Subvertendo o significado da democracia

por Anna Raposo de Mello

O risco, neste século, é a normalização da recessão democrática. Ao aceitarmos um significado mais restrito de democracia, acabamos tendo uma democracia de pior qualidade e limitamos nosso alcance no que diz respeito ao domínio público

Logo após sofrer uma tentativa de assassinato durante um comício eleitoral em julho de 2024, Donald Trump afirmou ter levado “um tiro pela democracia”. Em seu discurso de posse, ele anunciou que sua eleição era uma oportunidade de “restabelecer a democracia e a liberdade” ao seu povo. Mas menos de um ano após o início de seu segundo mandato, seus ataques à democracia dos EUA eram inegáveis, desde violações das prerrogativas do Congresso, suspensões de direitos de cidadania, limitações ao direito ao protesto pacífico e restrições à independência das universidades até a criminalização de imigrantes. Entre janeiro e maio de 2025, tribunais federais bloquearam ou suspenderam temporariamente 145 medidas executivas consideradas inconstitucionais.

No Brasil, Jair Bolsonaro foi processado por tentativa de golpe. Apesar das evidências abundantes reunidas pela Polícia Federal, do amplo direito de defesa e do cumprimento do devido processo legal, Bolsonaro e seus aliados acusavam sistematicamente o ministro Alexandre de Moraes de ser um “tirano” e um “ditador”. As alegações foram endossadas pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que impôs sanções a Moraes por “grave violação dos direitos humanos”.

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Foto de uma mulher

Anna Raposo de Mello

Anna é pesquisadora e coordenadora de projetos na Alameda. Tem um doutorado conjunto em Relações Internacionais pelo King's College London e pela Universidade de São Paulo. Sua pesquisa mais recente examina o discurso político nas mídias sociais e suas implicações para a política, com foco especial na relação entre a politização digital, o autoritarismo contemporâneo e o crescente extremismo de direita. Ela também contribuiu para projetos sobre políticas antidemocráticas, multilateralismo, instituições financeiras internacionais e relações entre os EUA e o Brasil. Antes de se dedicar à pesquisa acadêmica, Anna trabalhou como jornalista por dez anos. Seus interesses mais amplos incluem política digital, tecnologia, epistemologia social e estudos de mídia.

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