Como é o multilateralismo após o declínio dos EUA?

por Juliano Fiori
A atual crise da ordem mundial não se resume a Donald Trump ignorando as instituições multilaterais. Os EUA há muito tempo violam as regras. A verdadeira mudança é que Washington está perdendo a capacidade de impor suas regras aos demais Estados.

___

Este artigo, intitulado "Como é o multilateralismo após o declínio dos EUA?", foi publicado na Jacobin.

___

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, respondeu com justificável firmeza à recente confirmação de que o governo dos Estados Unidos imporia uma tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras. Entre os “atos, políticas e práticas” que o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos considerou “injustificados ou discriminatórios” e dignos de investigação formal, estavam os serviços brasileiros de pagamentos eletrônicos. O governo Trump tem denunciado com frequência o Pix, um mecanismo de pagamentos instantâneos mantido pelos bancos brasileiros sem a intermediação de empresas norte-americanas como Visa e Mastercard. No entanto, a imposição dessas tarifas também faz parte de um número crescente de medidas destinadas a enfraquecer o governo Lula antes das eleições de outubro, enquanto os Estados Unidos buscam acesso privilegiado às abundantes reservas brasileiras de terras raras. Um porta-voz do presidente brasileiro questionou a legitimidade da investigação, afirmando que ela “não se baseava nas regras do comércio multilateral”.

Mas há um problema maior. Embora os governos nacionais ainda invoquem essas regras em defesa de sua soberania, as condições que possibilitaram a expansão do multilateralismo no século XX já não existem. Embora o flagrante desrespeito do governo Trump às normas e instituições internacionais possa intuitivamente ser visto como evidência disso, ele não é o indicador mais importante: afinal, é prerrogativa de uma potência hegemônica contornar regras universais enquanto fiscaliza o cumprimento delas pelos demais. Mais importante é a aparente incapacidade dos Estados Unidos de reformular essas regras de acordo com sua própria geoestratégia em transformação. E, à medida que Washington se afastou do multilateralismo, sua preeminência global no exercício da coerção também diminuiu. Diante da ausência efetiva dos Estados Unidos das instituições multilaterais existentes, tentativas de atribuir-lhes novos significados, sobretudo por parte de Estados revisionistas como China e Rússia, têm sido utilizadas para enfraquecer a própria hegemonia norte-americana. Mas, enquanto Donald Trump pinta o mundo com novos alvos, tanto adversários circunstanciais quanto rivais sistêmicos também estão respondendo na mesma medida.

___

*Este artigo é resultado do “After Order”, um projeto de pesquisa do Alameda que explora a transformação contemporânea da soberania.

Juliano

Juliano Fiori

Juliano é o diretor do Alameda. Sua pesquisa atual aborda a economia política da crise e a imaginação da catástrofe. Seus estudos de doutorado em história intelectual exploraram a teoria política e social de Leonard Trelawny Hobhouse. Seus textos sobre política e cultura são publicados regularmente no Brasil, onde mora, na Grã-Bretanha, onde cresceu, e em outros países.
CONTINUE LENDO

ARTIGOS RELACIONADOS

A soberania mexicana na era da Doutrina Monroe

12 de agosto de 2026 Este artigo, intitulado “A soberania mexicana na era da Doutrina Monroe”, foi publicado pela Jacobin. Os governos dos EUA há muito tempo contam com o México como um “gendarme do sul”, mesmo quando o país declara orgulhosamente sua soberania. Diante do imperialismo trumpista,…

Custos da Guerra

29 de julho de 2026 O artigo “Custos da Guerra” foi publicado pela New Left Review. O discurso de Volodymyr Zelenskyy no Fórum da Indústria de Defesa da OTAN, em Ancara, no início deste mês, foi um hino à guerra com drones. Os drones, proclamou o presidente ucraniano, haviam anunciado…

Vídeo do webinar: Nuvens e territórios: repensando a relação entre espaço e poder na era digital

12 de julho de 2026 O que significa soberania na era da IA, da infraestrutura em nuvem e das plataformas digitais? Como as tecnologias digitais estão remodelando o território, a geopolítica e o poder do Estado? Neste webinar, gravado como parte da série de artigos “After Order” da Alameda,…