Eleições na França — uma vitória que não aconteceu (PT)
A reorientação social e institucional autoritária não precisa necessariamente da extrema direita no poder
Uma decisão eleitoral
Um calafrio tomou conta da imensa maioria da população, inclusive de seus aliados e simpatizantes mais próximos. Ninguém entendia o motivo daquela decisão aparentemente precipitada; ninguém imaginava que aquilo fosse possível. Todos, porém, suspeitavam que, no fundo, o presidente não sabia exatamente o que estava fazendo. Houve uma queda na bolsa de valores de Paris. Alguns receberam a notícia com um espanto semelhante ao que se sentiu com o anúncio do confinamento em 2020, por causa da covid-19.
Na época, falava-se em guerra, e desde então (ou talvez desde antes) a sociedade vem sendo governada como se estivéssemos em guerra. Outros lembraram-se logo da dissolução proposta por George Pompidou a Charles De Gaulle no calor das barricadas de maio de 1968, mas logo perceberam que não havia nenhum paralelo com a situação insurrecional dos anos 1960. A única semelhança, ainda que a envergadura dos personagens envolvidos seja bastante assimétrica, seria a vontade dos respectivos líderes de manter a aparência de estar no centro e no controle de toda a situação.
Embora a possibilidade de dissolução da Assembleia Nacional já estivesse sendo cogitada pela imprensa, nada indicava que o presidente tomaria essa decisão. Muito pelo contrário, a concretização da vitória do Assembleia Nacional (RN) nas eleições para o Parlamento Europeu indicava que o mais racional seria exatamente o contrário. A possibilidade de a extrema direita obter a maioria absoluta na Assembleia Nacional nunca havia sido tão grande. A prudência e a moderação, traços tradicionais para quem se posiciona como um político de centro, eram exigidas. Era necessário ganhar um pouco mais de tempo.
No entanto, Emmanuel Macron, errático e impulsivo, não se encaixa nesse perfil; é ele quem melhor personifica o que tem sido chamado de “extremo centro”.1Como observou David Adler em um artigo para o New York Times, Não são os extremistas, mas sim os chamados centristas os mais hostis à democracia. Tudo vale na tentativa de impedir o que hoje é visto como extremo, inclusive medidas autoritárias e impulsivas. Muita coisa mudou desde 2018, mas o que parece certo é que o centro do espectro político acompanha a sociedade e tem se deslocado rapidamente para a direita. Cf.: Adler, David, “Os centristas são os mais hostis à democracia, e não os extremistas”, 23 de maio de 2018. https://www.nytimes.com/interactive/2018/05/23/opinion/international-world/centrists-democracy.html Ou seja, um autoritarismo de novo tipo, uma das facetas da reestruturação do governo do capitalismo global. A forma e o momento em que a dissolução e o novo processo eleitoral foram anunciados traziam consigo um resultado dado como certo: a vitória do RN. Nunca, até aquele momento, o possível resultado de uma eleição fora tão predeterminado. Essa era a tampa de esgoto que Emmanuel Macron abria de forma repentina, com sua decisão radical de dissolver o parlamento.
Quase 551 mil franceses votaram contra a Constituição, mas como essa era a opção democrática errada, a Constituição acabou sendo inviabilizada, pois também os holandeses a rejeitaram. O estabelecimento A União Europeia decidiu mudar de rumo e elaborou outro tratado, o Tratado de Lisboa, que foi imposto democraticamente aos países membros, só que, desta vez, obviamente sem qualquer consulta popular, pois, evidentemente, não se podia correr o risco de outra escolha errada. Embora seja um grande entusiasta da União Europeia, a ponto de querer ressuscitar o antigo projeto de um exército europeu, Emmanuel Macron sabe perfeitamente que a extrema-direita já está bem presente no seio da instituição internacional e que, embora não pare de tentar, até agora não conseguiu ameaçar de forma mais enfática suas estruturas administrativas e orientação política.
Nada, portanto, o pressionava a tomar tal decisão. O argumento de que ele havia sido derrotado e que se iniciava uma crise de legitimidade não era de todo falso, mas bastariam um ou outro ajuste, uma ou outra declaração, e o barco do governo retomaria seu rumo (embora poucos consigam identificar qual seja) sem maiores percalços. Com a chegada das férias de verão e os Jogos Olímpicos se aproximando, logo a população esqueceria o choque da vitória eleitoral da extrema direita nas eleições europeias.
Tudo voltaria ao normal, pelo menos até 2027, quando haverá novas eleições presidenciais. Foi uma espera que se instalou. Se, em uma mistura de adesão e repulsa, a sociedade se organizava na expectativa dos Jogos Olímpicos, foram o medo e o otimismo — dependendo do campo político — que passaram a imperar e, por algumas semanas, tomaram conta do país. Nunca o futuro que se anunciava fora tão favorável aos partidários da extrema direita.
Uma pesquisa logo revelou que a maioria dos eleitores de Bardella aprovou a decisão de Macron. A dissolução parecia uma decisão tomada por um único homem, o que espalhou inquietação, incompreensão e indignação pela sociedade. A crise que o presidente desencadeou abriu um buraco desconhecido, suspendendo o tempo por curtas três semanas — pois, como se não bastasse causar tamanha confusão, o presidente decidiu dar o menor prazo possível para a organização de uma eleição de tamanha importância: o primeiro turno seria no dia 30 de junho e, uma semana depois, 7 de julho, o segundo turno.
Um desfecho catastrófico tomava forma com a perspectiva de entrar em um novo mundo sombrio, até então desconhecido, no qual a extrema-direita voltaria a governar a França. Novamente, pois tal coisa não acontece desde o governo de Vichy (1940-1944) sob o comando do marechal Pétain em parceria com Hitler — sem esquecer que Macron, em um gesto obscuro, reabilitou oficialmente Pétain ainda em 2018. 2Cf.: https://www.lefigaro.fr/politique/le-scan/2018/11/07/25001-20181107ARTFIG00121-macron-petain-a-ete-un-grand-soldat-pendant-la-premiere-guerre-mondiale.php
Minutos antes do anúncio televisivo feito pelo presidente, nenhuma dessas expectativas se vislumbrava no horizonte imediato da população francesa. A possibilidade de um governo de extrema direita é concreta, mas só daqui a três anos. O presidente antecipou o prazo.
Se teríamos um governo totalmente diferente, uma guerra civil institucional, uma nova parceria entre o presidente e seu jovem primeiro-ministro ou até mesmo uma continuação mais ou menos semelhante ao breve governo de Gabriel Attal, nunca saberemos. Não eram poucos os que tinham a impressão de que Macron queria governar com o RN. Talvez ele achasse que poderia controlar ou desgastar a extrema direita no poder.
No entanto, a certeza fatalista de que, segundo as expectativas da sociedade francesa, finalmente havia chegado a hora do RN assumir o poder não se concretizou. Após três semanas vividas como uma suspensão temporária, numa contagem regressiva à espera de um desfecho catastrófico já determinado de antemão, para surpresa geral, no dia 7 de julho, encerramento do segundo turno, contra todos os prognósticos e pesquisas eleitorais, a coligação de esquerda que havia, naquele momento, se constituído com o nome de Nova Frente Popular (Novo Fronte Popular — NFP), embora longe de alcançar qualquer maioria que lhe permitisse impor um primeiro-ministro, garantiu o primeiro lugar e a maior bancada de deputados.3Roy, Iva, “Uma trégua benéfica, mas sem maioria para a Frente Popular”, Basta!, 8 de julho de 2024. Disponível em: https://basta.media/Un-repit-salutaire-mais-sans-majorite-pour-le-Front-populaire
O Front Républicain (Frente Republicana) que se formara a partir de uma aliança improvisada entre o NFP e as forças macronistas do Conjunto, conseguiu frear mais uma vez a ascensão do RN. Macron, no entanto, antidemocrático e mau perdedor, fingiu que não houve eleição e, em uma aliança não declarada com o RN, resolveu nomear Michel Barnier, do fraco Partido Republicano, como primeiro-ministro. Ao final da eleição, o país parece passar por uma divisão institucional e territorial que, de certa forma, atualiza as fraturas francesas; é sobretudo isso que abordaremos aqui.
O presente prolongado em francês
Não é possível pensar na França contemporânea sem ter sempre em mente o segundo turno das eleições presidenciais de 2002, no qual outro Front Républicain (Frente Republicana) se reuniu em torno de Jacques Chirac para lhe garantir 831% dos votos — “um resultado digno de uma ditadura de bananas”4Cf.: https://www.ouest-france.fr/elections/presidentielle/histoires-d-elections-a-la-presidentielle-de-2002-le-seisme-le-pen-suivi-du-raz-de-maree-chirac-278297b6-ab50-11ec-a913-f0dff1800d5e . lembrou o jornal Oeste da França por ocasião do 20º aniversário deste acontecimento — contra os 171 votos obtidos por Jean-Marie Le Pen, do Frente Nacional, que, no primeiro turno, havia superado Lionel Jospin, o primeiro-ministro da época e favorito para vencer a eleição presidencial pelo Partido Socialista (PS).
Desde então, a política institucional francesa virou à direita e é, de certa forma, ditada pelas pautas e pelo programa da extrema direita. De certa forma, mesmo sem ter chegado ainda ao poder, é a extrema direita que orienta, desde o início do milênio, os caminhos tomados pela sociedade civil francesa. Por outro lado, isso só é possível porque a sociedade está objetivamente orientada para a direita. Como veremos, a guinada à direita do macronismo não se deu apenas pela crença no discurso da extrema direita; ela também é uma tomada de posição em virtude da direitização da sociedade. Um tentando alcançar o outro, e vice-versa.
Os ataques contra o jornal Charlie Hebdo nós fazemos Bataclan de 2015 acentuaram e consolidaram essa tendência de mudança.5Um dos primeiros a diagnosticar de forma contundente essa virada específica no panorama francês foi Alain Badiou, em uma palestra proferida em 23 de novembro de 2015, poucos dias após o atentado, e posteriormente publicada em livro. (Cf.: Nosso mal está chegando mais perto. Pense nas aulas do dia 13 de novembro, Paris, Fayard, 2016). Os exemplos são muitos, mas podemos destacar a nova lei de imigração aprovada em janeiro de 2024, conhecida como Loi Darmanin, em nome do ministro do Interior, ele próprio um antigo participante do movimento de extrema direita Manif pour Tous.
Movimento, que se tornou uma associação em 2023, a Manif pour Tous[Manifestação por todos] foi criado no final de novembro de 2012 em torno da luta contra a Lei do Casamento Gay. Sua principal ação era uma manifestação nacional anual, da qual seu nome tem origem. Além do ministro Gérard Darmanin, conhecido como o “primeiro policial da França”, podemos destacar a simpatia momentânea pelo movimento de figuras normalmente inquestionáveis como Simone Veil6Cf.: https://www.huffingtonpost.fr/actualites/article/manif-pour-tous-simone-veil-a-salue-les-manifestants-contre-le-mariage-gay_13943.html, a ex-ministra da Saúde cujo nome dá nome à lei que reconhece o direito ao aborto (Lei Veil), imortalizada por Macron no Panteão.
No seu livro A extrema direita, nova geração: investigação no seio da juventude identitária7Cf.: Marylou Magal, Marylou e Massol, Nicolas, A extrema direita, nova geração: investigação no seio da juventude identitária, Paris, Denoel, 2024. [Extrema-direita, nova geração: pesquisa entre a juventude identitária], Marylou Magal e Nicolas Massol destacam, entre várias outras coisas, como a Manif pour tous foi determinante por ter proporcionado um espaço para que as diferentes tendências da direita francesa se reunissem. As manifestações serviram de laboratório onde se criaram alianças, intercâmbios intelectuais e afetivos, e se tornaram um ponto de encontro natural para a organização da nova extrema-direita francesa, sobretudo de sua juventude.
Segundo os autores, os jovens têm menos receio em estabelecer laços antes vedados aos seus líderes políticos, ou seja, reconhecem mais facilmente as afinidades entre todas as forças de direita, o que, consequentemente, leva a uma crescente guinada à direita das forças políticas francesas a partir de suas bases juvenis. Foi daí que surgiu, por exemplo, o candidato do RN, Jordan Bardella.
O presidente que, em 2017, prometera neutralizar definitivamente a extrema direita é, hoje em dia, apontado como o principal responsável pelo crescimento do monstro que vem se formando de forma iminente na sociedade e pela aceleração da marcha do RN rumo ao poder. Em entrevista ao O Mundo No dia 18 de junho, o consultor Raphaël Lorca chamou a dissolução da assembleia de “golpe de Estado psíquico”. Ou seja, um ato político de tal força desestabilizadora que é capaz de provocar uma neutralização mental, uma sensação de que o que está sendo vivido não é real. Levando todos a se perguntarem se aquilo não teria sido um sonho ou um delírio.
Por outro lado, diz ele, esse tipo de ato performático tem um efeito de hiper-realidade, pois, em uma conjuntura constante, toda decisão desse tipo “é colocada no registro de urgência”. Toda transgressão ou decisão política futura passa a ter essa decisão como referência. Como, daqui em diante, a maioria das decisões será inevitavelmente percebida como menos radical do que esta, as lacunas deixadas por ela são imensas.
A ideia de um novo tipo de golpe de Estado já havia sido observada por Alain Badiou. Segundo o filósofo, a eleição de 2017 já havia sido fruto de um voto plebiscitário com uma “campanha de bombardeio sistêmico dizendo: se não for ele, vocês terão a extrema-direita”. O que teria ocorrido de fato nesta eleição, diz ele, foi um “golpe de Estado democrático”8Badiou, Alain, Elogio à Política, Paris, Flammarion, 2017, pp. 115-123. — uma versão atualizada do bonapartismo, tal como havia sido identificado por Marx — que levou ao poder uma nova aliança abrangendo um amplo espectro político, midiático e empresarial, que Bruno Amable e Stefano Palombarini chamaram de “bloco burguês”9Amable, Bruno e Palombarini, Stefano, A ilusão do bloco burguês: alianças sociais e o futuro do modelo francês, Paris, Liber/Raisons d’Agir, 2018. Em um artigo de 2022 publicado na Sidecar, Serge Halimi já identificava um aprofundamento e uma guinada ainda mais à direita nesse bloco burguês por ocasião da reeleição de Macron. (Cf.: Halimi, Serge, “The Bourgeois Bloc,Sidecar, 30 de junho de 2022. Disponível em: https://newleftreview.org/sidecar/posts/the-bourgeois-bloc )..
Ou seja, Macron representaria uma recomposição do espectro político e empresarial que se organizou com o objetivo de governar e reestruturar rapidamente a França, tornando-a, por assim dizer, apta e preparada para participar das rápidas transformações do capitalismo globalizado e, sobretudo, conter a insatisfação crescente da população e os motins que se multiplicariam contra a aceleração de tais processos reformatórios — o que de fato aconteceu.
Esse bloco, liderado politicamente pelo presidente e pelo grupo de partidos reunidos no Conjunto, mantém grande parte de sua legitimidade e permanência no poder devido ao medo que propagam abertamente de serem o último bastião civilizado disponível contra a ascensão da extrema-direita.Resta saber se essa barreira eleitoral terá efeito para sempre, ou se em 2027, por ocasião da próxima eleição presidencial, a profecia que vem sendo adiada há mais de vinte anos será finalmente cumprida.
Centro, esquerda, extrema direita
Foram três semanas de campanha intensa, marcadas por eventos quase diários. No dia seguinte à dissolução da assembleia, Macron se reuniu com os líderes dos três partidos que compõem seu grupo Conjunto: Stéphanie Séjourné (Reinaissance), Edouard Philippe (Horizons) e François Bayrou (MoDem). Este último chegou a sugerir que a campanha deveria se distanciar do presidente, ocultando sua imagem, sob o risco de afundar-se totalmente em sua baixa popularidade; uma ideia evidentemente rejeitada pelo chefe, pois o presidente continuou onipresente na mídia, afirmando que faria três aparições na televisão por semana.
No início da campanha, ainda em estado de choque devido à decisão tomada por seu líder, o campo macronista viu-se desesperadamente à procura de aliados. Encontrou muito poucos dispostos a dialogar. A decisão do presidente coincidiu com o momento em que seu campo político se encontrava mais fragilizado. O resultado das eleições europeias havia sido um dos piores que uma maioria presidencial obtinha em uma eleição legislativa. Muitos já se imaginavam abandonando o barco.
Seu antigo aliado, o remanescente de maio de 1968, Daniel Cohn-Bendit, não mediu palavras ao La Tribune: “Macron colocou a insensatez no centro da França! Ele se acha Jesus, imaginando que suas boas palavras vão resolver tudo”. “É o Titanic”, disseram outros membros do governo, sem saber ao certo se deveriam se demitir, romper com o campo presidencial, engajar-se na campanha, fundar um novo partido-movimento ou simplesmente esperar. Não por acaso, um possível aliado, o ex-presidente François Hollande10Muitos suspeitam que a candidatura surpresa de Hollande servisse para disfarçar a ambição de voltar ao centro da cena política como primeiro-ministro; é bem possível que isso seja verdade, mas, até agora, essa intenção não produziu nenhum resultado concreto., que, surpreendentemente, se apresentou como candidato a deputado pelo PS, chegou a afirmar que a coligação presidencial estava morta. Em determinado momento do segundo turno, o jornal Le Figaro afirmou que “em nome da ‘frente republicana’, a macronia corre o risco de ser apagada”.
Havia uma atmosfera de fim de reinado. Não foram poucos os que tentaram abandonar o grupo assim que as urnas fossem abertas e os votos contados. A inquietação reinava sobretudo entre aqueles que não teriam um destino certo após a eleição. No final da eleição, no entanto, o Conjunto sobreviveu ao obter um bom resultado de 165 deputados (embora isso signifique 73 a menos do que na composição anterior do parlamento). Embora tenha perdido a maioria relativa e se tornado a segunda força no Congresso, durante algumas semanas o grupo temeu o pior. Tudo indicava, e os resultados do primeiro turno reforçavam isso, que a base do presidente seria literalmente varrida do mapa político francês.
Foi graças às esquerdas e ao Front Républicain (Frente Republicana) que isso não só não aconteceu, como a derrota sofrida foi minimizada em termos numéricos. A desmoralização, por outro lado, foi grande, mas resta saber se isso ainda tem importância. De todo modo, é fato que, embora a desintegração total do campo presidencial não tenha ocorrido, sua possibilidade real foi vivida intensamente por todos, como se estivesse prestes a acontecer.
A grande aposta de Macron para tentar vencer ou minimizar uma eventual derrota eleitoral era a aparente impossibilidade de uma união das esquerdas. No entanto, logo no dia 13 de junho essa impossibilidade já era coisa certa, e um acordo havia sido feito. De fato, o presidente tinha motivos para apostar em uma nova fragmentação da esquerda, tendo em vista a dura campanha para o Parlamento Europeu, repleta de acusações e ataques mútuos entre o La France Insoumise (LFI) e o PS — liderado, desta vez, por uma figura em ascensão do que antigamente era chamado de caviar gauche, rebatizada como Thomas Piketty como gauche brahmane: Raphaël Glucksmann.11Raphaël Glucksmann, filho do ex-maoísta André Glucksmann, é uma figura em ascensão no PS. Foi o cabeça de chapa do seu partido nas eleições europeias. Candidato virtual à presidência em 2027, aquele que é apelidado de “homem da esquerda plural” é próximo de Lionel Jospin, Hollande e Macron, representando a ala direita do partido e posicionando-se contra a hegemonia crescente de Mélenchon e da LFI no seio da esquerda francesa. Em 2008, na mesma época da invasão russa, Glucksmann trabalhava na Geórgia como conselheiro oficial do então presidente neoliberal e próximo dos Estados Unidos, Mikheil Saakachvili. Esse fato rendeu acusações por parte de Bardella de que ele seria inapto para ocupar funções de Estado por ter trabalhado para interesses estatais estrangeiros diferentes e, muitas vezes, segundo ele, concorrentes dos franceses. O eurodeputado é casado com uma das mais importantes jornalistas e apresentadoras de televisão francesas: Léa Salamé. A autora de Mulheres fortes (mulheres poderosas), best-sellers do “feminismo liberal” (Nancy Fraser), já teve que mudar de rumo para não interferir na carreira em ascensão do marido. Espalha-se no país da igualdade a ideia de que, apesar de tudo, ela talvez tenha que abrir mão de sua carreira brilhante e mais do que promissora, sob o risco de comprometer as ambições políticas do marido Glucksmann.
Logo após o anúncio da dissolução da assembleia, este último declarou que era impossível construir qualquer aliança com Jean-Luc Mélenchon, líder do LFI, e que o caminho mais natural para o PS seria aliar-se ao governo. Ele foi rapidamente desautorizado pelo restante do partido, que costurou um acordo e selou uma aliança com o PCF, o LFI e o EEVL (Europa Ecologia Os Verdes) que, com claras referências ao passado glorioso da classe trabalhadora francesa, recebeu o nome de Nova Frente Popular (NFP).
Apesar do nome, a aliança tinha de tudo, embora não fosse tão popular assim, pois faltava a participação popular; voltaremos a esse assunto mais adiante. Por enquanto, o mais importante é saber que, apesar de tudo, havia uma disputa hegemônica entre a chamada “esquerda de ruptura”, encarnada pela LFI, e a esquerda mais institucional, liderada pelo PS (curiosamente ou não, é mais próximo desse polo que o Partido Comunista Francês se encontra atualmente).
Da mesma forma que o presidente trazia problemas para o seu grupo, era Mélenchon a figura que precisava ser controlada no NPF. “Cada vez que ele diz que será primeiro-ministro, ele me faz perder alguns votos”, chegou a afirmar François Ruffin, candidato pela Somme, uma zona industrial devastada e um dos principais líderes do LFI, que ao final da eleição romperá definitivamente com o partido. Imaginava-se que essa aliança fosse uma maneira de construir uma força capaz de frear minimamente o governo do RN, ou seja, foi a maneira encontrada para conter os danos institucionais que todos davam como certo. No entanto, contra todas as expectativas, o NPF obteve 178 deputados, ficando em primeiro lugar na eleição. Dentro do grupo, embora em segundo lugar em número, o PS foi o grande vencedor.
O partido, que quase desapareceu nas eleições de 2022, quando obteve apenas 27 deputados, conta agora com 65 representantes, seis a menos que o LFI. Em condições normais, o novo primeiro-ministro viria do NPF. É importante ressaltar que a regressão e a guinada à direita nas sociedades democráticas ocidentais são tão grandes que o que, há algumas décadas, pareceria um programa social-democrata tradicional, hoje é considerado de esquerda radical — alguns, vindo da esquerda e aparentemente com os pés fora do chão, falam até mesmo que se trataria de uma esquerda de ruptura(gauche de rupture).12Durand, Cédric; Keucheyan, Razmig e Palombarini, Stefano, “Construindo a esquerda de ruptura”, Contretemps, 22 de julho de 2024. Disponível em: https://www.contretemps.eu/construire-gauche-rupture-nouveau-front-populaire/ É verdade que, entre as propostas apresentadas para as eleições de 2017, o LFI defendia a refundação radical da República Francesa, ou seja, a fundação da 6ªa República, mas isso ficou totalmente fora de cena.
Na extrema direita, o processo foi vivido como uma transição da euforia diante das perspectivas reais de chegar ao poder para uma relativa decepção. Embora tenha obtido um número inédito e significativo de 148 deputados na assembleia, a possibilidade real, que não se concretizou, de uma vitória esmagadora na qual o amanhecer de 8 de julho marcaria a chegada de um jovem proveniente de suas fileiras ao cargo de primeiro-ministro da quarta potência nuclear do planeta foi vivida como um banho de água fria.
Até o momento em que surgiu como cabeça de chapa do RN para as eleições europeias, Jordan Bardella era um desconhecido do grande público. Embora ele seja, há algum tempo, um usuário assíduo do TikTok, rede social que prefere em detrimento do X (Twitter), sobretudo para se comunicar com a juventude. É importante ressaltar que cerca de 30% dos jovens entre 18 e 34 anos votaram no RN (o grupo macronista conta com menos de 10% dos eleitores nessa faixa etária). Bardella representa uma nova geração de eleitores e de quadros do partido, cujo ponto de radicalização, como sugerimos, deve ser situado na experiência dos atentados de 2015 e na Manif pour Tous.
Os mais radicais clamam por uma identidade verdadeiramente francesa e não hesitam em afirmar que sofrem de “racismo contra os brancos”. Além das influências da nova direita, que tem em Alain de Benoist seu principal representante, é a teoria do “grand remplacement” (grande substituição) que reúne os jovens militantes da extrema-direita francesa. Divulgada por Renaud Camus em um livro best-seller de intervenção política lançado em 2015, a “grande substituição” é uma teoria conspiratória que prega que, devido às baixas taxas de natalidade, os franceses serão em pouco tempo substituídos por árabes e negros, e se tornarão minoria em seu próprio país e território.
É a luta contra esse fantasma que tem orientado a extrema direita e contribuído para que essas ideias encontrem eco entre a juventude e as classes desfavorecidas. Depois que seu jovem colega de partido obteve cerca de 331 mil votos válidos no primeiro turno, Marine Le Pen afirmou, sem pestanejar, que seus eleitores haviam votado contra o projeto de desprezo pelo povo que já durava sete anos. No final, o RN é agora o maior partido da Assembleia Francesa, mas não governará. Pelo menos não diretamente.
O episódio mais ridículo desta eleição ocorreu por ocasião da cisão do partido Os republicanos (LR). Havia aqueles, liderados pelo presidente do partido Éric Ciotti, que queriam formar uma aliança com o RN e aqueles que preferiam manter sua relativa independência. Com a mediação do magnata Vincent Bolloré13O magnata Vincent Bolloré é uma figura importante no mundo político e midiático francês, supondo que haja uma separação entre ambos. Um dos principais empresários e com interesses de grande porte naquilo que se conhece como France-Afrique, ele desempenha um papel semelhante ao do norte-americano Roger Ailes (chefe da Fox News) como proprietário de vários veículos de comunicação e, principalmente, do canal de televisão Cnews, análogo ao americano, que serve de plataforma para a difusão em massa e diária do discurso e das ideias da extrema-direita. Há alguns anos, é o principal canal do país, não tanto pela audiência, mas pelo fato de conseguir ditar o tom e o conteúdo da agenda e do debate nos demais veículos de mídia e na política nacional., com quem mantém uma relação próxima, Ciotti negociou secretamente uma aliança entre seu partido e o RN. Assim que descobriram essa intriga, a diretoria do partido considerou-a inaceitável e votou pela destituição do presidente.
Este, não aceitando esse desfecho, rebelou-se contra o partido, invadindo e literalmente trancando-se em sua sede e ocupando-a ilegalmente. Ciotti chegou a dar declarações à imprensa pela janela de seu escritório, recusando-se a sair de lá, o que ficou conhecido como um bunker14Cf.: https://www.ouest-france.fr/politique/eric-ciotti/un-forcene-dans-son-bunker-la-video-deric-ciotti-seul-dans-son-bureau-decryptee-par-un-expert-a2095efe-2982-11ef-96d1-fdb7d737b711. Valérie Pecresse, presidente da região de Île-de-France, onde fica Paris, foi ao local e, junto com um colega que tinha uma cópia das chaves da sede do partido, teve que intervir com firmeza para negociar uma maneira de desalojá-lo sem precisar arrombar a sede do partido e, sobretudo, inventar uma forma de lidar com a cisão picaresca daquela que era a última mutação do antigo partido dos ex-presidentes Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy.
É fundamental notar que esta seria a primeira vez que um grande partido, caso suas autoridades legais aprovassem este projeto liderado por seu presidente, se envolveria em uma coalizão nacional com o RN, rompendo o tradicional cordão sanitário contra a extrema direita. Ciotti e seus aliados dissidentes cruzaram juntos este Rubicão, embora sem conseguir levar todo o seu partido consigo.
Por momentos, isso lembrou bastante a cúpula do PSDB que, em 2018, se dividiu entre aqueles que se mantiveram ambíguos quanto à escolha que fariam no segundo turno entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, e aqueles que, sem receios, aderiram explicitamente ao Capitão. Ciotti não decepcionou e manteve-se fiel às suas posições radicais durante as semanas de negociação, mistério e confusão em torno da escolha do novo primeiro-ministro, tendo clamado mais de uma vez por uma aliança da direita em torno do RN. Pois foi de dentro das fileiras desse partido, que saiu enfraquecido e quase implodiu no processo eleitoral, que, com o aval mais ou menos implícito do RN, surgiu o nome do novo primeiro-ministro: Michel Barnier.
Atualmente, pelo menos na França, observa Gilles Richard15Richard, Gilles, “Os Republicanos estão fadados a se tornar um partido residual”, Le Monde, 18 de junho de 2024., a tradicional divisão entre esquerda e direita parece ter passado para segundo plano. Desde 2002, com a virada da sociedade para a direita, a principal clivagem parece ser outra. É como se houvesse uma divisão interna na direita, orientando a sociedade com um lado “globalista” e outro “nacionalista”. Embora, de fato, a França seja um dos últimos países a possuir uma esquerda institucional representativa, esta, estando fora dessa divisão fundamental, basicamente responde e reage às pautas e agendas da direita (e, com isso, vai se direitizando no processo), sem conseguir propor uma nova configuração na qual possa ter de fato alguma voz e força política.
A desintegração do LR, a antiga direita tradicional, afirma Gilles Richard, seguiria essa lógica. Teríamos, por um lado, uma orientação voltada para o atlantismo norte-americano e o eurocentrismo de Macron e, por outro, o nacionalismo do RN. Embora não seja menos verdade que podemos encontrar elementos claros de eurocentrismo neste (embora pouco atlantismo) e traços nacionalistas no Conjunto. Essa aproximação fez com que uma parcela nada desprezível dos eleitores macronistas e da direita tradicional, com o esvaziamento desses grupos, na hora de escolher entre o NFP e o RN, optasse, muitas vezes sem hesitar, pelo segundo. Afinal, como o exemplo brasileiro demonstra bem, não são poucos os que acham que valeria mais a pena encarar um experimento totalmente novo com a extrema-direita no poder do que repetir a velha fórmula reformista e “gastadora” das esquerdas institucionais.
Eleição (1)
“A extrema direita” à beira do poder. O desafio da frente republicana”, dizia a manchete do O Mundo a partir de terça-feira, 2 de julho. O segundo turno aconteceria em poucos dias e a principal prioridade até lá era formar um Novo Front Républicain (Frente Republicana) capaz de reunir, ainda que provisoriamente, as esquerdas e o centro macronista, após a demonstração de força do RN no primeiro turno, ocorrido dois dias antes, e a perspectiva de uma vitória esmagadora que se anunciava. Rapidamente, o NFP declarou que retiraria da disputa seus candidatos que estivessem em terceiro lugar, em benefício de um candidato do governo nas circunscrições lideradas pelo RN.
Gesto que não obteve resposta recíproca por parte do campo presidencial, que se manteve, em grande medida, ambíguo. Macron, embora continue insistindo em ser um combatente contra a extrema-direita, contando com a adesão automática da esquerda a qualquer iniciativa que se opusesse ao RN, demorou a se engajar explicitamente nessa batalha verdadeiramente decisiva, sentindo-se no direito de não se manifestar claramente pela barreira contra a extrema-direita. Chegou-se a sugerir que ele estaria demonstrando ingratidão para com aqueles que, por duas vezes, acionaram esse dispositivo sociopolítico que lhe permitiu ser eleito presidente em 2017 e 2022.
No seu meio, nem todos se mostravam a favor de formar um Frente com a esquerda. Parecia que parte do campo presidencial não hesitaria em colaborar, de uma forma ou de outra, com um eventual governo do RN. Alguns, como o primeiro-ministro Gabriel Attal, afirmaram que nenhum voto deveria ser dado ao RN; outros, como Bayrou, afirmaram que nenhum voto deveria ir para o RN nem para o NFP. Essa ambiguidade, por assim dizer, era justificada por esses atores em resposta à hegemonia que o LFI e, sobretudo, Mélénchon detinham nas alianças de esquerda.
Ao mesmo tempo, era difícil para Macron e sua turma retratarem todas as acusações feitas contra o NFP durante as eleições europeias e no primeiro turno: antiparlamentarismo, violência, separatismo, terrorismo econômico. Aproveitando o vácuo do massacre genocida que Israel comete em Gaza e as fraturas que o conflito faz emergir na sociedade francesa após os atentados de 7 de outubro, acusar Mélenchon e toda a esquerda de antissemitismo tornou-se uma prática banalizada. Se é difícil negar que há de fato traços de antissemitismo em parte da esquerda francesa, estes são, no entanto, residuais. Antissemita, por definição, é a extrema-direita, independentemente de quem a vista, mas dessa determinação necessária a mídia e o Conjunto falam pouco ou nada.
Se não fossem as esquerdas, não haveria Front Républicain. No entanto, se em 2002 o bloco Front Républicain (Frente Republicana) Enquanto o de 2024 já se havia consolidado de forma relativamente sólida, o de 2024 não escondia seu caráter provisório. A manifestação de 15 de junho contou com a participação de 250 mil pessoas em todo o país; em 2002, compareceram 1,3 milhão em um histórico 1º de Maio. Havia pouco entusiasmo tanto no NFP quanto no campo macronista. O fatalismo reinava, como se não houvesse razão para um engajamento existencial diante da vitória certa do inimigo. Muitos viveram dias de pesadelos e de paralisia absoluta.
Mais do que tudo, um novo Frente era uma questão de sobrevivência. Ao final do primeiro turno, com a vitória do RN já garantida, tratava-se de minimizar os danos. Acima de tudo, impedir que eles obtivessem a maioria absoluta no parlamento. Era uma tarefa tanto política quanto moral. De qualquer forma, em seu editorial do mesmo dia, o O Mundo clamava pela “Urgência da frente republicana”. A situação que se desenhava era “alimentada pela desconfiança política, pela rejeição à imigração e pelo aumento das preocupações com a segurança. Essa onda não é específica da França, mas no país que se acreditava estar mais bem protegido do que outras democracias por sua tradição republicana e por suas instituições, o choque é imenso”.
No domingo seguinte, 7 de julho, todos (ou quase todos) respiravam aliviados por uma marcha rumo ao poder que não teve sucesso. O alarme soara com uma intensidade até então inédita. Na semana anterior, ao final do primeiro turno, porém, a urgência era constituir um novo Frente para conter a extrema direita. Neste momento, diante da gravidade da situação e do risco real de uma reviravolta institucional, o O Mundo, um jornal que se esforça por manter uma imagem republicana, afirmou em seu editorial que qualquer ambiguidade seria “imperdoável”.
Eleição (2)
Uma matéria do O Mundo do dia 18 de junho, intitulada “Dissolução: resumo das horas em que Macron saiu da caixa de Pandore” [Dissolução: relato dessas horas em que Macron abriu a caixa de Pandora] evidenciava o isolamento e a postura autoritária do presidente. O primeiro-ministro Gabriel Attal, assim como outros membros do governo, teria aconselhado adiar a dissolução para o início de setembro, após o retorno das férias. Naquele momento, em junho, o risco era alto, sobretudo devido à baixa popularidade e à crescente desconfiança que a população nutre em relação ao presidente.
Mal o anúncio havia sido feito e os ministros já estavam entrando no mundo que se aproximava, tamanha era a certeza da vitória do RN. Relatos contam que alguns chegaram às lágrimas durante uma reunião de emergência logo após a dissolução. Outros disseram que se tratava de ”roleta belga”, uma variante com seis balas e não apenas uma no cartucho. O aparato do Estado entrou parcialmente em em espera. Os ministros que também são deputados deixaram de lado suas funções e cancelaram suas agendas para se dedicarem, cada um, à sua campanha particular. O risco de agravamento da crise econômica aumentava, pois, de modo geral, o mercado parece preferir a estabilidade.
Macron declarava em voz alta que os programas do RN e do NPF eram irrealistas, mas os investidores estavam desconfiados quanto ao futuro, pois tudo indicava que ele perderia e teria de fazer um acordo com um ou outro. Funcionários temiam ter que passar em breve informações confidenciais sobre a administração fiscal e do tesouro para a extrema-direita.
Antecipando a vitória do RN, o presidente não demorou a nomear aliados para alguns cargos-chave, com o objetivo de preparar o Estado para melhor resistir a um eventual governo de extrema direita. Foi o caso do comissário francês na União Europeia, criticado por Le Pen, mas que ajudou a renovar o mandato de Ursula von der Leyner. Macron também indicou o chefe de gabinete dela, bem como o novo comandante da aeronáutica e chefes de polícia.
Pós-eleição
No dia 9 de setembro, exatamente 51 dias após o segundo turno das eleições e mesmo após o tradicional retorno das férias, Macron decidiu nomear, contrariando todas as expectativas iniciais, Michel Barnier, da velha guarda do LR, como primeiro-ministro. Ex-deputado e ex-ministro das Relações Exteriores de Jacques Chirac, ele chefiou recentemente o grupo da Comissão Europeia responsável por organizar as relações com o Reino Unido no período imediatamente após oBrexit. Seu extenso currículo político mostra também que ele foi um dos deputados que, em 1981, votou contra a descriminalização da homossexualidade na França e propôs a construção de um muro nas fronteiras orientais da Europa.
Dois meses após o primeiro lugar do NPF nas eleições, o primeiro-ministro escolhido é ligado a Sarkozy e está na ala direita do Partido Republicano. Ou seja, embora não tenha ligações com Ciotti, trata-se de alguém que não está muito distante das posições do RN. Aliar o centro à direita, com o aval da extrema-direita (pois sabe-se que, durante essa longa espera na tentativa de encontrar um nome qualquer, Marine Le Pen foi várias vezes consultada pessoalmente por Macron) foi a única maneira que o presidente encontrou de continuar governando um país cada vez mais ingovernável.
Alguns falam em golpe de mestre, mas não parece ser o caso. O automatismo do processo faz com que aqueles que já detêm algum poder consigam conduzi-lo ou reajustá-lo em detrimento dos demais, embora sempre de forma provisória, como quem adia o desfecho. Todos ficaram mais uma vez surpresos com essa escolha, inclusive seus aliados e a patronal. Em uma clara inversão dos termos, o partido que ficou em quarto lugar na eleição ganhou de presente um primeiro-ministro. Nas democracias contemporâneas, muitas vezes quem perde ganha. De qualquer forma, tal gesto desacredita ainda mais o processo eleitoral e as instituições democráticas e, no curto prazo, deve acentuar ainda mais a crise no país.
Vendo a reviravolta se aproximando, o LFI chegou a propor um processo de destituição do presidente à Assembleia. Embora impossível, algo que no início parecia apenas um gesto simbólico e desesperado, o impeachment de Macron seria, pelo menos é o que dizem pesquisas divulgadas logo após a nomeação de Barnier, apoiado por metade da população. Além disso, três quartos dos franceses se dizem contrários à nomeação do novo primeiro-ministro, preferindo em seu lugar Lucie Castets (PS) ou Bardella. “A eleição foi roubada do povo francês, a mensagem foi negada”, disse imediatamente Mélénchon. Assim como em 2005, o resultado eleitoral se transformava em seu contrário.
À esquerda (Nova Frente Popular) ficou em primeiro lugar nas eleições, mas essa aliança era muito frágil e, sobretudo, foi necessário formar uma aliança ainda mais frágil para o segundo turno, o Front Républicain, desta vez com objetivos puramente eleitorais, para poder derrotar a extrema-direita. Se, por um lado, o modelo da democracia francesa havia estabelecido a prática de que o partido ou grupo que ficou em primeiro lugar é quem indica o próximo primeiro-ministro, por outro lado, isso é uma prática, mas não é uma regra.
Desde o início ficou claro que, para Macron, tudo menos o NFP. Ou melhor, tudo menos o LFI? Ainda em 23 de julho, na tentativa de transformar sua maioria discreta em vitória, o NFP propôs Lucie Castets como sua candidata a primeira-ministra. Funcionária pública formada nas melhores escolas de administração francesas e internacionais, hoje assessora fiscal da prefeitura de Paris, ela pertence à ala moderada do PS. Ou seja, ela é uma figura próxima da posição política de Macron antes de ele ser eleito em 2017.
De forma muito hábil e impressionante — já que muitos imaginavam que ela ficaria na sombra de Mélenchon e de outras lideranças do NPF —, Castets soube se impor e passou dias circulando pelo país e, sobretudo, pela mídia. Dia após dia, ela concedia entrevistas e mostrou-se uma candidata bastante credível, inclusive para a parte dos veículos de centro-direita. Sentindo-se pressionado, Macron sinalizou, no entanto, que não aceitaria nomear um governo do qual fizessem parte ministros do LFI. Em resposta, e contra todas as expectativas, Mélénchon anunciou que seu partido estava disposto a não fazer parte de um eventual governo liderado por Castets e que, dessa forma, bastaria Macron seguir o ritual habitual para que tudo pudesse correr bem.
Não foi assim, pois logo Macron confessou que, no fundo, não queria governar com alguém do NFP, independentemente de ser ou não da chamada esquerda radical. Castets não desistiu e continuou até o fim se apresentando como uma opção credível. Vários nomes circularam como opções antes da nomeação de Barnier, pois o governo, em uma estratégia clássica, passou a divulgar dezenas de nomes possíveis todos os dias para confundir o debate e, sobretudo, desgastar a população que já não aguentava mais tanta enrolação. No fundo, o presidente não sabia muito bem quem escolher, mas já sabia quem não queria de jeito nenhum.
Como já foi observado, assim como outras democracias ocidentais, como a Alemanha, a Bélgica e a Espanha, a França finalmente entrou no sala dos países que agora precisam formar alianças improváveis nos parlamentos para continuar funcionando minimamente. Enquanto isso não acontecia, o país permaneceu por mais de um mês em modo automático, mas nem tanto assim. A diferença em relação aos demais países, no entanto, é que o avalista do novo governo é a extrema direita. Sem ela, ele não se sustenta.
De certa forma, o que chama a atenção neste ponto de chegada é como um partido e um programa social-democrata tradicional como o LFI (é verdade que liderado por uma figura totalmente incompatível com a forma como a política institucional contemporânea tem se desenvolvido) seria, na realidade, absolutamente compatível com o macronismo original de 2017, aquele que se apresentou como uma renovação rejuvenescida do progressismo liberal, mas que, mesmo assim, causa muito mais medo no establishment neoliberal do que o RN.
Após as eleições, o então primeiro-ministro, Gabriel Attal, agiu conforme o esperado e apresentou imediatamente seu pedido de demissão. O presidente, no entanto, pediu que ele permanecesse no cargo por mais algum tempo para garantir uma boa transição e assegurar que tudo continuasse funcionando, por assim dizer, normalmente durante os Jogos Olímpicos e enquanto procurava um novo ocupante para o cargo.
A imprensa apelidou essa nova figura excêntrica, interpretada por Gabriel Attal, de primeiro-ministro demissionário [“Primeiro Ministro da Defesa”]. Algo inédito nessas proporções na França, mas já relativamente comum em outros países, o primeiro-ministro, assim como todo o seu gabinete, embora já não fosse oficialmente ministro, agia como tal. Paradoxalmente, ele ocupou e não ocupou o cargo por cinquenta e um dias. Como nem por isso a caneta parou quieta, ficou claro que um primeiro-ministro provisório não é assim tão diferente de um permanente. Agindo como o dono da bola, e ainda por cima como quem crê ser dono do campo de jogo, tudo apontava para uma escolha pessoal do presidente para o cargo de primeiro-ministro. Era necessário encontrar alguém que tivesse aparência de conciliação, mas que continuasse a marcha acelerada das reformas exigidas pela patronal francesa e impostas pela União Europeia. Tudo indica que Barnier apenas inverte a equação encarnada por Attal e seja, na realidade, um primeiro-ministro “permanente-provisório” (muitos já falam inclusive da possibilidade de novas eleições daqui a um ano, caso a crise de ingovernabilidade se agrave). Dada a fragilidade do ministro e do presidente, há risco real de paralisia na assembleia, o que obstruiria qualquer possibilidade de reformas ou ajustes — e inclusive a votação do orçamento de 2025 — por essas vias normais do jogo democrático.
No entanto, isso talvez não seja um grande problema para o presidente, pois, embora tivesse uma maioria estreita na composição anterior da assembleia, não conseguia aprovar nada com facilidade. Como solução encontrada, ele vem, há muito tempo, governando por meio de medidas urgentes que contornam legalmente as instâncias parlamentares. No Brasil, essas medidas legais são provisórias. Na França, o que à primeira vista pareceria análogo às medidas provisórias brasileiras, o famoso artigo 49-3, não o é, pois lá a vigência é permanente.
A aprovação da lei ocorre após simples deliberação do Conselho de Ministros, e o texto é considerado aprovado se nenhuma moção de censura contra o governo for votada, o que exigiria uma maioria absoluta da oposição no parlamento. Sem maioria absoluta, mas sem a possibilidade de a oposição bloquear as medidas, o governo atua por meio de medidas permanentes. Elisabeth Borne, primeira-ministra entre maio de 2020 e janeiro de 2024, recorreu mais de vinte vezes a esse dispositivo jurídico, inclusive para aprovar a polêmica reforma da previdência.
Parece haver uma forte tendência de concentração de poder no Executivo em detrimento dos outros dois poderes. Não são poucos os que se mostram preocupados com as tendências autoritárias na França. Assim como em outros lugares, essa reorientação social e institucional não depende necessariamente da extrema direita no poder.
Publicado originalmente em A Terra é redonda.
NOTAS DE RODAPÉ
- 1Como observou David Adler em um artigo para o New York Times, Não são os extremistas, mas sim os chamados centristas os mais hostis à democracia. Tudo vale na tentativa de impedir o que hoje é visto como extremo, inclusive medidas autoritárias e impulsivas. Muita coisa mudou desde 2018, mas o que parece certo é que o centro do espectro político acompanha a sociedade e tem se deslocado rapidamente para a direita. Cf.: Adler, David, “Os centristas são os mais hostis à democracia, e não os extremistas”, 23 de maio de 2018. https://www.nytimes.com/interactive/2018/05/23/opinion/international-world/centrists-democracy.html
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- 3Roy, Iva, “Uma trégua benéfica, mas sem maioria para a Frente Popular”, Basta!, 8 de julho de 2024. Disponível em: https://basta.media/Un-repit-salutaire-mais-sans-majorite-pour-le-Front-populaire
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- 5Um dos primeiros a diagnosticar de forma contundente essa virada específica no panorama francês foi Alain Badiou, em uma palestra proferida em 23 de novembro de 2015, poucos dias após o atentado, e posteriormente publicada em livro. (Cf.: Nosso mal está chegando mais perto. Pense nas aulas do dia 13 de novembro, Paris, Fayard, 2016).
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- 7Cf.: Marylou Magal, Marylou e Massol, Nicolas, A extrema direita, nova geração: investigação no seio da juventude identitária, Paris, Denoel, 2024.
- 8Badiou, Alain, Elogio à Política, Paris, Flammarion, 2017, pp. 115-123.
- 9Amable, Bruno e Palombarini, Stefano, A ilusão do bloco burguês: alianças sociais e o futuro do modelo francês, Paris, Liber/Raisons d’Agir, 2018. Em um artigo de 2022 publicado na Sidecar, Serge Halimi já identificava um aprofundamento e uma guinada ainda mais à direita nesse bloco burguês por ocasião da reeleição de Macron. (Cf.: Halimi, Serge, “The Bourgeois Bloc,Sidecar, 30 de junho de 2022. Disponível em: https://newleftreview.org/sidecar/posts/the-bourgeois-bloc ).
- 10Muitos suspeitam que a candidatura surpresa de Hollande servisse para disfarçar a ambição de voltar ao centro da cena política como primeiro-ministro; é bem possível que isso seja verdade, mas, até agora, essa intenção não produziu nenhum resultado concreto.
- 11Raphaël Glucksmann, filho do ex-maoísta André Glucksmann, é uma figura em ascensão no PS. Foi o cabeça de chapa do seu partido nas eleições europeias. Candidato virtual à presidência em 2027, aquele que é apelidado de “homem da esquerda plural” é próximo de Lionel Jospin, Hollande e Macron, representando a ala direita do partido e posicionando-se contra a hegemonia crescente de Mélenchon e da LFI no seio da esquerda francesa. Em 2008, na mesma época da invasão russa, Glucksmann trabalhava na Geórgia como conselheiro oficial do então presidente neoliberal e próximo dos Estados Unidos, Mikheil Saakachvili. Esse fato rendeu acusações por parte de Bardella de que ele seria inapto para ocupar funções de Estado por ter trabalhado para interesses estatais estrangeiros diferentes e, muitas vezes, segundo ele, concorrentes dos franceses. O eurodeputado é casado com uma das mais importantes jornalistas e apresentadoras de televisão francesas: Léa Salamé. A autora de Mulheres fortes (mulheres poderosas), best-sellers do “feminismo liberal” (Nancy Fraser), já teve que mudar de rumo para não interferir na carreira em ascensão do marido. Espalha-se no país da igualdade a ideia de que, apesar de tudo, ela talvez tenha que abrir mão de sua carreira brilhante e mais do que promissora, sob o risco de comprometer as ambições políticas do marido Glucksmann.
- 12Durand, Cédric; Keucheyan, Razmig e Palombarini, Stefano, “Construindo a esquerda de ruptura”, Contretemps, 22 de julho de 2024. Disponível em: https://www.contretemps.eu/construire-gauche-rupture-nouveau-front-populaire/
- 13O magnata Vincent Bolloré é uma figura importante no mundo político e midiático francês, supondo que haja uma separação entre ambos. Um dos principais empresários e com interesses de grande porte naquilo que se conhece como France-Afrique, ele desempenha um papel semelhante ao do norte-americano Roger Ailes (chefe da Fox News) como proprietário de vários veículos de comunicação e, principalmente, do canal de televisão Cnews, análogo ao americano, que serve de plataforma para a difusão em massa e diária do discurso e das ideias da extrema-direita. Há alguns anos, é o principal canal do país, não tanto pela audiência, mas pelo fato de conseguir ditar o tom e o conteúdo da agenda e do debate nos demais veículos de mídia e na política nacional.
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- 15Richard, Gilles, “Os Republicanos estão fadados a se tornar um partido residual”, Le Monde, 18 de junho de 2024.

