{"id":9770,"date":"2026-03-05T13:11:23","date_gmt":"2026-03-05T13:11:23","guid":{"rendered":"https:\/\/alameda.institute\/?p=9770"},"modified":"2026-06-05T15:46:54","modified_gmt":"2026-06-05T15:46:54","slug":"eleicoes-na-franca-uma-vitoria-que-nao-houve-pt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/type-article\/eleicoes-na-franca-uma-vitoria-que-nao-houve-pt\/","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es na Fran\u00e7a \u2014 uma vit\u00f3ria que n\u00e3o aconteceu (PT)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A reorienta\u00e7\u00e3o social e institucional autorit\u00e1ria n\u00e3o precisa necessariamente da extrema direita no poder<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Uma decis\u00e3o eleitoral<\/strong><\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um frisson tomou conta da imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o, inclusive dos seus aliados e simpatizantes mais pr\u00f3ximos. Ningu\u00e9m entendia o porqu\u00ea daquela decis\u00e3o de apar\u00eancia precipitada, ningu\u00e9m imaginara que aquilo fosse poss\u00edvel. Todos, por\u00e9m, suspeitavam que no fundo o presidente n\u00e3o sabia exatamente o que estava fazendo. Houve queda na bolsa de valores parisiense. Alguns sentiram a dissolu\u00e7\u00e3o com um espanto pr\u00f3ximo \u00e0quele do an\u00fancio do confinamento em 2020 por ocasi\u00e3o da covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na \u00e9poca falou-se em guerra, e desde ent\u00e3o (ou talvez desde antes) vem-se governando a sociedade como se fosse uma guerra. Outros lembraram logo da dissolu\u00e7\u00e3o proposta por George Pompidou a Charles De Gaulle no calor das barricadas do Maio de 68, mas logo se deram conta que n\u00e3o havia nenhum paralelo com a situa\u00e7\u00e3o insurrecional dos anos 1960. A \u00fanica semelhan\u00e7a, ainda que a envergadura dos personagens envolvidos seja bastante assim\u00e9trica, seria a vontade dos respectivos l\u00edderes de manter a apar\u00eancia de estar no centro e controle de toda situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se \u00e9 verdade que a possibilidade da dissolu\u00e7\u00e3o da assembleia nacional vinha sendo ventilada na imprensa, nada indicava que o presidente tomaria essa decis\u00e3o. Muito pelo contr\u00e1rio, a concretiza\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria do&nbsp;<em>Rassemblement National<\/em>&nbsp;(RN) na elei\u00e7\u00e3o para o parlamento europeu indicava que o mais racional seria exatamente o contr\u00e1rio. A possibilidade da extrema direita obter a maioria absoluta na assembleia nacional nunca havia sido t\u00e3o grandes. A prud\u00eancia e modera\u00e7\u00e3o, tra\u00e7os tradicionais para quem se posiciona como um pol\u00edtico de centro, eram demandadas. Era necess\u00e1rio ganhar um pouco mais de tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por\u00e9m Emmanuel Macron, err\u00e1tico e impulsivo, n\u00e3o corresponde a este perfil, ele \u00e9 quem melhor encarna o que tem sido chamado de \u201cextremo centro\u201d.<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"1\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007840000000000000000_9770\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-1\">1<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-1\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"1\">Como notou David Adler em artigo para o<em>&nbsp;New York Times,&nbsp;<\/em>n\u00e3o s\u00e3o os extremistas e sim os assim chamados centristas os mais hostis \u00e0 democracia. Tudo passa a valer na tentativa de barrar aquilo que hoje \u00e9 visto como extremo, inclusive medidas autorit\u00e1rias e impulsivas. Muita coisa mudou de 2018 para c\u00e1, mas o que parece certo \u00e9 que o centro do espectro pol\u00edtico acompanha a sociedade e tem se deslocado rapidamente para a direita. Cf: Adler, David, \u201c<em>Centrists Are the Most Hostil to Democracy, Not Extremists<\/em>\u201d, 23 maio 2018. <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/interactive\/2018\/05\/23\/opinion\/international-world\/centrists-democracy.html\">https:\/\/www.nytimes.com\/interactive\/2018\/05\/23\/opinion\/international-world\/centrists-democracy.html<\/a><\/span> Isto \u00e9, um autoritarismo de tipo novo, uma das faces de reestrutura\u00e7\u00e3o do governo do capitalismo global. A maneira e o momento que a dissolu\u00e7\u00e3o e o novo processo eleitoral foram anunciadas, trazia consigo um resultado dado como certo: a vit\u00f3ria do RN. Nunca, at\u00e9 aquele momento, o poss\u00edvel resultado de uma elei\u00e7\u00e3o fora t\u00e3o pr\u00e9-determinado. Esta era a tampa de esgoto que Emmanuel Macron abria de maneira s\u00fabita, com a sua decis\u00e3o radical de dissolver o parlamento.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quase 55% dos franceses disseram n\u00e3o \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o, mas como essa era a op\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica errada, a constitui\u00e7\u00e3o se viu inviabilizada, pois tamb\u00e9m os holandeses a rejeitaram. O&nbsp;<em>establishment<\/em>&nbsp;europeu resolveu mudar a via e elaborou outro tratado, o tratado de Lisboa, que foi democraticamente imposto sobre os pa\u00edses membros, s\u00f3 que desta vez obviamente sem nenhuma consulta popular, pois obviamente n\u00e3o se poderia correr riscos de outra escolha errada. Embora grande entusiasta da Uni\u00e3o Europeia, ao ponto de querer ressuscitar o antigo projeto de um ex\u00e9rcito europeu, Emmanuel Macron sabe perfeitamente que a extrema-direita j\u00e1 se faz bem presente no interior da institui\u00e7\u00e3o internacional, e que, embora n\u00e3o pare de tentar, at\u00e9 aqui n\u00e3o conseguiu amea\u00e7ar de maneira mais enf\u00e1tica as suas estruturas administrativas e orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Nada portanto o pressionava a tomar tal decis\u00e3o. O argumento usado de que ele havia sido derrotado, e que uma crise de legitimidade se abria n\u00e3o era de todo falso, mas bastava um ou outro ajuste, uma ou outra declara\u00e7\u00e3o e o barco do governo retomaria o seu rumo (embora poucos consigam identificar qual seja) sem maiores percal\u00e7os. Com a chegada das f\u00e9rias de ver\u00e3o e os Jogos Ol\u00edmpicos se avizinhando, logo a popula\u00e7\u00e3o esqueceria o choque da vit\u00f3ria eleitoral da extrema direita no pleito europeu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo voltaria ao normal, ao menos at\u00e9 2027, quando haver\u00e1 nova elei\u00e7\u00e3o presidencial. Foi uma espera que se instalou. Se em uma mistura de ades\u00e3o e repulsa, a sociedade se organizava na espera dos Jogos Ol\u00edmpicos, foi o medo e otimismo, a depender o campo pol\u00edtico, que passou a imperar e, por algumas semanas, tomou conta do pa\u00eds. Nunca o futuro que se anunciava fora t\u00e3o favor\u00e1vel aos partid\u00e1rios da extrema direita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma pesquisa logo mostrou que a maioria dos eleitores de Bardella aprovaram a decis\u00e3o de Macron. A dissolu\u00e7\u00e3o aparecia como decis\u00e3o de um \u00fanico homem, ela espalhou inquietude, incompreens\u00e3o e indigna\u00e7\u00e3o pela sociedade. A crise que o presidente desencadeara abrira um buraco desconhecido suspendendo o tempo por curtas tr\u00eas semanas \u2014 pois como se n\u00e3o bastasse disparar tamanha confus\u00e3o, o presidente decidira dar o menor prazo poss\u00edvel para a organiza\u00e7\u00e3o de uma elei\u00e7\u00e3o de tamanha import\u00e2ncia: o primeiro turno seria no dia 30 de junho e, uma semana depois, 7 de julho, o segundo turno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um desfecho catastr\u00f3fico tomava forma com a perspectiva de entrar em um novo mundo sombrio, at\u00e9 aqui desconhecido, no qual a extrema-direita governaria novamente a Fran\u00e7a. Novamente, pois tal coisa que n\u00e3o acontece desde o governo de Vichy (1940-1944) sob comando do Marechal P\u00e9tain em parceria com Hitler \u2014 sem esquecer que Macron em um gesto obscuro&nbsp;<em>reabilitou&nbsp;<\/em>oficialmente P\u00e9tain ainda em 2018. <sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"2\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007840000000000000000_9770\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-2\">2<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-2\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"2\">Cf:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.lefigaro.fr\/politique\/le-scan\/2018\/11\/07\/25001-20181107ARTFIG00121-macron-petain-a-ete-un-grand-soldat-pendant-la-premiere-guerre-mondiale.php\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.lefigaro.fr\/politique\/le-scan\/2018\/11\/07\/25001-20181107ARTFIG00121-macron-petain-a-ete-un-grand-soldat-pendant-la-premiere-guerre-mondiale.php<\/a><\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minutos antes do an\u00fancio televisivo feito pelo presidente nenhuma dessas expectativas aparecia no horizonte imediato da popula\u00e7\u00e3o francesa. A possibilidade de governo da extrema direita \u00e9 concreta, mas para dali a tr\u00eas anos. O presidente adiantou o rel\u00f3gio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se ter\u00edamos um governo totalmente diferente, uma guerra civil institucional, uma parceria nova entre o presidente e seu jovem primeiro-ministro ou at\u00e9 mesmo uma continua\u00e7\u00e3o mais ou menos igual ao breve governo de Gabriel Attal, jamais saberemos. N\u00e3o eram poucos o que tinham impress\u00e3o que Macron queria governar com o RN. Talvez ele achasse que poderia controlar ou desgastar a extrema direita no poder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, a certeza fatalista que encarnava as expectativas da sociedade francesa que finalmente chegara a hora do RN tomar o poder n\u00e3o foram cumpridas. Ap\u00f3s tr\u00eas semanas vividas como um sursis em uma contagem regressiva \u00e0 espera de um desfecho catastr\u00f3fico determinado de antem\u00e3o, para surpresa geral, no dia 7 de julho, encerramento do segundo turno, contra todos os progn\u00f3sticos e pesquisas eleitorais, a coliga\u00e7\u00e3o da esquerda que havia nesse tempo se constitu\u00eddo com o nome de&nbsp;<em>Nouveau Front Populaire<\/em>&nbsp;(Novo Fronte Popular \u2014 NFP), embora longe de alcan\u00e7ar qualquer maioria que lhe permitisse impor um primeiro-ministro, garantiu o primeiro lugar e a maior bancada de deputados.<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"3\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007840000000000000000_9770\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-3\">3<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-3\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"3\">Roy, Iva, \u201cUn r\u00e9pit salutaire mais sans majorit\u00e9 pour le Front Populaire, Basta!, 8 de julho, 2024. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/basta.media\/Un-repit-salutaire-mais-sans-majorite-pour-le-Front-populaire\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/basta.media\/Un-repit-salutaire-mais-sans-majorite-pour-le-Front-populaire<\/a><\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O&nbsp;<em>Front R\u00e9publicain<\/em>&nbsp;que havia se constitu\u00eddo com uma alian\u00e7a mambembe entre o NFP e as for\u00e7as macronistas do&nbsp;<em>Ensemble,&nbsp;<\/em>conseguiu frear mais uma vez a ascens\u00e3o do RN. Macron, no entanto, antidemocr\u00e1tico e mau perdedor, fez de conta que n\u00e3o houve elei\u00e7\u00e3o e, e uma alian\u00e7a n\u00e3o declarada com o RN, resolveu nomear Michel Barnier, do fraco Partido Republicano como primeiro-ministro. Ao final do pleito o pa\u00eds parece experimentar uma divis\u00e3o institucional e territorial que de certa atualiza as fraturas francesas, \u00e9 sobretudo isto que abordaremos aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O presente estendido franc\u00eas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o se pode pensar a Fran\u00e7a contempor\u00e2nea sem ter sempre em mente o segundo turno da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2002, no qual um outro&nbsp;<em>Front R\u00e9publicain&nbsp;<\/em>se constituiu em torno de Jacques Chirac para dar-lhe 83% dos votos \u2014 \u201cum resultado de ditadura das bananas\u201d<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"4\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007840000000000000000_9770\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-4\">4<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-4\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"4\">Cf:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ouest-france.fr\/elections\/presidentielle\/histoires-d-elections-a-la-presidentielle-de-2002-le-seisme-le-pen-suivi-du-raz-de-maree-chirac-278297b6-ab50-11ec-a913-f0dff1800d5e\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.ouest-france.fr\/elections\/presidentielle\/histoires-d-elections-a-la-presidentielle-de-2002-le-seisme-le-pen-suivi-du-raz-de-maree-chirac-278297b6-ab50-11ec-a913-f0dff1800d5e<\/a>&nbsp;.<\/span>&nbsp;lembrou o jornal&nbsp;<em>Ouest France&nbsp;<\/em>por ocasi\u00e3o dos 20 anos deste acontecimento \u2014 contra 17% obtidos o Jean-Marie Le Pen, do&nbsp;<em>Front National<\/em>, que, no primeiro turno, havia deixado para tr\u00e1s Lionel Jospin, o primeiro-ministro da \u00e9poca, e favorito para ganhar a elei\u00e7\u00e3o presidencial pelo Partido Socialista (PS).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde ent\u00e3o a pol\u00edtica institucional francesa virou \u00e0 direita e \u00e9, de certa forma, ditada pelas pautas e programa da extrema direita. De certa maneira, mesmo n\u00e3o tendo ainda chegado ao poder, \u00e9 a extrema direita que orienta, desde o in\u00edcio do mil\u00eanio, os caminhos tomados pela sociedade civil francesa. Por outro lado, isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel pela sociedade estar objetivamente orientada para a direita. Como veremos, a virada \u00e0 direita do macronismo n\u00e3o se deu apenas por cren\u00e7a no discurso da extrema-direita, ela tamb\u00e9m \u00e9 uma tomada de posi\u00e7\u00e3o em virtude da direitiza\u00e7\u00e3o da sociedade. Um tentando alcan\u00e7ar o outro, e vice-versa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os atentados contra o jornal<em>&nbsp;Charlie Hebdo<\/em>&nbsp;e do<em>&nbsp;Bataclan<\/em>&nbsp;de 2015 acentuaram e selaram a tend\u00eancia desta virada.<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"5\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007840000000000000000_9770\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-5\">5<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-5\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"5\">Um dos primeiros a diagnosticar de maneira contundente essa virada particular ao espectro franc\u00eas foi Alain Badiou em uma confer\u00eancia pronunciada no dia 23 de novembro de 2015, poucos dias ap\u00f3s o atentado, e posteriormente publicada em livro. (Cf:&nbsp;<em>Notre mal vient de plus loin. Penser les tueries du 13 novembre,&nbsp;<\/em>Paris, Fayard, 2016).<\/span>&nbsp;Os exemplos s\u00e3o muitos, mas podemos destacar a nova lei de imigra\u00e7\u00e3o votada em janeiro de 2024, e conhecida como&nbsp;<em>Loi Darmanin<\/em>, do nome do ministro do interior, ele mesmo um antigo participante do movimento de extrema direita&nbsp;<em>Manif pour Tous<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Movimento, que se transformou em uma associa\u00e7\u00e3o em 2023, a<em>&nbsp;Manif pour Tous<\/em>[Manifesta\u00e7\u00e3o por todos] se constituiu no final de novembro de 2012 em torno da luta contra a Lei do Casamento Gay. A sua principal a\u00e7\u00e3o era uma manifesta\u00e7\u00e3o nacional anual, de onde o seu nome tem origem. Al\u00e9m do ministro G\u00e9rard Darmanin, o primeiro policial da Fran\u00e7a como \u00e9 conhecido, podemos destacar a simpatia moment\u00e2nea pela movimento de figuras normalmente inquestion\u00e1veis como Simone Veil<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"6\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007840000000000000000_9770\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-6\">6<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-6\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"6\">Cf:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.huffingtonpost.fr\/actualites\/article\/manif-pour-tous-simone-veil-a-salue-les-manifestants-contre-le-mariage-gay_13943.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.huffingtonpost.fr\/actualites\/article\/manif-pour-tous-simone-veil-a-salue-les-manifestants-contre-le-mariage-gay_13943.html<\/a><\/span>, a antiga ministra da sa\u00fade sob o nome da qual \u00e9 conhecida a lei de que d\u00e1 direito ao aborto (loi Veil), imortalizada por Macron no Pantheon.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seu livro&nbsp;<em>L\u2019extr\u00eame droite, nouvelle g\u00e9n\u00e9ration : enqu\u00eate au coeur de la jeunesse identitaire<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"7\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007840000000000000000_9770\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-7\">7<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-7\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"7\">Cf: Marylou Magal, Marylou e Massol, Nicolas,&nbsp;<em>L\u2019extr\u00eame droite, nouvelle g\u00e9n\u00e9ration : enqu\u00eate au coeur de la jeunesse identitaire,&nbsp;<\/em>Paris, Denoel, 2024.<\/span> [Extrema-direita, nova gera\u00e7\u00e3o: enquete no seio da juventude identit\u00e1ria], Marylou Magal e Nicolas Massol destacam, entre v\u00e1rias outras coisas, como a&nbsp;<em>Manif pour tous<\/em>&nbsp;foi determinante por ter proporcionado um espa\u00e7o para que as diferentes tend\u00eancias da direita francesa se encontrassem. As manifesta\u00e7\u00f5es foram um laborat\u00f3rios onde alian\u00e7as, trocas intelectuais e afetivas se criaram e virou um ponto de encontro org\u00e2nico para a organiza\u00e7\u00e3o da nova extrema-direita francesa, sobretudo da sua juventude.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo os autores, os jovens tem menos pudor em construir liga\u00e7\u00f5es antes interditadas aos seus pais pol\u00edticos, isto \u00e9, assumem mais facilmente as afinidades entre todas as direitas, o que, consequentemente, desemboca numa direitiza\u00e7\u00e3o crescente das direitas francesas a partir das suas juventudes. Foi de l\u00e1 que saiu, por exemplo, o candidato do RN, Jordan Bardella.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O presidente que em 2017 prometera neutralizar definitivamente a extrema direita \u00e9, hoje em dia, apontado como o principal respons\u00e1vel pelo crescimento do monstro que vem se formando de forma imanente na sociedade e pela acelera\u00e7\u00e3o da marcha do RN rumo ao poder. Em entrevista ao<em>&nbsp;Le Monde<\/em>&nbsp;do dia 18 de junho, o consultorRapha\u00ebl Lorca chamou a dissolu\u00e7\u00e3o da assembleia de \u201cgolpe de estado ps\u00edquico\u201d. Isto \u00e9, um ato pol\u00edtico de tal for\u00e7a desestabilizante que \u00e9 capaz de provocar uma neutraliza\u00e7\u00e3o mental, um sentimento de que aquilo que \u00e9 vivido n\u00e3o \u00e9 real. Levando todos a se perguntarem se aquilo n\u00e3o fora um sonho ou del\u00edrio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, diz ele, esse tipo de ato perform\u00e1tico tem um efeito de hiper-realidade, pois em uma conjuntura perene, toda decis\u00e3o do tipo \u201c\u00e9 colocada no registro de urg\u00eancia\u201d. Toda transgress\u00e3o ou decis\u00e3o pol\u00edtica futura passa a ter esta decis\u00e3o como medida. Como de agora em diante, a maioria das decis\u00f5es ser\u00e3o inevitavelmente percebidas como menos radical que estas as brechas deixadas por ela s\u00e3o imensas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia de um novo tipo de golpe de estado j\u00e1 havia sido notada por Alain Badiou. Segundo o fil\u00f3sofo, a elei\u00e7\u00e3o de 2017 j\u00e1 havia sido fruto de um voto plebiscit\u00e1rio com uma \u201ccampanha de bombardeamento sist\u00eamico dizendo: se n\u00e3o for ele, voc\u00eas ter\u00e3o a extrema-direita\u201d. O que teria ocorrido de fato nesta elei\u00e7\u00e3o, diz ele, foi um \u201cgolpe de estado democr\u00e1tico\u201d<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"8\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007840000000000000000_9770\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-8\">8<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-8\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"8\">Badiou, Alain,&nbsp;<em>\u00c9loge de la Politique,&nbsp;<\/em>Paris, Flammarion, 2017, p. 115-123.<\/span>&nbsp;\u2014 uma atualiza\u00e7\u00e3o do bonapartismo tal qual ele havia sido identificado por Marx \u2014 que trouxe ao poder uma nova alian\u00e7a um largo espectro pol\u00edtico, midi\u00e1tico e empresarial que Bruno Amable e Stefano Palombarini chamaram de \u201cbloco burgu\u00eas\u201d<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"9\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007840000000000000000_9770\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-9\">9<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-9\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"9\">Amable, Bruno &amp; Palombarini, Stefano,&nbsp;<em>L\u2019illusion du bloc bourgeois: Alliances sociales et avenir du mod\u00e8le fran\u00e7ais<\/em>, Paris, Liber\/Raisons d\u2019Agir, 2018. Em um artigo de 2022 publicado no&nbsp;<em>Sidecar<\/em>, Serge Halimi j\u00e1 identificava um aprofundamento e uma virada ainda mais \u00e0 direita nesse bloco bourgeois por ocasi\u00e3o da reelei\u00e7\u00e3o de Macron. (Cf: Halimi, Serge, \u201cThe Bourgeois Bloc,<em>Sidecar,<\/em>&nbsp;30 June 2022. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/sidecar\/posts\/the-bourgeois-bloc\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/newleftreview.org\/sidecar\/posts\/the-bourgeois-bloc<\/a>&nbsp;).<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto \u00e9, Macron representaria uma recomposi\u00e7\u00e3o do espectro pol\u00edtico e empresarial que se organizou com o objetivo de governar e reestruturar rapidamente a Fran\u00e7a, tornando-a, por assim dizer, apta e preparada para participar das r\u00e1pidas transforma\u00e7\u00f5es do capitalismo globalizado e, sobretudo, conter a insatisfa\u00e7\u00e3o crescente da popula\u00e7\u00e3o e os motins que iriam se multiplicar contra a acelera\u00e7\u00e3o de tais processos reformat\u00f3rios \u2014 o que de fato aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse bloco dirigido politicamente pelo presidente e pelo grupo de partidos reunidos no<em>&nbsp;Ensemble,<\/em>&nbsp;mant\u00e9m muito da sua legitimidade e perpetua\u00e7\u00e3o no poder devido ao medo que propagam em alto em bom som de serem o \u00faltimo basti\u00e3o civilizado dispon\u00edvel contra a ascens\u00e3o da extrema-direita.Resta saber se essa barragem eleitoral surtir\u00e1 efeito para sempre, ou se em 2027, por ocasi\u00e3o da pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o presidencial, a profecia que vem sendo adiada h\u00e1 mais de vinte anos ser\u00e1 finalmente cumprida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Centro, esquerda, extrema direita<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foram tr\u00eas semanas de campanha intensas ritmadas por eventos quase que quotidianos. No dia seguinte \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o da assembleia, Macron se reuniu com os chefes dos tr\u00eas partidos que comp\u00f5em o seu grupo&nbsp;<em>Ensemble<\/em>: St\u00e9phanie S\u00e9journ\u00e9 (Reinaissance), Edouard Philippe (Horizons) e Fran\u00e7ois Bayrou (MoDem). Este \u00faltimo chegou a sugerir que a campanha devia se descolar do presidente, escondendo a sua imagem, sob o risco de afundar-se totalmente na sua baixa aprova\u00e7\u00e3o; uma ideia evidentemente rejeitada pelo chefe, pois o presidente continuou omnipresente nas m\u00eddias dizendo que daria tr\u00eas interven\u00e7\u00f5es televisivas por semana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No in\u00edcio da campanha, ainda sob choque devido \u00e0 decis\u00e3o tomada por seu l\u00edder, o campo macronista se viu desesperado \u00e0 procura de aliados. Encontrou muito poucos dispon\u00edveis para dialogar. A decis\u00e3o do presidente coincidia com o momento no qual o seu campo pol\u00edtico se encontrava mais fragilizado. O resultado das elei\u00e7\u00f5es europeias havia sido um dos piores que uma maioria presidencial obtinha em uma elei\u00e7\u00e3o legislativa. Muitos j\u00e1 se imaginavam pulando fora do barco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu antigo aliado, o remanescente de Maio 68, Daniel Cohn-Bendit n\u00e3o mediu as palavras para o&nbsp;<em>La Tribune<\/em>: \u201cMacron colocou a insensatez no centro da Fran\u00e7a! Ele pensa que \u00e9 Jesus, imaginando que sua boa palavra resolver\u00e1 tudo\u201d. \u201c\u00c9 o Titanic\u201d, disseram outros de dentro do governo sem saber ao certo se deviam se demitir, romper com o campo presidencial, se engajar na campanha, fundar um novo partido-movimento ou apenas esperar. N\u00e3o por acaso um poss\u00edvel aliado, o ex-presidente Fran\u00e7ois Hollande<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"10\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007840000000000000000_9770\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-10\">10<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-10\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"10\">Muitos desconfiam que a candidatura surpresa de Hollande disfar\u00e7ava a ambi\u00e7\u00e3o de voltar ao centro da arena pol\u00edtica como primeiro-ministro, \u00e9 bem poss\u00edvel que isso seja real, mas at\u00e9 aqui essa inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o produziu nenhum resultado efetivo.<\/span>, que surpreendentemente se apresentou como candidato a deputado pelo PS, chegou a afirmar que a coliga\u00e7\u00e3o presidencial estava morta. Em certo momento do segundo turno o jornal&nbsp;<em>Le Figaro&nbsp;<\/em>afirmou que \u201cem nome do \u2018front r\u00e9publicain\u2019, a macronia risca ser apagada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imperava uma atmosfera de fim de reino. N\u00e3o foram poucos os que ensaiaram sair do bloco t\u00e3o logo as urnas fossem abertas e os votos contados. A inquietude reinava sobretudo entre aqueles que n\u00e3o teriam destino certo ap\u00f3s o pleito. Ao final da elei\u00e7\u00e3o, no entanto, o<em>&nbsp;Ensemble<\/em>&nbsp;sobreviveu obtendo um bom resultado de 165 deputados (embora isso signifique 73 a menos que na configura\u00e7\u00e3o anterior do parlamento). Embora tenha perdido a maioria relativa que tenha e se tornado a segunda for\u00e7a no congresso, por algumas semanas o grupo temeu o pior. Tudo indicava, e os resultados do primeiro turno refor\u00e7avam isto, que a base do presidente seria literalmente varrida do mapa pol\u00edtico franc\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi gra\u00e7as \u00e0s esquerdas e ao&nbsp;<em>Front R\u00e9publicain<\/em>&nbsp;que isso n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o aconteceu, e a derrota sofrida foi numericamente minimizada. A desmoraliza\u00e7\u00e3o, por outro lado, foi grande, mas resta saber se isso ainda tem import\u00e2ncia. De todo modo, \u00e9 fato que se a desintegra\u00e7\u00e3o total do campo presidencial n\u00e3o ocorreu, a sua possibilidade real foi vivida intensamente por todos, como se estivesse em marcha iminente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A grande aposta de Macron para tentar ganhar ou minimizar uma eventual derrota eleitoral era a impossibilidade aparente de uma uni\u00e3o das esquerdas. Por\u00e9m, logo no dia 13 de junho essa impossibilidade j\u00e1 era favas contadas, e um acordo havia sido feito. De fato, o presidente tinha raz\u00f5es de apostar numa nova fragmenta\u00e7\u00e3o das esquerdas, tendo em vista a dura campanha para o parlamento europeu, recheada de acusa\u00e7\u00f5es e ataques m\u00fatuos entre o&nbsp;<em>La France Insoumise&nbsp;<\/em>(LFI) e o PS \u2014 encabe\u00e7ado desta vez por uma figura ascendente daquilo que antigamente era nomeado de<em>&nbsp;gauche caviar,<\/em>&nbsp;rebatizada por&nbsp;<em>Thomas Piketty<\/em>&nbsp;como<em>&nbsp;gauche brahmane<\/em>: Rapha\u00ebl Glucksmann.<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"11\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007840000000000000000_9770\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-11\">11<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-11\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"11\">Rapha\u00ebl Glucksmann, filho do maoista renegado Andr\u00e9 Glucksmann, \u00e9 uma figura ascendente no PS. Foi o cabe\u00e7a de chapa do seu partido nas elei\u00e7\u00f5es europeias. Virtual candidato \u00e0 presid\u00eancia em 2027, aquele que \u00e9 apelidado como o \u201chomem da esquerda plural\u201d \u00e9 pr\u00f3ximo de Lionel Jospin, Hollande e Macron, representando a ala direita do partido e se posicionando contra a hegemonia crescente de M\u00e9l\u00e9nchon e do LFI no interior das esquerdas francesas. Em 2008, mesma \u00e9poca da invas\u00e3o russa, Glucksmann trabalhava na Ge\u00f3rgia como conselheiro oficial do ent\u00e3o presidente neoliberal e pr\u00f3ximo dos Estados-Unidos Mikheil Saakachvili. Tal fato, rendeu acusa\u00e7\u00f5es por parte de Bardella dele ser inapto para ocupar fun\u00e7\u00f5es de Estado por ter trabalhado para interesses estatais estrangeiros diferentes e muitas vezes, segundo ele, concorrente dos franceses. O deputado europeu \u00e9 casado com uma das mais importantes jornalistas e apresentadores televisivas francesas: L\u00e9a Salam\u00e9. A autora de<em>&nbsp;Femmes Puissantes<\/em>&nbsp;(mulheres potentes), best-sellers do \u201cfeminismo liberal\u201d (Nancy Fraser), j\u00e1 teve que trocar de canal para n\u00e3o interferir na carreira ascensional do marido. Ventila-se no pa\u00eds da igualdade que, apesar de tudo, ela talvez tenha que abrir m\u00e3o da sua carreira brilhante e mais do que promissora sob o risco de comprometer as ambi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do marido Glucksmann.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pouco ap\u00f3s o an\u00fancio da dissolu\u00e7\u00e3o da assembleia, este \u00faltimo declarou que era imposs\u00edvel construir qualquer alian\u00e7a com Jean-Luc M\u00e9l\u00e9nchon, l\u00edder do LFI, e que o movimento mais natural para o PS seria de serrar fileiras com o governo. Ele foi rapidamente desautorizado pelo restante do partido que costurou um acordo e selou uma alian\u00e7a com o PCF, LFI e EEVL (Europa Ecologia Os Verdes) que, com acenos claros para o passado glorioso da classe trabalhadora francesa, recebeu o nome de&nbsp;<em>Nouveau Front Populaire&nbsp;<\/em>(NFP).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar do nome, a alian\u00e7a tinha de tudo, embora n\u00e3o fosse assim t\u00e3o popular, pois faltava povo; sobre isso voltaremos mais abaixo. Por enquanto o mais importante \u00e9 saber que apesar de tudo havia uma disputa hegem\u00f4nica entre a assim chamada \u201cesquerda de ruptura\u201d encarnada pelo LFI e a esquerda mais institucional liderada pelo PS (curiosamente ou n\u00e3o, \u00e9 mais pr\u00f3ximo deste polo que o Partido Comunista Franc\u00eas se encontra atualmente).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De maneira an\u00e1loga aos problemas que o presidente trazia para o seu grupo, era M\u00e9l\u00e9nchon a figura \u00e0 ser contida no NPF. \u201cCada vez que ele diz que ser\u00e1 primeiro-ministro ele me faz perder alguns votos\u201d, chegou a afirmar Fran\u00e7ois Ruffin, candidato pela Somme, uma zona industrial devastada e um quadro de proa no LFI, que ao final do pleito ir\u00e1 romper definitivamente com o partido. Imaginava-se que essa alian\u00e7a era uma maneira de construir uma for\u00e7a capaz de frear minimamente o governo do RN, isto \u00e9, foi a maneira encontrada para conter os danos institucionais que todos davam como certo. No entanto, contra todas as expectativas, o NPF obteve 178 deputados, chegando em primeiro lugar no pleito. No interior do grupo, embora segundo em n\u00famero, o PS foi o grande vencedor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O partido, que quase desaparecera na elei\u00e7\u00e3o de 2022 quando obteve apenas 27 deputados, tem agora 65 representantes, seis a menos que o LFI. Sob condi\u00e7\u00f5es normais, o novo primeiro ministro viria do NPF. \u00c9 bom insistir que a regress\u00e3o e direitiza\u00e7\u00e3o nas sociedades democr\u00e1ticas ocidentais \u00e9 tamanha que aquilo que algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s apareceria como um programa social-democrata tradicional, hoje \u00e9 considerado como de esquerda radical \u2014 alguns, vindo da esquerda e aparentemente com os p\u00e9s fora do ch\u00e3o, falam at\u00e9 mesmo que se trataria de umaesquerda de ruptura(<em>gauche de rupture<\/em>).<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"12\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007840000000000000000_9770\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-12\">12<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-12\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"12\">Durand, C\u00e9dric; Keucheyan, Razmig e Palombarini, Stefano, \u201cConstruire la gauche de rupture\u201d,&nbsp;<em>Contretemps<\/em>, 22 de julho 2024. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.contretemps.eu\/construire-gauche-rupture-nouveau-front-populaire\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.contretemps.eu\/construire-gauche-rupture-nouveau-front-populaire\/<\/a><\/span>&nbsp;\u00c9 verdade que dentre as propostas apresentadas para a elei\u00e7\u00e3o de 2017, o LFI defendia a refunda\u00e7\u00e3o radical da Rep\u00fablica francesa, isto \u00e9, a funda\u00e7\u00e3o da 6<sup>a<\/sup>&nbsp;Rep\u00fablica, mas isso saiu totalmente de cena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do lado da extrema direita o processo foi vivido como uma passagem da euforia pelas perspectivas reais do poder \u00e0 relativa decep\u00e7\u00e3o. Embora tenha obtido in\u00e9ditos e significativos 148 deputados na assembleia, a possibilidade real, que n\u00e3o se concretizou, de uma vit\u00f3ria massiva no qual o alvorecer do 08 de julho marcaria a chegada de um jovem oriundo das suas fileiras ao posto de primeiro-ministro da quarta pot\u00eancia nuclear do planeta foi vivida como uma ducha de \u00e1gua fria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 o momento em que apareceu encabe\u00e7ando a chapa do RN para as elei\u00e7\u00f5es europeias, Jordan Bardella era um desconhecido do grande p\u00fablico. Embora ele seja h\u00e1 um bom tempo usu\u00e1rio ass\u00edduo no Tik Tok, rede social que prefere em detrimento ao X (twitter), sobretudo para se comunicar com a juventude. \u00c9 importante ressaltar que em torno de 30% dos jovens entre 18 e 34 anos votaram no RN (o grupo macronista conta com menos de 10% dos eleitores nesta faixa et\u00e1ria). Bardella representa uma nova gera\u00e7\u00e3o de eleitores e de quadros do partido, cujo ponto de radicaliza\u00e7\u00e3o, como sugerimos, deve ser situada na experi\u00eancia dos atentados de 2015 e na&nbsp;<em>manif pour Tous<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os mais radicais clamam por uma identidade verdadeiramente francesa e n\u00e3o hesitam a dizer que sofrem de \u201cracismo anti-branco\u201d. Al\u00e9m das influ\u00eancias da&nbsp;<em>nouvelle droite,<\/em>&nbsp;que tem em Alain de Benoist seu principal representante, \u00e9 a teoria do \u201cgrand remplacement\u201d (grande substitui\u00e7\u00e3o) que congrega os jovens militantes da extrema-direita francesa. Vulgarizada por Renaud Camus em um livro best-seller de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica lan\u00e7ado em 2015, o \u201cgrand-remplacement\u201d \u00e9 uma teoria complotista que prega que devido as baixas taxas de natalidade os franceses ser\u00e3o em pouco tempo substitu\u00eddos pelos \u00e1rabes e negros, e se tornar\u00e3o minorit\u00e1rios em seu pr\u00f3prio pa\u00eds e territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A luta contra esse fantasma \u00e9 que tem orientado a extrema direita, e contribu\u00eddo para resson\u00e2ncia dessas ideias na juventude e nas classes desfavorecidas. Ap\u00f3s seu jovem colega de partido ter obtido por volta de 33% dos votos v\u00e1lidos no primeiro turno, Marine Le Pen afirmou, sem pestanejar ,que os seus eleitores haviam votado contra o projeto de desprezo contra o povo que j\u00e1 durava sete anos. Ao final, o RN \u00e9 agora o maior partido da assembleia francesa, mas n\u00e3o governar\u00e1. Ao menos n\u00e3o diretamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O acontecimento mais caricato desta elei\u00e7\u00e3o se deu por ocasi\u00e3o do racha do partido&nbsp;<em>Les R\u00e9publicains&nbsp;<\/em>(LR). Havia aqueles, liderados pelo presidente do partido \u00c9ric Ciotti, que queriam construir uma alian\u00e7a com o RN e os que preferiam manter a sua relativa independ\u00eancia. Mediado pelo magnata Vincent Bollor\u00e9<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"13\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007840000000000000000_9770\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-13\">13<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-13\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"13\">O magnata Vincent Bollor\u00e9 \u00e9 um personagem importante no mundo pol\u00edtico e midi\u00e1tico franc\u00eas, supondo que haja separa\u00e7\u00e3o entre eles. Um dos principais empres\u00e1rios e com interesses maiores naquilo que se conhece como France-Afrique, ele exerce um papel an\u00e1logo ao do norte-americano Roger Ailes (part\u00e3o da Fox News) como dono de v\u00e1rios ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o e principalmente do canal televisivo Cnews an\u00e1logo ao americano, que serve de plataforma para a difus\u00e3o em massa e quotidiana do discurso e das ideia de extrema-direita. H\u00e1 alguns anos \u00e9 o principal canal do pa\u00eds, nem tanto pela audi\u00eancia mas pelo fato de conseguir pautar o tom e conte\u00fado da agenda e do debate nos outros ve\u00edculos de m\u00eddia e da pol\u00edtica nacional.<\/span>, com quem mant\u00e9m estreita rela\u00e7\u00e3o, Ciotti negociou secretamente uma alian\u00e7a do seu partido com o RN. Assim que descobriram essa intriga, o conselho do partido considerou-a inaceit\u00e1vel e votou pela destitui\u00e7\u00e3o do presidente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este, n\u00e3o aceitando esse desfecho, se rebelou contra o partido, invadindo e literalmente se trancando na sua sede e ocupando-a de maneira ilegal. Ciotti chegou a dar declara\u00e7\u00f5es pela imprensa atrav\u00e9s da janela do seu escrit\u00f3rio enquanto se recusando a sair deste, que passou ao ser conhecido como um&nbsp;<em>bunker<\/em><sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"14\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007840000000000000000_9770\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-14\">14<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-14\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"14\">Cf:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ouest-france.fr\/politique\/eric-ciotti\/un-forcene-dans-son-bunker-la-video-deric-ciotti-seul-dans-son-bureau-decryptee-par-un-expert-a2095efe-2982-11ef-96d1-fdb7d737b711\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.ouest-france.fr\/politique\/eric-ciotti\/un-forcene-dans-son-bunker-la-video-deric-ciotti-seul-dans-son-bureau-decryptee-par-un-expert-a2095efe-2982-11ef-96d1-fdb7d737b711<\/a><\/span>. Val\u00e9rie Pecresse, presidente da regi\u00e3o de \u00cele-de-France na qual se encontra Paris, foi acudir e, junto com um colega que possu\u00eda uma c\u00f3pia das chaves da sede do partido, teve que intervir de maneira firme para negociar uma maneira de desaloj\u00e1-lo sem precisar arrombar a sede do partido e, sobretudo, inventar uma forma gerir o racha picaresco daquela que era a \u00faltima muta\u00e7\u00e3o do antigo partido dos ex-presidentes Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fundamental \u00e9 notar que esta seria a primeira vez que um grande partido, se as suas autoridades legais validassem este projeto encabe\u00e7ado pelo seu presidente, se envolveria numa coliga\u00e7\u00e3o nacional com o RN, quebrando o tradicional cord\u00e3o sanit\u00e1rio contra a extrema direita. Ciotti e o seus aliados dissidentes atravessaram juntos este Rubic\u00e3o, embora sem conseguir levar a totalidade do seu partido consigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por momentos lembrou bastante a c\u00fapula do PSDB que em 2018 se dividiu entre aqueles ficaram amb\u00edguos na escolha que fariam no segundo turno entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, e aqueles que sem receios aderiram explicitamente ao Capit\u00e3o. Ciotti n\u00e3o decepcionou e manteve-se fiel \u00e0s suas posi\u00e7\u00f5es radicais durante as semanas de negocia\u00e7\u00e3o, mist\u00e9rio e confus\u00e3o pela escolha do novo primeiro ministro tendo clamado mais de uma vez por uma alian\u00e7a das direitas em torno do RN. Pois foi de dentro das fileiras deste partido que saiu diminu\u00eddo e quase implodiu no processo eleitoral que, com o aval mais ou menos impl\u00edcito do RN, saiu o nome do novo primeiro ministro: Michel Barnier.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No presente, ao menos na Fran\u00e7a, observa Gilles Richard<sup class=\"modern-footnotes-footnote \" data-mfn=\"15\" data-mfn-post-scope=\"00000000000007840000000000000000_9770\"><a href=\"javascript:void(0)\"  role=\"button\" aria-pressed=\"false\" aria-describedby=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-15\">15<\/a><\/sup><span id=\"mfn-content-00000000000007840000000000000000_9770-15\" role=\"tooltip\" class=\"modern-footnotes-footnote__note\" tabindex=\"0\" data-mfn=\"15\">Richard, Gilles, \u201cLes R\u00e9publicains sont vou\u00e9s \u00e0 devenir un partit croupion\u201d,&nbsp;<em>Le Monde,&nbsp;<\/em>18 juin 2024.<\/span>, a tradicional clivagem entre esquerda e direita parece ter passado para o segundo plano. Desde 2002 com a virada \u00e0 direita da sociedade, a clivagem principal parece ser outra. \u00c9 como se houvesse uma divis\u00e3o interna \u00e0 direita, orientando a sociedade com um lado \u201cglobalista\u201d e o outro \u201cnacionalista\u201d. Embora de fato a Fran\u00e7a \u00e9 um dos \u00faltimos pa\u00edses a possuir uma esquerda institucional representativa, estas, estando fora dessa divis\u00e3o fundamental, basicamente respondem e reagem \u00e0s pautas e agendas dela (e com isso v\u00e3o se direitizando no processo), sem conseguir propor uma nova configura\u00e7\u00e3o na qual possa ter de fato alguma voz e for\u00e7a pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A desintegra\u00e7\u00e3o do LR, antiga direita tradicional, diz Gilles Richard, responderia a essa l\u00f3gica. Ter\u00edamos por um lado uma orienta\u00e7\u00e3o voltada para o atlantismo norte-americano e o eurocentrismo de Macron, e de outro, o nacionalismo do RN. Embora n\u00e3o seja menos verdade que podemos encontrar elementos claros de eurocentrismo neste (embora pouco atlantismo) e tra\u00e7os nacionalistas no&nbsp;<em>Ensemble.<\/em>&nbsp;Aproxima\u00e7\u00e3o que fez com que parte n\u00e3o negligenci\u00e1vel dos eleitores macronistas e da direita tradicional, com o derretimento destes, no momento de escolher entre o NFP e o RN, ficaram, muitas vezes sem hesitar, com o segundo. Afinal, como o exemplo brasileiro demonstra bem, n\u00e3o poucos a achar que mais valeria encarar um experimento totalmente novo com a extrema-direita no poder que repetir a velha f\u00f3rmula reformista e \u201cgastadora\u201d das esquerdas institucionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Elei\u00e7\u00e3o (1)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA extrema direita\u201d no limiar do poder. O desafio do fronte republicano\u201d, dizia a manchete do&nbsp;<em>Le Monde&nbsp;<\/em>da ter\u00e7a-feira 2 de julho. O segundo turno ocorreria em poucos dias e a principal urg\u00eancia at\u00e9 l\u00e1 era constituir um&nbsp;<em>Nouveau<\/em>&nbsp;<em>Front R\u00e9publicain&nbsp;<\/em>capaz de reunir, mesmo que provisoriamente, as esquerdas e o centro macronista, ap\u00f3s a demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a do RN no primeiro turno que ocorrera dois dias antes e a perspectiva de vit\u00f3ria acachapante que se anunciava. Rapidamente, o NFP declarou que tiraria das disputas os seus candidatos que estivessem em terceiro lugar em proveito de um candidato governista nas circunscri\u00e7\u00f5es lideradas pelo RN.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gesto que n\u00e3o obteve resposta sim\u00e9trica de parte lado do campo presidencial que se manteve em boa medida amb\u00edguo. Macron, embora continue insistindo ser um combatente contra a extrema-direita, contando com a ades\u00e3o autom\u00e1tica das esquerdas a qualquer coisa que se postasse contra o RN, demorou a se engajar explicitamente nessa batalha verdadeiramente decisiva, se sentindo no direito de n\u00e3o se manifestar claramente pela barragem da extrema-direita. Chegou-se a sugerir que ele estaria demonstrando ingratid\u00e3o com aqueles que por duas vezes ativaram esse dispositivo sociopol\u00edtico que lhe permitiu ser eleito presidente em 2017 e 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No seu campo, nem todos se mostravam favor\u00e1veis \u00e0 compor um&nbsp;<em>Front&nbsp;<\/em>com as esquerdas. Parecia que parte do campo presidencial n\u00e3o hesitaria em colaborar, de uma maneira ou de outra, com um eventual governo do RN. Alguns, como o primeiro-ministro Gabriel Attal, falaram que nenhum voto deveria ser dado ao RN, outros, como Bayrou, afirmaram que nenhum voto deveria ir para o RN nem para o NFP. Esta ambiguidade, por assim dizer, era justificada por estes atores em resposta \u00e0 hegemonia que o LFI e sobretudo M\u00e9l\u00e9nchon detinham nas alian\u00e7as das esquerdas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, era dif\u00edcil para Macron e companhia limitada, voltarem atr\u00e1s de todas as acusa\u00e7\u00f5es feitas contra o NFP durante as elei\u00e7\u00f5es europeias e no primeiro turno: anti-parlamentarismo, viol\u00eancia, separatismo, terrorismo econ\u00f4mico. Aproveitando o v\u00e1cuo do massacre genocid\u00e1rio que Israel comete em Gaza, e das fraturas que o conflito faz emergir na sociedade francesa ap\u00f3s os atentados do 7 de outubro em Israel acusar M\u00e9l\u00e9nchon e a totalidade das esquerdas de antissemita tornou-se uma pr\u00e1tica banalizada. Se \u00e9 dif\u00edcil negar que h\u00e1 de fato tra\u00e7os de antissemitismo em parte da esquerda francesa, estes s\u00e3o, n\u00e3o obstante, residuais. Antissemita, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 a extrema-direita, pouco importando a sua carapu\u00e7a, mas desta determina\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria a m\u00eddia e o&nbsp;<em>Ensemble<\/em>&nbsp;pouco ou nada falam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se n\u00e3o fossem as esquerdas, n\u00e3o havia<em>&nbsp;Front R\u00e9publicain.&nbsp;<\/em>Por\u00e9m, se em 2002 o bloco&nbsp;<em>Front R\u00e9publicain&nbsp;<\/em>havia se constitu\u00eddo de maneira relativamente s\u00f3lida, o de 2024 n\u00e3o escondia o seu car\u00e1ter provis\u00f3rio. A manifesta\u00e7\u00e3o do 15 de junho contou com a participa\u00e7\u00e3o de 250 mil pessoas por todo o pa\u00eds, em 2002 compareceram 1,3 milh\u00f5es em um hist\u00f3rico 1\u00ba Maio. Havia pouco entusiasmo tanto no NFP quanto no campo macronista. O fatalismo reinava, como se n\u00e3o houvesse raz\u00e3o para engajamento existencial diante da vit\u00f3ria certa do inimigo. Muitos viveram dias de pesadelos e de absoluta paralisia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais do que tudo, um novo<em>&nbsp;Front&nbsp;<\/em>era necessidade de sobreviv\u00eancia. Ao final do primeiro turno, estando certa a vit\u00f3ria do RN, tratava-se de diminuir os danos. Acima de tudo impedir que eles obtivessem uma maioria absoluta no parlamento. Era uma tarefa pol\u00edtica como tamb\u00e9m moral. De toda forma no seu editorial do mesmo dia o&nbsp;<em>Le Monde&nbsp;<\/em>clamava pela \u201cUrg\u00eancia do fronte republicano\u201d. A situa\u00e7\u00e3o que se desenhava era \u201calimentada pela desconfian\u00e7a pol\u00edtica, pela rejei\u00e7\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o, pelo aumento das preocupa\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a. A onda n\u00e3o \u00e9 espec\u00edfica de Fran\u00e7a, mas no pa\u00eds que se acreditava estar mais bem protegido do que outras democracias pela sua tradi\u00e7\u00e3o republicana, pelas suas institui\u00e7\u00f5es, o choque \u00e9 imenso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No domingo seguinte, 7 de julho, todos (ou quase) respiravam o al\u00edvio de uma marcha ao poder que n\u00e3o obteve sucesso. O alarme soara com um volume at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dito. Na semana anterior, ao final do primeiro turno, por\u00e9m, a urg\u00eancia era constituir um novo&nbsp;<em>Front<\/em>&nbsp;para barrar a extrema direita. Neste momento, diante da gravidade da situa\u00e7\u00e3o e do risco real de virada institucional, o&nbsp;<em>Le Monde<\/em>, um jornal que se esfor\u00e7a por manter a apar\u00eancia republicana, afirmou no seu editorial que toda ambiguidade seria \u201cimperdo\u00e1vel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Elei\u00e7\u00e3o (2)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma mat\u00e9ria do&nbsp;<em>Le Monde<\/em>&nbsp;do dia 18 junho intitulada \u201c<em>Dissolution: r\u00e9cit de ces heures o\u00f9 Macron a ouvert la bo\u00eete de Pandore<\/em>\u201d [Dissolu\u00e7\u00e3o: relato destas horas nas quais Macron abriu a caixa de Pandora] evidenciava o isolamento e a aposta autorit\u00e1ria do presidente. O primeiro-ministro Gabriel Attal, como outros membros do governo, teriam aconselhado a adiar a dissolu\u00e7\u00e3o para o in\u00edcio de setembro, na volta das f\u00e9rias. Naquele momento, junho, o risco era alto, sobretudo devido \u00e0 baixa popularidade e desconfian\u00e7a crescente que a popula\u00e7\u00e3o tem com o presidente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mal o anuncio havia sido feito e os ministros j\u00e1 estavam entrando no mundo que se avizinhava, tal a certeza da vit\u00f3ria do RN. Relatos contam que alguns foram \u00e0s l\u00e1grimas durante uma reuni\u00e3o de emerg\u00eancia pouco ap\u00f3s a dissolu\u00e7\u00e3o. Outros falaram que se tratava de \u201droleta belga\u201d, uma variante com seis balas e n\u00e3o apenas uma no cartucho. O aparelho do Estado entrou parcialmente em&nbsp;<em>stand-by<\/em>. Os ministros que tamb\u00e9m s\u00e3o deputados deserdaram dos seus of\u00edcios e anularam suas agendas para se engajar cada um na sua campanha particular. O risco de agravamento crise econ\u00f4mica aumentava, pois de maneira geral o mercado parece preferir a estabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Macron declarava em alto e bom som que os programas do RN e do NPF eram irrealistas, mas os investidores desconfiavam do futuro, pois tudo indicava que ele perderia e teria que pactuar com um ou outro. Funcion\u00e1rios temiam ter de em breve passar informa\u00e7\u00f5es sigilosas sobre a administra\u00e7\u00e3o fiscal e do tesouro para a extrema-direita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antecipando a vit\u00f3ria do RN, o presidente n\u00e3o tardou a nomear aliados em alguns cargos chaves com o objetivo de aparelhar o Estado para melhor resistir a um eventual governo de extrema direita. Foi o caso do comiss\u00e1rio franc\u00eas na Uni\u00e3o Europeia, criticado por Le Pen, mas que ajudou a renovar o mandato de Ursula von der Leyner. Macron tamb\u00e9m indicou o chefe de gabinete dela. Como tamb\u00e9m do novo comandante da aeron\u00e1utica, al\u00e9m de chefes de pol\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>P\u00f3s-elei\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia 09 de setembro, exatos 51 dias ap\u00f3s o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es e at\u00e9 mesmo ap\u00f3s a sagrada volta das f\u00e9ria,s Macron decidiu nomear, contra todas as expectativas iniciais, Michel Barnier da velha guarda do LR como primeiro ministro. Antigo deputado e ex-ministro das rela\u00e7\u00f5es exteriores de Jacques Chirac, chefiou recentemente o grupo da comiss\u00e3o europeia respons\u00e1vel por organizar as rela\u00e7\u00f5es com o Reino Unido no imediato p\u00f3s-<em>brexit<\/em>. O seu longo curr\u00edculo pol\u00edtico mostra tamb\u00e9m que ele foi um dos deputados que em 1981 votou contra a descriminaliza\u00e7\u00e3o da homossexualidade na Fran\u00e7a e ter proposto construir um muro nas fronteiras europeias do leste.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dois meses ap\u00f3s o primeiro lugar do NPF nas elei\u00e7\u00f5es, o primeiro ministro escolhido \u00e9 ligado \u00e0 Sarkozy e est\u00e1 na direita do Partido Republicano. Isto \u00e9, embora n\u00e3o seja ligado a Ciotti, trata-se de algu\u00e9m n\u00e3o muito distante das posi\u00e7\u00f5es do RN. Aliar o centro com a direita, com o aval da extrema-direita (pois sabe-se que durante essa longa espera na tentativa de encontrar um nome qualquer Marine Le Pen foi diversas vezes pessoalmente consultada por Macron) foi a \u00fanica maneira que o presidente encontrou de continuar governando um pa\u00eds cada vez mais ingovern\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns falam em golpe de mestre, mas n\u00e3o parece o caso. O automatismo do processo faz com que aqueles que j\u00e1 tem algum poder nas m\u00e3o consigam conduzi-lo ou reajust\u00e1-los em detrimento dos outros, embora sempre provisoriamente, como quem adia o desfecho. Todos ficaram mais uma vez surpresos com essa escolha, inclusive seus aliados e o patronato. Em uma clara invers\u00e3o dos termos, o partido que ficou em quarto lugar na elei\u00e7\u00e3o ganhou de presente um primeiro-ministro. Nas democracias contempor\u00e2neas muitas vezes quem perde ganha. De toda forma, tal gesto desacredita ainda mais o processo eleitoral e as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e no curto prazo deve acentuar ainda mais a crise no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vendo a virada de mesa no horizonte LFI chegou a propor um processo de destitui\u00e7\u00e3o do presidente para a assembleia. Embora imposs\u00edvel, algo que no in\u00edcio parecia apenas um gesto simb\u00f3lico e desesperado, o impeachment de Macron seria, ao menos \u00e9 o que dizem pesquisas divulgadas logo ap\u00f3s a nomea\u00e7\u00e3o de Barnier, apoiados por metade da popula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, tr\u00eas quartos dos franceses se dizem contr\u00e1rios \u00e0 nomea\u00e7\u00e3o do novo primeiro-ministro, preferindo no seu lugar Lucie Castets (PS) ou Bardella. \u201cA elei\u00e7\u00e3o foi roubada do povo franc\u00eas, a mensagem foi negada\u201d, disse imediatamente M\u00e9l\u00e9nchon. Assim como em 2005, o resultado eleitoral se transformava em seu contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A esquerda (<em>Nouveau Front Populaire<\/em>) ficou em primeiro lugar do pleito, mas ela constitu\u00eda uma alian\u00e7a muito fr\u00e1gil e, sobretudo, foi necess\u00e1rio construir uma alian\u00e7a ainda mais fr\u00e1gil para o segundo turno, o&nbsp;<em>Front R\u00e9publicain,<\/em>&nbsp;desta vez com objetivos puramente eleitorais, para poder derrotar a extrema-direita. Se por um lado, o figurino da democracia francesa havia estabelecido a pr\u00e1tica que o partido ou grupo que ficou em primeiro lugar \u00e9 quem indica o pr\u00f3ximo primeiro ministro, por outro lado, isso \u00e9 pr\u00e1tica, mas n\u00e3o \u00e9 norma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde o in\u00edcio ficou claro que para Macron, tudo, menos o NFP. Ou melhor, tudo menos o LFI? Ainda no 23 de julho, tentando transformar a sua discreta maioria em vit\u00f3ria, o NFP prop\u00f4s Lucie Castets como sua candidata a primeiro-ministro. Funcion\u00e1ria p\u00fablica com forma\u00e7\u00e3o nas melhores escolas administrativas francesas e internacionais, hoje conselheira fiscal da prefeitura de Paris, ela pertence \u00e0 ala moderada do PS. Isto \u00e9, ela \u00e9 um quadro pr\u00f3ximo da posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Macron antes de ser eleito em 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De maneira muito h\u00e1bil e impressionante, pois muitos imaginavam que ela ficaria na sombra de M\u00e9l\u00e9nchon e de outras lideran\u00e7as do NPF, Castets soube se impor e passou dias circulando pelo pa\u00eds e, sobretudo, pelas m\u00eddias. Dia ap\u00f3s dia ela dava entrevistas e se mostrou uma candidata bastante cred\u00edvel inclusive para a parte dos ve\u00edculos de centro-direita. Se sentindo pressionado, Macron sinalizou, no entanto, que n\u00e3o aceitaria nomear um governo do qual fizessem parte ministros do LFI. Em resposta, e contra todas as expectativas, M\u00e9l\u00e9nchon anunciou que o seu partido estava disposto a n\u00e3o fazer parte de um eventual governo liderado por Castets e que desta maneira bastaria Macron seguir o rito usual que tudo poderia ir bem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o foi assim, pois logo Macron confessou que, no fundo, ele n\u00e3o queria governar com algu\u00e9m do NFP, pouco importando se era ou n\u00e3o da dita esquerda radical. Castets n\u00e3o se deu por vencida e continuou at\u00e9 o final se apresentando como uma op\u00e7\u00e3o cred\u00edvel. V\u00e1rios nomes circularam como op\u00e7\u00f5es antes da nomea\u00e7\u00e3o de Barnier, pois o governo, em uma cl\u00e1ssica estrat\u00e9gia, passou a difundir dezenas de nomes poss\u00edvel todos os dias para confundir o debate e, sobretudo, desgastar a popula\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o aguentava mais tanta enrola\u00e7\u00e3o. No fundo o presidente n\u00e3o sabia muito bem quem escolher, mas j\u00e1 sabia quem n\u00e3o queria de jeito nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como foi notado, \u00e0 semelhan\u00e7a de outras democracias ocidentais como Alemanha, B\u00e9lgica e Espanha, a Fran\u00e7a entrou finalmente no&nbsp;<em>hall<\/em>&nbsp;dos pa\u00edses que agora precisam constituir alian\u00e7as esdr\u00faxulas nos parlamentos para continuar minimamente funcionando. Enquanto isso n\u00e3o ocorria, o pa\u00eds continuou durante mais de um m\u00eas no modo autom\u00e1tico, mas nem tanto assim. A diferen\u00e7a com os demais pa\u00edses, no entanto, \u00e9 que o avalista do novo governo \u00e9 a extrema direita. Sem ela, ele n\u00e3o se sustenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De certa maneira, o curioso deste ponto de chegada \u00e9 de como um partido e um programa social-democrata tradicional como o LFI (\u00e9 verdade que liderado por uma figura totalmente incompat\u00edvel com a maneira que pol\u00edtica institucional contempor\u00e2nea tem se movido) seria, na realidade, absolutamente compat\u00edvel com o macronismo original de 2017, aquele que se apresentou como uma renova\u00e7\u00e3o rejuvenescida do progressismo liberal, mas que, mesmo assim, mete muito mais medo no establishment neoliberal que o RN.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s o pleito, o ent\u00e3o primeiro ministro, Gabriel Attal agiu como manda o figurino e entregou imediatamente o seu pedido de demiss\u00e3o. O presidente, no entanto, pediu para que ele ficasse no cargo por mais um tempo para poder garantir uma boa transi\u00e7\u00e3o e assegurasse que as coisas continuassem funcionando por assim dizer normalmente durante os jogos ol\u00edmpicos e enquanto procurava um novo ocupante para o posto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A imprensa batizou essa nova figura figura exc\u00eantrica encarnada por Gabriel Attal de primeiro ministro demission\u00e1rio [\u201c<em>premier ministre d\u00e9missionnaire<\/em>\u201d]. In\u00e9dito nessas propor\u00e7\u00f5es na Fran\u00e7a, mas j\u00e1 relativamente comum em outros pa\u00eds, o primeiro-ministro, assim como todo o seu minist\u00e9rio, embora n\u00e3o fosse mais oficialmente ministro, agia enquanto tal. Paradoxalmente ele ocupou e n\u00e3o ocupou o cargo por cinquenta e um dias. Como nem por isso a caneta n\u00e3o parou quieta, ficou claro que um primeiro ministro provis\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o diferente de um permanente. Agindo como o dono da bola, e ainda por cima como quem cr\u00ea ser dono do campo de jogo, tudo apontava para uma escolha pessoal do presidente para o primeiro-ministro. Era necess\u00e1rio achar algu\u00e9m que tivesse apar\u00eancia de concilia\u00e7\u00e3o, mas que continuasse a marcha acelerada das reformas demandadas pelo patronato franc\u00eas e obrigadas pela Uni\u00e3o Europeia. Tudo indica que Barnier apenas inverta a equa\u00e7\u00e3o encarnada por Attal e seja na realidade um primeiro-ministro \u201cpermanente-provis\u00f3rio\u201d (muitos j\u00e1 falam inclusive da possibilidade um novo pleito para daqui a um ano caso a crise de ingovernabilidade se agrave). Dada a fragilidade do ministro e do presidente, h\u00e1 risco real de paralisia na assembleia o que obstruiria qualquer possibilidade de reformas ou ajustes \u2014 e inclusive o voto do or\u00e7amento de 2025 \u2014 por essas vias normais do jogo democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, isso talvez n\u00e3o seja um grande problema para o presidente pois embora tivesse maioria estreita na configura\u00e7\u00e3o anterior da assembleia, n\u00e3o conseguia aprovar o que quer que fosse facilmente. Como sa\u00edda encontrada, ele vem h\u00e1 muito tempo governando por medidas urgentes que contornam legalmente as inst\u00e2ncias parlamentares. No Brasil estas medidas de lei s\u00e3o provis\u00f3rias. Na Fran\u00e7a, aquilo que pareceria \u00e0 primeira vista an\u00e1logo \u00e0s medidas provis\u00f3rias brasileiras, o famoso artigo 49-3, n\u00e3o o \u00e9, pois l\u00e1 a vig\u00eancia \u00e9 permanente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fixa\u00e7\u00e3o da lei ocorre ap\u00f3s simples delibera\u00e7\u00e3o do conselho dos ministros e o texto \u00e9 considerado adotado se nenhum movimento de censura contra o governo n\u00e3o for votado, o que demandaria uma maioria absoluta da oposi\u00e7\u00e3o no parlamento. Sem maioria absoluta, mas sem a possibilidade da oposi\u00e7\u00e3o bloquear as medidas governa-se por medidas permanentes. Elisabeth Borne, primeira ministra entre maio de 2020 e janeiro de 2024 fez recurso mais de vinte vezes a esse dispositivo jur\u00eddico, inclusive para aprovar a pol\u00eamica reforma da previd\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parece haver uma forte tend\u00eancia de concentra\u00e7\u00e3o de poder no executivo em detrimento dos outros dois poderes. N\u00e3o s\u00e3o poucos os se mostram preocupado com as derivas autorit\u00e1rias francesas. Como em outros lugares, essa reorienta\u00e7\u00e3o social e institucional n\u00e3o precisa necessariamente da extrema direita no poder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado originalmente em <a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/eleicoes-na-franca-uma-vitoria-que-nao-houve\/#_ednref16\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/eleicoes-na-franca-uma-vitoria-que-nao-houve\/#_ednref16\">A Terra \u00e9 Redonda<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<h4 class=\"modern-footnotes-list-heading \">FOOTNOTES<\/h4><ul class=\"modern-footnotes-list \"><li><span>1<\/span><div>Como notou David Adler em artigo para o<em>&nbsp;New York Times,&nbsp;<\/em>n\u00e3o s\u00e3o os extremistas e sim os assim chamados centristas os mais hostis \u00e0 democracia. Tudo passa a valer na tentativa de barrar aquilo que hoje \u00e9 visto como extremo, inclusive medidas autorit\u00e1rias e impulsivas. Muita coisa mudou de 2018 para c\u00e1, mas o que parece certo \u00e9 que o centro do espectro pol\u00edtico acompanha a sociedade e tem se deslocado rapidamente para a direita. Cf: Adler, David, \u201c<em>Centrists Are the Most Hostil to Democracy, Not Extremists<\/em>\u201d, 23 maio 2018. <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/interactive\/2018\/05\/23\/opinion\/international-world\/centrists-democracy.html\">https:\/\/www.nytimes.com\/interactive\/2018\/05\/23\/opinion\/international-world\/centrists-democracy.html<\/a><\/div><\/li><li><span>2<\/span><div>Cf:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.lefigaro.fr\/politique\/le-scan\/2018\/11\/07\/25001-20181107ARTFIG00121-macron-petain-a-ete-un-grand-soldat-pendant-la-premiere-guerre-mondiale.php\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.lefigaro.fr\/politique\/le-scan\/2018\/11\/07\/25001-20181107ARTFIG00121-macron-petain-a-ete-un-grand-soldat-pendant-la-premiere-guerre-mondiale.php<\/a><\/div><\/li><li><span>3<\/span><div>Roy, Iva, \u201cUn r\u00e9pit salutaire mais sans majorit\u00e9 pour le Front Populaire, Basta!, 8 de julho, 2024. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/basta.media\/Un-repit-salutaire-mais-sans-majorite-pour-le-Front-populaire\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/basta.media\/Un-repit-salutaire-mais-sans-majorite-pour-le-Front-populaire<\/a><\/div><\/li><li><span>4<\/span><div>Cf:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ouest-france.fr\/elections\/presidentielle\/histoires-d-elections-a-la-presidentielle-de-2002-le-seisme-le-pen-suivi-du-raz-de-maree-chirac-278297b6-ab50-11ec-a913-f0dff1800d5e\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.ouest-france.fr\/elections\/presidentielle\/histoires-d-elections-a-la-presidentielle-de-2002-le-seisme-le-pen-suivi-du-raz-de-maree-chirac-278297b6-ab50-11ec-a913-f0dff1800d5e<\/a>&nbsp;.<\/div><\/li><li><span>5<\/span><div>Um dos primeiros a diagnosticar de maneira contundente essa virada particular ao espectro franc\u00eas foi Alain Badiou em uma confer\u00eancia pronunciada no dia 23 de novembro de 2015, poucos dias ap\u00f3s o atentado, e posteriormente publicada em livro. (Cf:&nbsp;<em>Notre mal vient de plus loin. Penser les tueries du 13 novembre,&nbsp;<\/em>Paris, Fayard, 2016).<\/div><\/li><li><span>6<\/span><div>Cf:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.huffingtonpost.fr\/actualites\/article\/manif-pour-tous-simone-veil-a-salue-les-manifestants-contre-le-mariage-gay_13943.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.huffingtonpost.fr\/actualites\/article\/manif-pour-tous-simone-veil-a-salue-les-manifestants-contre-le-mariage-gay_13943.html<\/a><\/div><\/li><li><span>7<\/span><div>Cf: Marylou Magal, Marylou e Massol, Nicolas,&nbsp;<em>L\u2019extr\u00eame droite, nouvelle g\u00e9n\u00e9ration : enqu\u00eate au coeur de la jeunesse identitaire,&nbsp;<\/em>Paris, Denoel, 2024.<\/div><\/li><li><span>8<\/span><div>Badiou, Alain,&nbsp;<em>\u00c9loge de la Politique,&nbsp;<\/em>Paris, Flammarion, 2017, p. 115-123.<\/div><\/li><li><span>9<\/span><div>Amable, Bruno &amp; Palombarini, Stefano,&nbsp;<em>L\u2019illusion du bloc bourgeois: Alliances sociales et avenir du mod\u00e8le fran\u00e7ais<\/em>, Paris, Liber\/Raisons d\u2019Agir, 2018. Em um artigo de 2022 publicado no&nbsp;<em>Sidecar<\/em>, Serge Halimi j\u00e1 identificava um aprofundamento e uma virada ainda mais \u00e0 direita nesse bloco bourgeois por ocasi\u00e3o da reelei\u00e7\u00e3o de Macron. (Cf: Halimi, Serge, \u201cThe Bourgeois Bloc,<em>Sidecar,<\/em>&nbsp;30 June 2022. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/sidecar\/posts\/the-bourgeois-bloc\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/newleftreview.org\/sidecar\/posts\/the-bourgeois-bloc<\/a>&nbsp;).<\/div><\/li><li><span>10<\/span><div>Muitos desconfiam que a candidatura surpresa de Hollande disfar\u00e7ava a ambi\u00e7\u00e3o de voltar ao centro da arena pol\u00edtica como primeiro-ministro, \u00e9 bem poss\u00edvel que isso seja real, mas at\u00e9 aqui essa inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o produziu nenhum resultado efetivo.<\/div><\/li><li><span>11<\/span><div>Rapha\u00ebl Glucksmann, filho do maoista renegado Andr\u00e9 Glucksmann, \u00e9 uma figura ascendente no PS. Foi o cabe\u00e7a de chapa do seu partido nas elei\u00e7\u00f5es europeias. Virtual candidato \u00e0 presid\u00eancia em 2027, aquele que \u00e9 apelidado como o \u201chomem da esquerda plural\u201d \u00e9 pr\u00f3ximo de Lionel Jospin, Hollande e Macron, representando a ala direita do partido e se posicionando contra a hegemonia crescente de M\u00e9l\u00e9nchon e do LFI no interior das esquerdas francesas. Em 2008, mesma \u00e9poca da invas\u00e3o russa, Glucksmann trabalhava na Ge\u00f3rgia como conselheiro oficial do ent\u00e3o presidente neoliberal e pr\u00f3ximo dos Estados-Unidos Mikheil Saakachvili. Tal fato, rendeu acusa\u00e7\u00f5es por parte de Bardella dele ser inapto para ocupar fun\u00e7\u00f5es de Estado por ter trabalhado para interesses estatais estrangeiros diferentes e muitas vezes, segundo ele, concorrente dos franceses. O deputado europeu \u00e9 casado com uma das mais importantes jornalistas e apresentadores televisivas francesas: L\u00e9a Salam\u00e9. A autora de<em>&nbsp;Femmes Puissantes<\/em>&nbsp;(mulheres potentes), best-sellers do \u201cfeminismo liberal\u201d (Nancy Fraser), j\u00e1 teve que trocar de canal para n\u00e3o interferir na carreira ascensional do marido. Ventila-se no pa\u00eds da igualdade que, apesar de tudo, ela talvez tenha que abrir m\u00e3o da sua carreira brilhante e mais do que promissora sob o risco de comprometer as ambi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do marido Glucksmann.<\/div><\/li><li><span>12<\/span><div>Durand, C\u00e9dric; Keucheyan, Razmig e Palombarini, Stefano, \u201cConstruire la gauche de rupture\u201d,&nbsp;<em>Contretemps<\/em>, 22 de julho 2024. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.contretemps.eu\/construire-gauche-rupture-nouveau-front-populaire\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.contretemps.eu\/construire-gauche-rupture-nouveau-front-populaire\/<\/a><\/div><\/li><li><span>13<\/span><div>O magnata Vincent Bollor\u00e9 \u00e9 um personagem importante no mundo pol\u00edtico e midi\u00e1tico franc\u00eas, supondo que haja separa\u00e7\u00e3o entre eles. Um dos principais empres\u00e1rios e com interesses maiores naquilo que se conhece como France-Afrique, ele exerce um papel an\u00e1logo ao do norte-americano Roger Ailes (part\u00e3o da Fox News) como dono de v\u00e1rios ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o e principalmente do canal televisivo Cnews an\u00e1logo ao americano, que serve de plataforma para a difus\u00e3o em massa e quotidiana do discurso e das ideia de extrema-direita. H\u00e1 alguns anos \u00e9 o principal canal do pa\u00eds, nem tanto pela audi\u00eancia mas pelo fato de conseguir pautar o tom e conte\u00fado da agenda e do debate nos outros ve\u00edculos de m\u00eddia e da pol\u00edtica nacional.<\/div><\/li><li><span>14<\/span><div>Cf:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ouest-france.fr\/politique\/eric-ciotti\/un-forcene-dans-son-bunker-la-video-deric-ciotti-seul-dans-son-bureau-decryptee-par-un-expert-a2095efe-2982-11ef-96d1-fdb7d737b711\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.ouest-france.fr\/politique\/eric-ciotti\/un-forcene-dans-son-bunker-la-video-deric-ciotti-seul-dans-son-bureau-decryptee-par-un-expert-a2095efe-2982-11ef-96d1-fdb7d737b711<\/a><\/div><\/li><li><span>15<\/span><div>Richard, Gilles, \u201cLes R\u00e9publicains sont vou\u00e9s \u00e0 devenir un partit croupion\u201d,&nbsp;<em>Le Monde,&nbsp;<\/em>18 juin 2024.<\/div><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A reorienta\u00e7\u00e3o social e institucional autorit\u00e1ria n\u00e3o precisa necessariamente da extrema direita no poder<\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"author-name":"Frederico Lyra","choose-language":"PT","wds_primary_category":36,"wds_primary_alameda-themes":0,"wds_primary_projects":0,"wds_primary_dynamic-publications-cat":0,"wds_primary_type-tax":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[73,215,18],"alameda-themes":[167,168],"projects":[104],"dynamic-publications-cat":[],"type-tax":[57,56],"class_list":["post-9770","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-type-article","tag-france","tag-frederico-lyra","tag-pt","alameda-themes-new-political-formations","alameda-themes-sovereignty-order-and-justice","projects-after-order","type-tax-civil-society","type-tax-geopolitics"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9770","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9770"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9770\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31986,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9770\/revisions\/31986"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9770"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9770"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9770"},{"taxonomy":"alameda-themes","embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/alameda-themes?post=9770"},{"taxonomy":"projects","embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/projects?post=9770"},{"taxonomy":"dynamic-publications-cat","embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/dynamic-publications-cat?post=9770"},{"taxonomy":"type-tax","embeddable":true,"href":"https:\/\/alameda.institute\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/type-tax?post=9770"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}