{"id":5558,"date":"2024-05-30T12:11:20","date_gmt":"2024-05-30T12:11:20","guid":{"rendered":"https:\/\/alameda.institute\/?p=5558"},"modified":"2026-03-11T16:18:15","modified_gmt":"2026-03-11T16:18:15","slug":"as-novas-aliancas-estrategicas-na-luta-pela-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/artigo\/as-novas-aliancas-estrategicas-na-luta-pela-terra\/","title":{"rendered":"As novas alian\u00e7as estrat\u00e9gicas na luta pela terra"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-post-date has-small-font-size\"><time datetime=\"2024-05-30T12:11:20+00:00\">maio 30, 2024<\/time><\/div>\n\n\n<div style=\"height:22px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Defendendo a alian\u00e7a preta, ind\u00edgena e popular, a Teia dos Povos transforma a luta por terra e territ\u00f3rio no centro de um projeto revolucion\u00e1rio que se prop\u00f5e a encarar a emerg\u00eancia clim\u00e1tica com propostas concretas e pr\u00e1ticas inovadoras.<\/p>\n\n\n\n<p>A Teia dos Povos \u00e9 uma&nbsp;<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2020\/07\/paz-entre-nos-guerra-aos-senhores-uma-tradicao-rebelde-de-aliancas\/\"><em>articula\u00e7\u00e3o<\/em><\/a>&nbsp;de comunidades que aproxima movimentos sociais organizados em territ\u00f3rios para criar e fortalecer la\u00e7os de solidariedade entre eles, tendo a agroecologia como um de seus fundamentos e a soberania dos grupos articulados como horizonte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dando centralidade \u00e0 luta pela terra (um solo para plantar e produzir o sustento) e pelo territ\u00f3rio (um lugar para habitar e pertencer), a Teia prop\u00f5e uma alian\u00e7a \u201cInd\u00edgena, Preta e Popular\u201d capaz de garantir soberania \u2013h\u00eddrica, alimentar, energ\u00e9tica e pedag\u00f3gica \u2013 para os diversos povos ligados a ela, com gera\u00e7\u00e3o de renda e garantia de seguran\u00e7a. Criada em 2012, durante a 1\u00ba Jornada de Agroecologia da Bahia, realizada no Assentamento Terra Vista, em Arataca (BA), \u00e9 composta por representantes Patax\u00f3s, Tupinamb\u00e1s, Patax\u00f3 H\u00e3-h\u00e3-h\u00e3e, quilombolas e campesinos de diversos movimentos. O respeito \u00e0 heterogeneidade dos diversos povos articulados, donos de saberes tradicionais e modos de organiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3prios de seus territ\u00f3rios, \u00e9 um dos pilares da Teia, que busca encontrar nas diversas lutas por meio de di\u00e1logos horizontais, da troca de conhecimentos e da solidariedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi para ver a Teia mais de perto que visitei, no \u00faltimo m\u00eas de setembro, o assentamento Terra Vista, a convite do&nbsp;<a href=\"https:\/\/alameda.institute\/pt\/\">Instituto Alameda<\/a>&nbsp;e tive a oportunidade de conversar com Joelson Ferreira, o Mestre Joelson, pioneiro do assentamento e lideran\u00e7a da Teia.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sede do evento que culminou na funda\u00e7\u00e3o da Teia dos Povos, em 2012, o assentamento Terra Vista \u00e9 hoje uma esp\u00e9cie de farol para a Teia dos Povos, funcionando ao mesmo tempo como refer\u00eancia, inspira\u00e7\u00e3o e espa\u00e7o de aprendizado e acolhimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Resultado direto da luta dos militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na Bahia, que no dia 8 de mar\u00e7o de 1992 ocuparam a Fazenda Bela Vista, de 913 hectares, o assentamento Terra Vista s\u00f3 foi fincou ra\u00edzes definitivamente em 1994, depois de resistir a cinco a\u00e7\u00f5es de despejo. Marco entre as conquistas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Brasil, se destaca por representar uma vit\u00f3ria no cora\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o cacaueira, historicamente marcada pelo latif\u00fandio, pelo coronelismo e pela explora\u00e7\u00e3o brutal de gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es de trabalhadores rurais empobrecidos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Terra, territ\u00f3rio e autonomia<\/h3>\n\n\n\n<p>No caderno de forma\u00e7\u00e3o n\u00famero 30 do MST, a territorializa\u00e7\u00e3o \u00e9 definida como \u201co processo de conquista da terra\u201d. Dessa perspectiva, cada assentamento conquistado \u00e9 visto como uma fra\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio dos Sem Terra. Para o movimento, a luta pela terra levava \u00e0 territorializa\u00e7\u00e3o, \u201cporque ao conquistar um assentamento, abrem-se as perspectivas para a conquista de um novo assentamento\u201d. O tipo de terra conquistada, sua localiza\u00e7\u00e3o, as caracter\u00edsticas da popula\u00e7\u00e3o do entorno, sua dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o aos centros urbanos, tudo isso se tornava secund\u00e1rio, nesse contexto. A quantidade era mais importante que a qualidade, por assim dizer.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como colocou Joelson Ferreira em um texto lapidar, escrito pouco antes de deixar a dire\u00e7\u00e3o do MST, intitulado&nbsp;<a href=\"https:\/\/teiadospovos.org\/comecar-de-novo\/\"><em>Come\u00e7ar de novo<\/em><\/a>: \u201cComo se v\u00ea, o conceito \u00e9 o que \u00e9 medido com o tempo \u2013 apenas um processo em cadeia sem nenhum conte\u00fado abrangente que lhe assegura a funcionalidade do sistema e sua manuten\u00e7\u00e3o\u201d. Em vez de \u201cde perseguir a territorializa\u00e7\u00e3o abrangendo todo o pa\u00eds quantitativamente\u201d, portanto, \u201cera preciso \u201cproceder em centros estrat\u00e9gicos, como locais de potencial energ\u00e9tico, de reservas minerais ou grandes conglomerados urbanos\u201d, defendia Joelson. Ou seja, locais muito parecidos com aquele escolhido, anos antes, pelos pioneiros do Terra Vista, dentre os quais ele se encontrava.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma leitura desatenta poderia ver a\u00ed uma oposi\u00e7\u00e3o entre um movimento que se volta para fora, visando a expans\u00e3o e a abertura, e outro que se volta para dentro, visando a consolida\u00e7\u00e3o ou o fechamento, mas n\u00e3o \u00e9 isso que est\u00e1 em jogo na estrat\u00e9gia da Teia dos Povos. A consolida\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio \u00e9 vista pela Teia como um pr\u00e9-requisito para a expans\u00e3o ou, melhor ainda, para a associa\u00e7\u00e3o. A ideia \u00e9 que, para dar um passo maior, \u00e9 preciso, primeiro, contar com um solo firme sob os p\u00e9s, para poder tomar impulso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Onde aterrar<\/h3>\n\n\n\n<p>Para a Teia dos Povos, a \u00eanfase na consolida\u00e7\u00e3o de \u201ccentros estrat\u00e9gicos\u201d, assim como a preocupa\u00e7\u00e3o com o potencial energ\u00e9tico e com a proximidade de conglomerados urbanos, se relacionam com a centralidade da autonomia no projeto revolucion\u00e1rio. A preocupa\u00e7\u00e3o com a autonomia explica, entre outras coisas,a import\u00e2ncia conferida ao territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando estamos falando em territ\u00f3rio\u201d \u2013 escrevem Joelson Ferreira e Erahsto Fel\u00edcio em<a href=\"https:\/\/teiadospovos.org\/por-terra-e-territorio-caminhos-da-revolucao-dos-povos-no-brasil\/\">&nbsp;<em>Por Terra e Territ\u00f3rio: caminhos para a revolu\u00e7\u00e3o dos povos no Brasil<\/em><\/a>, livro lan\u00e7ado de forma independente pela editora Teia dos Povos, em 2021 \u2013 \u201cn\u00e3o estamos falando de um quadrado de terra (\u2026). Estamos falando de um lugar cheio de s\u00edmbolos de pertencimento alicer\u00e7ados na abund\u00e2ncia da vida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO princ\u00edpio \u00e9, portanto, a terra, a luta para se manter nela ou retornar para ela\u201d, continuam os autores. \u201cO fim, nosso objetivo final, \u00e9 o territ\u00f3rio descolonizado do capitalismo, do racismo e do patriarcado. Ou seja, a supera\u00e7\u00e3o dessas formas violentas a que fomos submetidos at\u00e9 agora. E o meio para conseguirmos essa vit\u00f3ria est\u00e1 nos pr\u00f3prios territ\u00f3rios, produzindo alimentos, nos dando autonomia, organizando as pessoas e protegendo a vida, pois, se n\u00e3o tomarmos os territ\u00f3rios agora, talvez n\u00e3o exista vida para disputar no futuro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O desejo e autonomia explicam, tamb\u00e9m, a avers\u00e3o da Teia por uma reforma agr\u00e1ria que tenha como horizonte a aplica\u00e7\u00e3o de um modelo de produ\u00e7\u00e3o rural baseado em monocultura que, muitas vezes, exige transformar floresta em lavoura. Da\u00ed a \u00eanfase na agrofloresta e na \u201ccabruca\u201d \u2013 que \u00e9 o nome que recebe no sul da Bahia a t\u00e9cnica de plantar o cacau em clareiras abertas no meio da floresta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Explica, tamb\u00e9m, o desejo de n\u00e3o se limitar ao fornecimento de mat\u00e9ria-prima para a ind\u00fastria de alimentos (a am\u00eandoa de cacau ou gr\u00e3o do caf\u00e9), mas ter cada vez mais controle sobre a cadeia de produ\u00e7\u00e3o como um todo, do beneficiamento \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o para competir com empresas capitalistas numa l\u00f3gica de mercado, mas para produzir e consolidar um ecossistema cooperativo de produ\u00e7\u00e3o e consumo rebelde, que coloque a qualidade de vida de produtores e consumidores em primeiro lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos exemplos, nesse sentido, \u00e9 o chocolate Terra Vista.<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/12\/03\/chocolate-terra-vista-o-sabor-que-vem-da-producao-sustentavel\">&nbsp;O chocolate da Teia dos Povos<\/a><a href=\"https:\/\/ojoioeotrigo.com.br\/2019\/10\/nascida-da-reforma-agraria-a-quarta-geracao-do-cacau-na-bahia\/\">&nbsp;gera renda, fortalece v\u00ednculos comunit\u00e1rios entre produtores<\/a>&nbsp;e respeita o corpo e o paladar do consumidor. \u00c9 vis\u00edvel o diferencial em um segmento marcado pela superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho,<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2021\/02\/acao-nos-eua-liga-industria-do-chocolate-a-trabalho-infantil-na-africa.shtml\">&nbsp;inclusive infantil<\/a>, e por reduzir ao m\u00ednimo exigido por lei a quantidade de cacau utilizado na produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Uni\u00e3o perif\u00e9rica<\/h3>\n\n\n\n<p>Buscando construir soberania, a Teia articula a alian\u00e7a \u201cPreta, Ind\u00edgena e Popular\u201d.Para a Teia, cada povo que faz parte dela \u00e9 senhor de seu territ\u00f3rio e tem n\u00e3o s\u00f3 o direito, mas o dever de organiz\u00e1-lo da melhor maneira, respeitando as particularidades ambientais, culturais e religiosas de cada comunidade. \u00c9 isso que torna poss\u00edvel a colabora\u00e7\u00e3o entre ind\u00edgenas, quilombolas e \u201cdesterritorializados\u201d, pessoas que, por diversos motivos, perderam seu v\u00ednculo com a terra em algum momento, e, agora, se reencontram em um territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O que a ideia de territ\u00f3rio que atravessa o discurso do Mestre Joelson traz em seu bojo \u00e9 a de uma igualdade de fato, n\u00e3o apenas de direito. Uma igualdade que passa pelo controle popular dos meios de reprodu\u00e7\u00e3o da vida, come\u00e7ando pela \u00e1gua e pela comida, passando pelo singelo direito de respirar ar puro, descansar \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore e \u2013 por que n\u00e3o? \u2013 festejar na companhia dos amigos, tudo isso em seguran\u00e7a. Basicamente, tudo aquilo que falta hoje \u00e0 absoluta maioria da popula\u00e7\u00e3o pobre que se empilha na periferia das grandes cidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa igualdade de fato passa longe de qualquer tipo de uniformidade, mas consiste em garantir a possibilidade de alian\u00e7as que ampliem o alcance dos diversos movimentos sociais envolvidos, mas n\u00e3o impliquem em depend\u00eancia. Os povos ind\u00edgenas e quilombolas entenderam bem isso e, n\u00e3o por acaso, mais do que inspira\u00e7\u00e3o, s\u00e3o hoje o esp\u00edrito que move a Teia. Um esp\u00edrito que rebela contra o \u00edmpeto desenvolvimentista que, no esfor\u00e7o de \u201cincluir\u201d todo mundo no mercado, mais de consumo que de trabalho, se especializou em produzir pobres \u2013 gente sem terra, nem territ\u00f3rio \u2013, meros corpos a servi\u00e7o de um capitalismo em crise que, em clima de fim de festa, se esfor\u00e7a para extrair mais-valor nos campos mais inusitados, de maneira cada vez mais brutal.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De certo modo, a crise pol\u00edtica que atravessamos hoje no Brasil \u2013 nossa incapacidade de criar alternativas concretas para tirar as popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas da mis\u00e9ria e da precariza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o passem pelo mero assistencialismo mas, ao contr\u00e1rio, levam \u00e0 autonomia \u2013 pode ser vista como reflexo dessa crise do capital.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio e a desindustrializa\u00e7\u00e3o s\u00e3o, nesse contexto, duas faces de uma mesma moeda. O contrato de gaveta entre capital e trabalho, que durante muito tempo acenou com a promessa de cidadania vinculada \u00e0 inser\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ao \u201cmundo produtivo\u201d, parece ter sido rasgado na \u00faltima d\u00e9cada, quando o pa\u00eds abriu m\u00e3o do horizonte de pleno emprego em nome de um projeto extrativista que coloca na vanguarda do capitalismo contempor\u00e2neo uma s\u00e9rie de mecanismos de explora\u00e7\u00e3o da terra e do trabalho que caracterizavam o sistema em seus prim\u00f3rdios.<\/p>\n\n\n\n<p>Como apontam Joelson Ferreira e Erahsto Fel\u00edcio, em&nbsp;<em>Por Terra e Territ\u00f3rio<\/em>: \u201c(\u2026) vivemos uma crise estrutural do capitalismo, e \u00e9 normal que eles busquem nos pa\u00edses do sul melhores formas de obten\u00e7\u00e3o de riqueza. A pr\u00f3pria origem do capitalismo s\u00f3 foi poss\u00edvel porque houve explora\u00e7\u00e3o destas terras por pot\u00eancias coloniais do norte. Foi a acumula\u00e7\u00e3o fruto da coloniza\u00e7\u00e3o que tornou poss\u00edvel a exist\u00eancia de um sistema capitalista como vemos (\u2026) O problema dessa crise do capital \u00e9 que ela tamb\u00e9m busca retirar cada vez mais riqueza da terra, isto no momento em que as luzes sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o todas acesas, apesar do esperneio dos negacionistas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">\u201cQuem muito merenda, n\u00e3o almo\u00e7a\u201d<\/h3>\n\n\n\n<p>Aterrar, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 apenas encontrar uma terra, mas construir coletivamente um territ\u00f3rio capaz de oferecer a uma comunidade condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas simb\u00f3licas, mas materiais, tanto para estabelecer alian\u00e7as com outras comunidades igualmente aut\u00f4nomas, como para interagir com outros atores, como o poder p\u00fablico, o mercado e as institui\u00e7\u00f5es da sociedade civil, em seus pr\u00f3prios termos.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta por autonomia \u00e9, portanto, a luta por um projeto pol\u00edtico no qual as popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas, os povos ind\u00edgenas e as comunidades quilombolas apare\u00e7am n\u00e3o mais como problema, mas como solu\u00e7\u00e3o. \u00c9 dessa perspectiva que os articuladores da Teia dos Povos olham para o poder p\u00fablico de cabe\u00e7a erguida. N\u00e3o para pedir recursos, mas para exigir o que lhes \u00e9 de direito. \u00c9 com essa altivez baseada em princ\u00edpios que eles se recusam a aceitar qualquer tipo de \u201cajuda\u201d que se converta em amarra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA gente fica muito com o p\u00e9 atr\u00e1s [com muitas ONGs e Institutos] porque muitas vezes as pessoas chegam aqui e querem fazer o que est\u00e1 na cabe\u00e7a deles\u201d, revela Mestre Joelson. \u201cN\u00f3s n\u00e3o concordamos com isso. N\u00f3s temos uma comunidade, que teve um processo de constru\u00e7\u00e3o, um processo longo, de muitos anos, e n\u00f3s queremos uma rela\u00e7\u00e3o de parceria, n\u00e3o de paternalismo. N\u00f3s queremos uma parceria ganha-ganha e temos alguns crit\u00e9rios, por exemplo: n\u00e3o aceitamos dinheiro de multinacional, n\u00e3o aceitamos dinheiro dessas empresas que v\u00eam, d\u00e1 um pouco de dinheiro, mas quer tomar conta de tudo. Com isso a\u00ed n\u00e3o tem acordo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, diversos n\u00facleos da Teia, espalhados por 11 estados brasileiros, buscam desenvolver projetos para garantir a soberania alimentar e a gera\u00e7\u00e3o de renda em seus territ\u00f3rios. O assentamento Terra Vista funciona hoje como uma refer\u00eancia para todas essas experi\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>E para consolidar essa refer\u00eancia \u00e9 preciso ter clareza de que nem todo dinheiro \u00e9 bem-vindo. \u201cN\u00e3o queremos rela\u00e7\u00e3o com multinacional, com quem est\u00e1 de olho em nossa riqueza, que promove a destrui\u00e7\u00e3o e depois se aproxima dos movimentos sociais para tentar compensar o que n\u00e3o tem compensa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s temos crit\u00e9rios rigorosos quanto a isso mesmo\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem v\u00ea a emerg\u00eancia clim\u00e1tica como oportunidade para ganhar dinheiro e \u201cficar bem na fita\u201d, a Teia dos Povos explicita sua posi\u00e7\u00e3o. \u201cVem muito a gente aqui interessada em utilizar nossa \u00e1rea para fazer sequestro de carbono. Mas no sequestro de carbono, como eu j\u00e1 disse, eles est\u00e3o vindo aqui para compensar a destrui\u00e7\u00e3o que foi feita em outros lugares. Pegam uma \u00e1rea de floresta nossa, nos amarram com um contrato de 30 anos e durante esse per\u00edodo todo s\u00e3o eles que d\u00e3o as linhas, a gente n\u00e3o pode mexer em mais nada, a gente perde a \u00e1rea, enfim, e vira escravo deles, em troca de uma compensa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o gera autonomia, mas depend\u00eancia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Coletivamente, a Teia dos Povos tem se atentado para o perigo da instrumentaliza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o ambiental \u2013 seja como estrat\u00e9gia de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, seja como forma de explorar novos mercados. Mestre Joelson explica: \u201cN\u00f3s temos consci\u00eancia de que o capitalismo est\u00e1 se apropriando desse tema verde. Toda essa discuss\u00e3o de energia renov\u00e1vel, dos alimentos, de tudo isso eles est\u00e3o se apropriando para comprar lucrar com a grandiosidade de um trabalho que \u00e9 dos povos. Esse papel a\u00ed n\u00f3s n\u00e3o estamos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para cumprir\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez de financiadores, a Teia dos Povos procura aliados. Gente disposta a apoiar, por exemplo, o<a href=\"https:\/\/teiadospovos.org\/apoie-a-teia-fundo-soberano-dos-povos\/\">&nbsp;Cabruca, o Fundo Soberano dos Povos<\/a>, gerido exclusivamente pelas mulheres da Teia e destinado a desenvolver projetos como o do chocolate rebelde ou dos \u00f3leos essenciais, produzidos por mulheres da Teia no assentamento Terra Vista. E, sobretudo, como a Teia precisa de gente disposta a \u201ccolocar o corpo na luta\u201d, como fala Joelson, para exigir que o estado brasileiro dedique a projetos agroecol\u00f3gicos e \u00e0 agricultura familiar, no m\u00ednimo, linhas de cr\u00e9dito e subs\u00eddios equivalentes aos que s\u00e3o destinados hoje ao agroneg\u00f3cio. Nesse sentido, a constru\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as estrat\u00e9gicas, com outros movimentos e organiza\u00e7\u00f5es, e o fortalecimento dos elos da Teia nos diversos estados, \u00e9 fundamental.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Este artigo e a visita ao Terra Vista para conhecer o trabalho da Teia dos Povos foram feitos a convite do Instituto Alameda. Criado para estimular debates pol\u00edticos e te\u00f3ricos da atualidade, o Alameda oferece oportunidades de financiamento, redes de contato global, suporte a publica\u00e7\u00f5es e um espa\u00e7o de aprendizado compartilhado e a\u00e7\u00e3o coletiva. Erahsto Fel\u00edcio, co-autor de&nbsp;<em>Por Terra e Territ\u00f3rio&nbsp;<\/em>ao lado de Joelson Ferreira, \u00e9 atualmente um dos pesquisadores afiliados do Alameda.<\/p>\n\n\n\n<p>Artigo publicado originalmente na <a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2024\/03\/as-novas-aliancas-estrategicas-na-luta-pela-terra\/\">Revista Jacobin Brasil<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Defendendo a alian\u00e7a preta, ind\u00edgena e popular, a Teia dos Povos transforma a luta por terra e territ\u00f3rio no centro de um projeto revolucion\u00e1rio que se prop\u00f5e a encarar a emerg\u00eancia clim\u00e1tica com propostas concretas e pr\u00e1ticas inovadoras. A Teia dos Povos \u00e9 uma&nbsp;articula\u00e7\u00e3o&nbsp;de comunidades que aproxima movimentos sociais organizados em territ\u00f3rios para criar e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"author-name":"Maikel da Silveira","choose-language":"PT","wds_primary_category":36,"wds_primary_alameda-themes":0,"wds_primary_projects":0,"wds_primary_dynamic-publications-cat":0,"wds_primary_type-tax":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[20,184,18,66],"alameda-themes":[167,169],"projects":[170],"dynamic-publications-cat":[],"type-tax":[57,55,68],"class_list":["post-5558","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-article","tag-brazil","tag-maikel-da-silveira","tag-pt","tag-territorio","alameda-themes-new-political-formations","alameda-themes-transition-and-ecological-politics","projects-emergency","type-tax-civil-society","type-tax-displacement","type-tax-peripherisation"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5558","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5558"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5558\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5558"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5558"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5558"},{"taxonomy":"alameda-themes","embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/alameda-themes?post=5558"},{"taxonomy":"projects","embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/projects?post=5558"},{"taxonomy":"dynamic-publications-cat","embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/dynamic-publications-cat?post=5558"},{"taxonomy":"type-tax","embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/type-tax?post=5558"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}