A Big Tech está tentando acabar com a democracia?
Este artigo foi publicado originalmente pela revista Tribuna e faz parte do ‘Depois da Ordem‘ projeto
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As grandes empresas de tecnologia estão cada vez mais contornando os sistemas democráticos para construir espaços desregulamentados de controle da existência humana. Mas na luta pela ‘soberania digital’, países como o Brasil estão explorando os perigos - e as possibilidades - de reagir.
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Nas últimas duas décadas, o Brasil se tornou uma espécie de emblema da batalha global pela soberania digital. O país é frequentemente mencionado internacionalmente como um dos poucos exemplos positivos que provam que os países do Sul Global podem e irão reagir quando tiverem a vontade política necessária. Por exemplo, em 2024, o Brasil foi um dos poucos países que confrontou fortemente a decisão editorial extrema de Elon Musk de dar rédea solta a muitas contas de extrema direita que haviam sido banidas antes de ele assumir o controle do Twitter e rebatizá-lo de X. Musk atacou o presidente do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Morais, mas acabou sendo forçado a recuar. Esse incidente ocorreu dez anos após o que continua sendo o principal exemplo da firmeza do Brasil em relação à soberania digital, o Marco Civil da Internet, que foi democraticamente estabelecido por meio de consulta popular aberta e visava proteger e regular o mercado da Internet, promovendo a inclusão digital. Naquela época, embora o governo de Dilma Rousseff ainda se inclinasse para a esquerda e a extrema-direita local fosse praticamente inexistente, parecia de fato que o Brasil iluminaria o caminho global para um ambiente digital mais democrático.
Mas a soberania é um negócio complicado - e ainda mais quando suas reivindicações levam a um golpe de Estado, como o que ocorreu em 2016, destituindo o próprio presidente que havia apresentado nossa legislação de soberania digital apenas dois anos antes. Além do golpe, da ‘Ponte para o Futuro’ do presidente golpista Michel Temer e do teto constitucional para o investimento público, da trágica gestão de Bolsonaro da pandemia, da diplomacia, da economia, dos direitos humanos e de praticamente todas as suas atribuições presidenciais; e do terceiro mandato tímido, liberal e alinhado aos EUA de Lula, o impulso do Brasil em direção à soberania digital parece um pálido ponto azul perdido no espaço sideral de problemas mais contemporâneos - muitos deles também envolvendo soberania.
Em 2025, por exemplo, quando as commodities tradicionais de exportação primária do Brasil, como café e carne, foram atingidas pela guerra tarifária de Donald Trump, sob o argumento de retaliação contra a chamada ‘perseguição’ do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, Brasília parece ter deixado a soberania digital ainda mais de lado, em nome da garantia de uma soberania econômica ‘mais ampla’. O projeto de estimação do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que oferece terras brasileiras - e água doce - para grandes empresas de tecnologia construírem centros de dados altamente poluentes (em troca de praticamente nada, já que até mesmo os dados de usuários coletados permanecerão em posse dos gigantes do Vale do Silício) saiu dos holofotes das críticas enquanto o Brasil lutava para manter seus principais produtos de exportação. A luta para mitigar o impacto da guerra tarifária de Trump também forneceu ao Brasil a desculpa perfeita para abdicar de sua liderança regional em relação à beligerância de Washington em relação à Venezuela, à Colômbia e até mesmo ao México. Em meio à guerra econômica de Trump, a posição do Brasil como potência agrário-exportadora tornou-se sinônimo de ‘soberania’, relegando outras áreas de preocupação com a defesa nacional, como os aspectos digitais e diplomáticos, a posições secundárias.
Mas mesmo se desconsiderarmos os eventos recentes que levaram o Brasil a deixar parcialmente de lado seu compromisso com a soberania digital, podemos realmente considerar esse país como um caso bem-sucedido de luta contra o crescente apetite das grandes empresas de tecnologia pela construção de monopólios e pela desregulamentação? De acordo com um estudo produzido em uma joint venture pelas Universidades de São Paulo e Brasília, as administrações locais e federais do Brasil pagaram mais de R$ 23 bilhões (reais) em licenças de software de grande tecnologia (quase metade desse dinheiro gasto nos doze meses entre junho de 2024 e junho de 2025). Essa quantia seria suficiente não apenas para desenvolver o próprio cenário nacional de software do Brasil, mas também para alimentá-lo com oitenta e seis data centers de ponta construídos localmente, 5MW Tier 3, aumentando em cinquenta por cento, com infraestrutura pública, o número atual de tais instalações - que, a propósito, são todas privadas. Infelizmente, como já mencionado, o governo Lula escolheu o caminho oposto e, em vez de criar uma infraestrutura nacional que poderia garantir a soberania dos dados do povo brasileiro, assinou um projeto de lei que concederá vantagens fiscais para que as grandes empresas de tecnologia construam, operem e possuam seus próprios data centers em solo brasileiro, mantendo a propriedade dos dados.
No entanto, a soberania digital do Brasil não é simplesmente cedida por vontade própria. Uma forte pressão está por trás de uma decisão como a mencionada acima, por meio da qual o Estado acaba patrocinando efetivamente a big tech para extrair dados de seu próprio povo, enquanto polui sua própria terra. Em qualquer economia capitalista dependente, as empresas digitais norte-americanas conseguiram proliferar e prosperar - com diferentes níveis de sucesso; sob uma infinidade de configurações legislativas/econômicas - exercendo uma pressão política e comunicacional sistemática e generalizada sobre os formuladores de políticas, a mídia e as sociedades como um todo. No caso específico do Brasil, as Big Techs têm investido recursos de forma consistente tanto em lobby para enfraquecer a regulamentação de quaisquer atividades que considerem lucrativas, independentemente de quão prejudiciais ou imorais possam ser, quanto em sustentar sua própria imagem como um farol de oportunidades econômicas para trabalhadores e empresas.
A Uber é uma dessas empresas. Por meio de uma combinação de operações de lobby e campanhas sustentadas de desinformação, a grande empresa de tecnologia, cuja marca se tornou sinônimo de precariedade contemporânea, conseguiu colonizar o cenário do transporte brasileiro, reduzindo drasticamente os salários e paralisando as alavancas tradicionais do movimento trabalhista - tudo isso enquanto sustentava uma imagem de paraíso da ‘liberdade empresarial’, eficaz até mesmo entre muitos dos trabalhadores cuja exploração foi levada a novos níveis. Neste artigo, analisaremos as estratégias de lobby e de comunicação equivocada da empresa por meio das lentes conceituais da soberania digital, bem como o impacto consequente que ela teve sobre a economia e a sociedade brasileiras. E a pergunta orientadora mais ampla que apresentamos, sem a pretensão real de uma resposta definitiva, é: até que ponto o governo e a sociedade brasileira estão dispostos e são capazes de enfrentar soberanamente os grandes gigantes da tecnologia, protegendo sua economia, seu meio ambiente e sua sociedade? E, de forma mais ampla, a soberania digital pode coexistir com essas empresas ou elas devem ser totalmente expulsas para que a soberania prospere em um país capitalista dependente como o Brasil?
Predadores digitais
Na última década, os aplicativos de transporte de pessoas e mercadorias invadiram todo o mundo capitalista com promessas de trabalho flexível, altas margens de lucro individual e a realização do sonho de ser ‘seu próprio patrão’. Seduzidas por essas promessas - e pela perspectiva de reduzir rapidamente as taxas de desemprego sem ter de criar novos empregos ou investir dinheiro novo - as administrações de várias grandes cidades latino-americanas entraram em conflito com os taxistas tradicionais e abriram as portas para que essas empresas estrangeiras operassem com pouca ou nenhuma regulamentação. Uma década depois, essas sociedades estão viciadas e não podem mais viver sem o Uber, o iFood e serviços semelhantes.
Assim como outras empresas da ‘economia compartilhada’, as empresas de carona, como a Uber, são famosas por empregarem táticas de terra arrasada: elas começam promovendo o dumping no mercado-alvo, inviabilizando rapidamente a concorrência e, em seguida, com seu monopólio estabelecido, submetem todos os atores - desde os próprios trabalhadores até agentes do governo, incluindo usuários e o poder legislativo - às suas próprias regras e práticas de mercado. Quando os governos os abordam com uma mentalidade tolerante, eles simplesmente dominam o espaço de trabalho, tornando praticamente impossível a regulamentação de limites posteriores. Por exemplo, a evolução estatística mostra como foi ineficaz o esforço tardio de equilíbrio do governo da cidade de São Paulo: em 2015, o número de motoristas de aplicativos ultrapassou o de taxistas em 12.000 e, em 2023, o número de viagens em carros baseados em aplicativos ultrapassou o de transporte público na Grande São Paulo.
As consequências para os trabalhadores de táxi no Brasil têm sido duras. Um dossiê publicado em maio de 2024 pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostra que, de 2012 a 2015, o setor de transporte de passageiros empregava cerca de 400.000 motoristas, com uma renda média mensal de cerca de R$3.100. Em 2022, quando o setor empregava quase um milhão de trabalhadores, a renda média caiu para menos de R$2.400. Os trabalhadores que se envolveram em lutas coletivas por maior dignidade no trabalho também foram penalizados das formas mais arbitrárias, desde a demissão ou suspensão até ameaças de morte, incluindo campanhas de difamação on-line contra suas lutas. Até mesmo os ’bem-comportados’ foram punidos: contrariando as leis trabalhistas, os ganhos por hora dos motoristas e entregadores de motocicletas diminuíram consistentemente ao longo do tempo.
A cobertura previdenciária também foi afetada: em 2015, 47,8% dos motoristas de passageiros contribuíram. Sete anos depois, essa porcentagem caiu quase pela metade, para 24,8%. Como conclui a pesquisa do IPEA, além da ’crescente precarização das condições de trabalho’, há ’uma situação em que os trabalhadores submetidos a uma condição real de trabalho subordinado (e precário) reproduzem a narrativa (ou ideologia) que tem sido amplamente divulgada e assumem que são ‘empresários de si mesmos’. Em suma, a tão celebrada chegada dessas empresas de carona ao Brasil resultou em uma piora nas condições de trabalho dos taxistas, enquanto as autoridades políticas ofereceram muito pouca resistência a essas mudanças. Se os efeitos foram tão negativos, por que houve tão pouca resistência à influência da Uber e de outras empresas?
Uberpropaganda
ma parte importante da resposta a esse aparente enigma tem a ver com a maneira pela qual as empresas de transporte de passageiros e outras grandes empresas de tecnologia que operam na economia compartilhada realizam campanhas sistemáticas de ‘influência’, que envolvem lobby de políticos e desinformação para direcionar o público a seu favor. A Agência Pública, uma agência de investigação independente brasileira, revelou um esquema de cooptação e desinformação direcionado aos trabalhadores do aplicativo iFood, coordenado por agências de publicidade contratadas pela plataforma. O objetivo era dissuadir os trabalhadores de participar de protestos organizados por grupos como Entregadores Antifascistas e a Associação dos Motofretistas de Aplicativos e Autônomos do Brasil (AMA-BR), que lutavam por taxas de entrega mais altas, medidas de prevenção da Covid-19 e melhores condições de trabalho.
O projeto de desinformação incluía infiltrados em protestos e páginas políticas no Instagram, como ’Garfo na caveira’ e ‘Não breca meu trampo’, criadas oito dias após a mobilização que paralisou mais de dez estados brasileiros e ficou conhecida como ’Breque nos apps’. O monitoramento de ativistas e a propaganda antiprotesto duraram pelo menos um ano, segundo o relatório. Em uma das reuniões divulgadas pela Pública, coordenadores da Benjamim Comunicação, contratada pelo iFood, comemoraram como a campanha ‘matou’ um dos líderes do movimento, motoboy Paulo Lima, conhecido como Galo, da Entregadores Antifascistas. A estratégia corresponde a uma prática conhecida como ‘marketing 4.0’, que envolve a promoção de uma ideia ou produto sem revelar quem está por trás dele.
Alguns meses depois dessa campanha, em setembro de 2022, O Intercepto trouxe à tona um projeto de lei de autoria do próprio iFood, com o objetivo de impedir o reconhecimento de vínculo empregatício por meio da criação de uma nova categoria de trabalhador: o ‘prestador de serviços autônomo’. O projeto de lei seria apresentado pela deputada Luiza Canziani, do PSD (Partido Social-Democrata, que é de direita, apesar do nome), presidente desde 2021 da Frente Digital, um grupo de parlamentares apoiado por empresas como Google e iFood. O gerador de conteúdo para esse bloco legislativo é o Instituto Cidadania Digital, um think tank de propriedade conjunta de João Sabino, que também atua como diretor de políticas públicas do iFood. O grupo de legisladores, que não esconde sua preferência por legislar em favor dos aplicativos e da grande tecnologia, foi apelidado de ‘Like Caucus’ por O Intercepto.
Essas campanhas de pressão foram imensamente bem-sucedidas em bloquear completamente ou, pelo menos, limitar o escopo das iniciativas regulatórias que interfeririam nos interesses das grandes empresas de tecnologia. Apesar das promessas do novo governo de Lula de finalmente progredir em termos de regulamentação das plataformas digitais, as grandes empresas de tecnologia ainda estão conseguindo levar a melhor. Durante a campanha para as eleições presidenciais de 2022 - um ano que começou com o número de trabalhadores de plataforma ultrapassando 1,5 milhão - o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva prometeu promover um amplo debate para a elaboração de uma nova legislação trabalhista, com atenção especial aos empreendedores, trabalhadores de plataforma, trabalhadores domésticos e trabalhadores domiciliares. No primeiro dia de seu governo, o ex-metalúrgico Luiz Marinho, durante sua posse como Ministro do Trabalho e Emprego, defendeu a regulamentação do trabalho por aplicativos. No mesmo mês de janeiro, o governo federal criou um Fórum com cerca de cinquenta pesquisadores para discutir não apenas a regulamentação do trabalho baseado em aplicativos, mas também as próprias plataformas.
O primeiro resultado conjunto do grupo foi um manifesto assinado por mais de 400 pesquisadores de áreas como trabalho, tecnologia e direito. Entre as demandas do documento estavam o reconhecimento de um vínculo empregatício com as plataformas como ponto de partida e a regulamentação pública da atividade, juntamente com a proteção de dados dos trabalhadores, a transparência algorítmica e o apoio a plataformas de trabalho públicas e cooperativas. O governo brasileiro criou um grupo de trabalho tripartite em 1º de maio de 2023, com representantes de empresas, trabalhadores e setores do governo, que estavam envolvidos na discussão, para decidir sobre a regulamentação do trabalho em várias plataformas. O grupo funcionaria por 150 dias, que poderiam ser prorrogados uma vez pelo mesmo período.
Conforme argumentado por Diogo de Carvalho Antunes, analista técnico de políticas do Ministério do Trabalho e Emprego, o grupo enfrentou vários desafios para chegar ao acordo que comporia o Projeto de Lei 12/202. Ao final, o Projeto de Lei Complementar (PLC) foi assinado pelo presidente Lula em março de 2024, com o ‘objetivo de garantir direitos mínimos aos motoristas de aplicativos’, mas acabou sendo bastante limitado em relação à ambição inicial. O documento descreve mecanismos para a seguridade social e melhores condições de trabalho em quatro pilares: segurança e saúde, remuneração, previdência social e transparência. ’No entanto, em meados de 2025, ele não havia sido aprovado pelo Congresso Nacional, e sua última atualização foi a retirada da pauta da Comissão de Indústria, Comércio e Serviços (CICS) por acordo em 2 de julho de 2024.
Combatendo a chantagem das grandes empresas de tecnologia
progresso lento e o bloqueio da legislação são certamente influenciados pelo lobby corporativo, que, embora não seja regulamentado no Brasil, acontece abertamente. E, graças às campanhas de difamação e desinformação mencionadas anteriormente, não precisaram depender de campanhas na mídia de massa: elas participaram legalmente da elaboração da própria proposta. Tivemos um lobby que bloqueou a aprovação do Projeto de Lei 2630, e agora tivemos um lobby que, em vez de bloquear um projeto de lei no Congresso, influenciou a própria construção dessa proposta‘, declarou o pesquisador da Fairwork, Jonas Valente, em março de 2024.
Diluído, o Projeto de Lei 12/2024 estabelece um salário mínimo de R$32,10 por hora para os trabalhadores, proporcionalmente equivalente ao salário mínimo nacional - mas aplicável somente entre a aceitação da viagem e a chegada ao destino. Também exige contribuições para a seguridade social, com os trabalhadores pagando 7,5% e as empresas 20%. Embora haja avanços modestos, permanece um impasse fundamental: a única medida que realmente garantiria a dignidade do trabalho em plataformas é o reconhecimento de um vínculo empregatício. Nesse aspecto, a legislação proposta fez pouco mais do que atualizar o ‘prestador de serviços independente’ do iFood sob o rótulo de ‘trabalhador autônomo baseado em plataforma’, uma nova categoria que, como sua antecessora, evita o reconhecimento de qualquer relação de trabalho real entre trabalhadores e plataformas.
A estagnação da legislação e a ineficácia do diálogo entre trabalhadores e plataformas levaram os entregadores a organizar um novo ‘Breque dos aplicativos’ em março de 2025. A greve ocorreu em cerca de vinte capitais entre 31 de março e 1º de abril, exigindo taxas mínimas de entrega mais altas e pagamento por quilômetro rodado. Em São Paulo, o iFood se reuniu com alguns representantes após protestos na sede da empresa em Osasco, cidade da região metropolitana. Em uma reunião de uma hora, eles reiteraram suas reivindicações a João Sabino, o mesmo diretor de relações governamentais e públicas do iFood, que disse que levaria a discussão à diretoria - sem marcar uma data para outra reunião.
Em uma declaração, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), ativa no grupo de trabalho que levou ao Projeto de Lei 12/2024, disse que respeita o direito de protesto e que suas empresas associadas mantêm um diálogo aberto com os trabalhadores. A mesma associação expandiu seu envolvimento com o governo no início de 2025, fazendo uma parceria com o Ministério da Igualdade Racial para criar conteúdo de conscientização antirracismo para motoristas, parceiros de entrega e usuários de serviços. A parceria é pouco mais do que um gesto típico de diversidade liberal - um placebo. Afinal de contas, as demandas por reconhecimento de emprego, status de classe e outras medidas trabalhistas que de fato melhorariam a qualidade do trabalho e reduziriam a precariedade continuam sendo ignoradas.
Essa diluição pró-negócios era previsível, dada a falta de paridade entre as partes interessadas no grupo de trabalho do Brasil. Mesmo em condições tradicionais de negociação entre duas entidades de classe, a paridade seria improvável. Mas, nesse caso, a disparidade foi extrema, pois os trabalhadores não são sequer uma categoria formal, muito menos têm poder de barganha. Por mais que se diga que o trabalhador ‘uberizado’ ‘não tem patrão’, o patrão é o aplicativo, que sabe mais sobre consumidores e trabalhadores do que qualquer uma das partes sabe sobre si mesma - conhecimento profundo e amplo o suficiente para colocá-los um contra o outro. Essa foi a tática que permitiu que o iFood e outros enfraquecessem completamente não apenas a proposta regulatória do Brasil, mas também a organização de seus trabalhadores precários como classe.
Nesse cenário sombrio de hesitação do governo, agravado pela desorganização da classe e pela dependência da sociedade, as plataformas essencialmente tomaram as três esferas anteriores como reféns. Surgem, então, algumas questões urgentes: como usuários conscientes, pesquisadores e outros atores políticos podem oxigenar a resistência existente a partir do zero, tanto na vida cotidiana quanto em movimentos como o ‘Breque dos aplicativos’? Como uma frente de comunicação pode se opor ao lobby - tanto legislativo quanto de mídia - promovido pelos capitalistas de plataforma? Como os legisladores podem ser convencidos a medir a precariedade como tal, e não como emprego? E, finalmente, como o valor social dos direitos trabalhistas pode ser recuperado em uma sociedade cada vez mais liberalizada?
O Brasil, um país que, nos últimos anos, demonstrou seu desejo - às vezes com orgulho, às vezes discretamente - de afirmar sua soberania nacional em relação à interferência dos EUA, e que tem buscado uma agenda de longo prazo para se aproximar da ambiciosa meta da soberania digital, nos oferece um pouco de reflexão sobre a dificuldade do terreno tecnológico contemporâneo. Além disso, ele nos alerta para o fato de que qualquer político ou ativista que deseje alcançar até mesmo elementos limitados de soberania digital precisa se preparar para uma grande resistência jurídica e de comunicação por parte das grandes empresas de tecnologia dos EUA. No entanto, paradoxalmente, o volume e a intensidade das campanhas de lobby e desinformação também sugerem que essas mesmas empresas começam a temer cada vez mais o fato de que, em um futuro próximo, países de regiões como a América Latina e a Europa, que têm uma capacidade digital muito limitada, possam ficar cada vez mais inquietos com o fato de terem se tornado colônias tecnológicas. A batalha será árdua, mas nem tudo está perdido.
