pelos dirigentes do Movimento dos Sem Terra, os assentados procuram algumas lideran\u00e7as locais que haviam deixado o movimento com cr\u00edticas dois anos antes. A partir da\u00ed, as a\u00e7\u00f5es se intensificam. Eles fecham estradas, protestam no escrit\u00f3rio da presid\u00eancia em S\u00e3o Paulo, pressionam o pr\u00f3prio MST. Nas palavras de um dos assentados, \u2018n\u00f3s temos uma tarefa: fazer o imposs\u00edvel\u2019. De fato, tratava-se de fazer o que ningu\u00e9m era capaz de vislumbrar: achar um caminho no meio daquela pol\u00edtica de consenso para devolver a a\u00e7\u00e3o aos trabalhadores, sem esperar mais o resultado das infind\u00e1veis mesas de negocia\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>15 de janeiro. Os assentados ocuparam a sede do INCRA em S\u00e3o Paulo. Todos sentiram que n\u00e3o era mais poss\u00edvel relembrar, mas al\u00e9m disso, que era preciso continuar avan\u00e7ando. O que fazer? N\u00e3o havia resposta pronta. O que n\u00e3o fazer, por outro, estava claro: n\u00e3o apostar mais nas negocia\u00e7\u00f5es de c\u00fapula, n\u00e3o abrir m\u00e3o da radicalidade em nome de um suposto pragmatismo conciliador.<\/p>\n\n\n\n<p>23 de janeiro. Assentados e apoiadores, de pequenos coletivos aut\u00f4nomos da cidade, ocupam o Instituto Lula. Em 2013, o ex-presidente foi - de longe - a figura mais popular do pa\u00eds, depois de deixar a presid\u00eancia com aprova\u00e7\u00e3o recorde. Por meio do Instituto, ele realizava palestras ao redor do mundo inteiro, a convite das mais diferentes empresas e organiza\u00e7\u00f5es, abordando os desafios do combate \u00e0 pobreza para plateias seletas. Ocupar aquele espa\u00e7o significava pressionar o n\u00facleo decis\u00f3rio do Partido dos Trabalhadores a agir em defesa do assentamento, era colocar a luta acima de acordos pol\u00edticos de preservar a imagem do governo. Significava fazer o imposs\u00edvel para vencer.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para aqueles de n\u00f3s que buscavam uma alternativa ao consenso colocado, por uma luta que passasse por fora das estruturas de coopta\u00e7\u00e3o, as li\u00e7\u00f5es pareciam claras. Era poss\u00edvel ousar, era poss\u00edvel recusar o consenso, era necess\u00e1rio n\u00e3o recuar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele janeiro, o Movimento Passe Livre de S\u00e3o Paulo tinha se renovado bastante. Havia muitos militantes novos, animados. A expectativa de ter um aumento de passagem rondava a cidade quando a imprensa anunciou que o reajuste ocorreria apenas em junho, atendendo a um pedido expresso da presidenta. O que fazer?<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira tarefa se imp\u00f4s. O aumento foi adiado apenas na capital paulista; muitas cidades da regi\u00e3o metropolitana reajustaram as passagens. Toda aquela nova gera\u00e7\u00e3o de militantes foi ajudar a organizar atos em Cotia, Mau\u00e1, Osasco, Carapicu\u00edba, Barueri, Caieiras, Francisco Morato, Franco da Rocha e Tabo\u00e3o da Serra, cidade em que o aumento foi efetivamente revertido. A experi\u00eancia concreta da luta de rua nessas cidades m\u00e9dias contribu\u00eda n\u00e3o apenas para fortalecer a refer\u00eancia do MPL para uma parte da juventude urbana, como para formar, na pr\u00e1tica, uma s\u00e9rie de militantes, que aprenderia ali a organizar atos, a lidar com a repress\u00e3o, a utilizar as vias urbanas como arma contra os gestores.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda tarefa, n\u00f3s inventamos. Planejar a luta contra o aumento: estudar todas as experi\u00eancias de cidades que barraram o aumento ao longo da d\u00e9cada anterior; mapear todos os grupos que poderiam participar da luta conosco; levantar todas as a\u00e7\u00f5es poss\u00edveis de se fazer na cidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As conclus\u00f5es a que chegamos passavam por promover, em, no m\u00e1ximo, duas semanas, manifesta\u00e7\u00f5es radicais focadas na redu\u00e7\u00e3o da passagem que sa\u00edssem do controle de n\u00f3s mesmos. Decidimos anunciar desde o come\u00e7o que n\u00e3o t\u00ednhamos controle sobre o que acontecia, trabalhar com o fantasma da cidade insurrecta para construir de fato a insurrei\u00e7\u00e3o na cidade. Isso inclu\u00eda a\u00e7\u00f5es concretas e uma constru\u00e7\u00e3o discursiva: o primeiro dia de aumento amanheceu com pneus em chamas no \u2018fund\u00e3o\u2019 da Estrada M'Boi Mirim, no extremo sul da cidade; pouco depois, a manifesta\u00e7\u00e3o deu as costas para prefeitura e voltou a queimar pneus - mas dessa vez pensando na foto de capa dos jornais do dia seguinte. Tudo cuidadosamente planejado - mas s\u00f3 at\u00e9 a revoga\u00e7\u00e3o do aumento.<\/p>\n\n\n\n<p>Imagin\u00e1vamos que se a mobiliza\u00e7\u00e3o sa\u00edsse do nosso controle em S\u00e3o Paulo, as lutas explodiriam por todo o pa\u00eds. Mas entre pensar nisso e ver milhares de pessoas nas ruas de Ouro Preto do Oeste, ou a C\u00e2mara de S\u00e3o Jo\u00e3o Del Rey ocupada por dias, existe um abismo. Come\u00e7\u00e1vamos a nos perguntar: \u2018e se a gente ganhar?\u2019. Muitos de n\u00f3s responderam, de pronto, que era a popula\u00e7\u00e3o nas ruas que decidiria como as coisas seguiriam. Mas como construir tais espa\u00e7os de decis\u00e3o? Seria melhor abra\u00e7ar a difus\u00e3o de pautas ou focar na quest\u00e3o do transporte coletivo? Para onde avan\u00e7ar? Como se organizar para tal? Perguntas que n\u00e3o soubemos responder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>Conta-se que no dia 6 de junho, Fernando Haddad havia preparado uma comiss\u00e3o para receber um grupo de lideran\u00e7as quando os manifestantes chegassem \u00e0 frente da Prefeitura. A hist\u00f3ria \u00e9 mal explicada, n\u00e3o s\u00f3 porque tal reuni\u00e3o n\u00e3o aconteceu, como tamb\u00e9m porque o convite sequer chegou ao MPL naquele dia. Mas, segundo algumas vers\u00f5es, representantes do prefeito teriam inclusive descido at\u00e9 a concentra\u00e7\u00e3o no Teatro Municipal para tentar algum contato pr\u00e9vio, em v\u00e3o...<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo caso, \u00e9 curioso imaginar a surpresa da equipe de Haddad quando o ato passou reto pela frente do pr\u00e9dio da Prefeitura e seguiu um caminho tortuoso, virando na L\u00edbero Badar\u00f3 e descendo em seguida pelo cal\u00e7ad\u00e3o at\u00e9 o Vale do Anhangaba\u00fa. As janelas do Edif\u00edcio Matarazzo certamente proporcionaram uma vista privilegiada para as chamas da barricada que fechou a sa\u00edda do t\u00fanel e a multid\u00e3o que tomou o Corredor Norte-Sul, concretizando a amea\u00e7a estampada no bandeir\u00e3o lan\u00e7ado do alto do Viaduto do Ch\u00e1: \u2018se a tarifa n\u00e3o baixar, a cidade vai parar\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez fosse isso que o prefeito tivesse em mente quando afirmou \u00e0 imprensa, dois dias depois, que havia procurado o MPL, mas o movimento teria recusado o di\u00e1logo. Em suas notas p\u00fablicas seguintes, o movimento se esfor\u00e7aria em desmentir o prefeito e dizer que estava aberto ao di\u00e1logo. Na manh\u00e3 do dia 11 de junho, o grupo chegaria a protocolar um pedido de reuni\u00e3o com o prefeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Quarta-feira, 12 de junho. O Minist\u00e9rio P\u00fablico convoca uma reuni\u00e3o de intermedia\u00e7\u00e3o entre o movimento e o poder p\u00fablico. O MPL vai. Haddad e Alckmin est\u00e3o em Paris e n\u00e3o enviam nenhum representante pol\u00edtico, apenas quadros t\u00e9cnicos da pasta de transportes, sem poder para tomar decis\u00f5es. A reuni\u00e3o termina com uma proposta de acordo: se o governo suspendesse o aumento por 45 dias, o movimento tamb\u00e9m suspenderia os protestos. No c\u00e1lculo pol\u00edtico dos militantes ali presentes, a redu\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria da tarifa j\u00e1 seria uma vit\u00f3ria e, dali a um m\u00eas e meio, o governo estaria em uma correla\u00e7\u00e3o adversa para tentar reeditar o aumento. Um sindicalista ainda completou: se o governo suspendesse o aumento, era s\u00f3 transferir a concentra\u00e7\u00e3o do dia seguinte para o Ibirapuera e transformar o ato vira um beija\u00e7o de comemora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ser\u00e1 que o MPL estava certo nesse c\u00e1lculo? E se Haddad ou Alckmin, de volta da Fran\u00e7a, acatassem a proposta? Aquele acordo n\u00e3o poderia ter entrado na mobiliza\u00e7\u00e3o? Os militantes tamb\u00e9m pressionam esse risco, tanto \u00e9 que sa\u00edram correndo do audit\u00f3rio depois da reuni\u00e3o, para evitar qualquer foto que pudesse ser interpretada como sinal de concilia\u00e7\u00e3o. Contudo, o fato \u00e9 que o governo ignorou o Minist\u00e9rio P\u00fablico e a proposta foi esquecida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>Parece detalhe, mas muda tudo: em junho de 2013 quase ningu\u00e9m usava WhatsApp por aqui. Ali\u00e1s, pouca gente tinha smartphone. Os militantes, em geral, preferiam os celulares mais velhos por h\u00e1bito de seguran\u00e7a - basta lembrar do procedimento de tirar a bateria em reuni\u00f5es, imposs\u00edvel nos aparelhos atuais. A maior parte da comunica\u00e7\u00e3o durante os protestos foi feita por mensagens SMS ou liga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>Dois diretores do sindicato dos metrovi\u00e1rios conversavam em um piquete em apoio \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o dos ferrovi\u00e1rios. Um deles defendia que era necess\u00e1rio apoiar a luta contra o aumento, o outro falava que o vandalismo afastava a categoria. O segundo questionamento: \u2018voc\u00ea acha que esses meninos aqui da CPTM apoiam esse tipo de coisa?\u2019. Eles chamam os \u2018meninos\u2019 e perguntam: \u2018O que voc\u00eas acham desses protestos?\u2019 e eles respondem sem hesitar \u2018Tem que quebrar tudo!\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>17 de junho. Com a repercuss\u00e3o alcan\u00e7ada pelas imagens de repress\u00e3o policial na quinta-feira anterior, uma multid\u00e3o se esparrama pelo entorno do largo da Batata naquela segunda. Cartazes, gritos, rostos, roupas s\u00e3o ainda mais diversos que nos protestos anteriores. Um bloco encabe\u00e7ado por membros de torcidas organizadas - que haviam se reunido num encontro hist\u00f3rico, junto com integrantes do MPL-SP naquele mesmo dia pela manh\u00e3 - segue pela Marginal Pinheiros, com alguns milhares de pessoas, enquanto a maior parte dos manifestantes segue pela Faria Lima e pela Berrini at\u00e9 que trajetos se cruzem na Ponte Estaiada. Uma terceira frente n\u00e3o planejada se forma rumo \u00e0 Avenida Paulista, que tamb\u00e9m seria completamente tomada. Cenas em que um grupo de manifestantes protege vidra\u00e7as de pequenos bandos mascarados se repetem. Ao restabelecer os limites da ordem dentro da revolta, o mantra \u2018sem viol\u00eancia!\u2019 anunciava outras viol\u00eancias por virem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco antes de alcan\u00e7ar a Estaiada, um militante recebe uma liga\u00e7\u00e3o. Um camarada atrasado avisava que tinha acabado de chegar \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o do ato e procurava os demais, sem perceber que as faixas de frente estavam a alguns quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia e uma multid\u00e3o - talvez at\u00e9 hoje subestimada em seu volume - ocupava o atual eixo das finan\u00e7as de S\u00e3o Paulo de uma ponta a outra.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais ou menos \u00e0quela altura, um menino que devia ter uns 15 anos avistava o bloco da Marginal de longe, junto com um grupo de amigos no Real Parque. Para alguns deles, aquela multid\u00e3o \u2018diferente\u2019 parecia uma boa oportunidade para roubar carteiras e celulares. Depois de descer e se juntar ao protesto, a turma v\u00ea os manifestantes impedirem outros de furtarem e desistirem de tentar algo do tipo, mas acompanha o bloco por um tempo na marginal. Pouco mais de dois anos mais tarde, aquele menino que se juntou ao ato por acaso, mas observou as faixas e cartazes com aten\u00e7\u00e3o e voltou para casa inquieto, participa intensamente da ocupa\u00e7\u00e3o de uma escola estadual em Parais\u00f3polis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>Ter\u00e7a-feira, 18 de junho. Um militante subia a Consola\u00e7\u00e3o - tentando em v\u00e3o chegar \u00e0 frente de um ato que j\u00e1 n\u00e3o tinha frente, e se dividia em in\u00fameros blocos que percorriam o centro e a Paulista - quando atendeu a liga\u00e7\u00e3o de uma jornalista: \u2018voc\u00ea pode passar o telefone de algu\u00e9m do MPL que esteja na Raposo Tavares? Sem saber de nada planejado para acontecer naquela regi\u00e3o da cidade, ele demorou um pouco para processar a pergunta. Mais tarde descobrimos, pelo relato de membros de um movimento de moradia que tinha ocupa\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o de Cotia, que uma manifesta\u00e7\u00e3o de cerca de 500 moradores havia bloqueado a rodovia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na mesma noite, outro camarada recebe um SMS: \u2018estou na Ponte do Socorro, e voc\u00ea?\u2019. Tempos depois, ao contar que participava dos atos, um colega de trabalho contaria a um militante que era \u2018aquele pessoal que botou fogo nos pneus, viajando o Rodoanel\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela ter\u00e7a-feira, o que anunci\u00e1vamos desde o come\u00e7o dos protestos se tornou verdade: na Zona Sul de S\u00e3o Paulo, as manifesta\u00e7\u00f5es se sucederam por mais de 24 horas seguidas; pelo menos 80 \u00f4nibus foram depredados; lojas foram saqueadas no centro e nas periferias; in\u00fameras avenidas e rodovias foram fechadas. Ao menos momentaneamente, os trabalhadores tomavam a cidade de assalto.<\/p>\n\n\n\n<p>Dez anos depois, o que sabemos sobre os protestos an\u00f4nimos que eclodiram nas periferias das grandes cidades brasileiras naqueles dias?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos militantes do MPL que ficou encarregado de dar entrevistas recebe os primeiros de outra cidade. Resolve lev\u00e1-los em uma famosa pizzaria paulista na Vila Buarque. Era uma noite de julho e o sal\u00e3o estava particularmente cheio. Ao sentar-se, ele nota um certo rumor entre os gar\u00e7ons. Um deles o aborda:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>- Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 o fulano? Do Movimento Passe Livre?<\/p>\n\n\n\n<p>- Sou, sim.<\/p>\n\n\n\n<p>- Queria dizer que a gente conversou aqui entre a gente, e estamos com voc\u00eas, viu? A gente n\u00e3o vai pro ato por conta do hor\u00e1rio do trabalho, mas tamo junto!<\/p>\n\n\n\n<p>O militante fica meio sem palavras. O que responder em uma situa\u00e7\u00e3o dessas? Como conectar aquela conversa entre colegas de trabalho com as lutas pr\u00e1ticas? Aquele \u2018tamo junto\u2019 era um reconhecimento de que o cliente tamb\u00e9m era um trabalhador? Ou carregaria justamente uma dissolu\u00e7\u00e3o dos antagonismos de classe?&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o cliente j\u00e1 sai do sal\u00e3o, o <em>barman<\/em> Levantou o bra\u00e7o para o alto e gritou:<\/p>\n\n\n\n<p>- A luta continua!<\/p>\n\n\n\n<p>Uma janela estava aberta ali. Como saltar por ela? Como ir al\u00e9m da conex\u00e3o pessoal entre a figura p\u00fablica e aqueles trabalhadores? Poderiam eles se encontrarem lado a lado na rua, em hor\u00e1rio de trabalho? Talvez numa greve geral que fosse al\u00e9m das convoca\u00e7\u00f5es frustradas... Infelizmente essas quest\u00f5es sequer foram debatidas naquele momento.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O convite para escrever sobre junho de 2013 dez anos nos coloca diferentes quest\u00f5es. Como escrever algo que n\u00e3o seja a repeti\u00e7\u00e3o de platitudes \u00e0 esquerda e \u00e0 direita sobre aquele momento? 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